Terapia no Cinema

Publicado em: 23-05-2006 @ 12:00 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Acho que em todos os aspectos da nossa vida, esperamos um final feliz. Exceto quando pessoas do nosso desafeto estão envolvidas, né? Tem gente que adora ver a desgraça daquela criatura que atrapalha sua vida. Mas de qualquer forma, é verdade que esperamos sempre algo agradável no fim de uma história, logo, sempre esperamos finais felizes nos cinemas. Mas qual o porquê mesmo, hein?

Já ouvi muitas pessoas saírem da sala do cinema dizendo que o filme era horrível simplesmente porque não encontraram um final feliz, ou porque não entenderam, ou porque não era óbvia a resposta – como até comentei na coluna passada. Que absurdo, não? Ou não? Será justo julgar um filme pelo fim? Tal qual julgar um livro pela capa?

Semana passada conferi o previsível “Terapia do Amor”. Empolguei-me para conferir esse filme simplesmente porque queria algo leve, que servisse como ferramenta para uma desopilação do mundo “workaholic” que vivo. E serviu. Só não tão bem porque me deixou muito sensível pelas causas amorosas… Tá certo que a amiga que me fez companhia é sensacional, maluca como eu, mas um príncipe contemporâneo seria bem mais condizente com o contexto!

Ah, antes que você passe para o próximo parágrafo… Se você não viu o filme e não quer saber o final caso pretenda ver, pule o próxima parágrafo e volte depois da seção para ler a coluna completa!

Enfim, por incrível que pareça, “Terapia do Amor” não foi tão previsível quanto eu esperava. No último suspiro, ele virou a mesa. O filme não acaba no “e foram felizes para sempre”. Milagre!

Intencionalmente ou não, o final do filme proporcionou uma compreensão até madura sobre a relação dos dois, atrapalhados pela idade e pela crise ética da mãe. Sei que eu e minhas viagens cinéfilas chegamos num ponto interessante. Dois, aliás.

Primeiro, sobre o próprio filme. Acho que os dois personagens alcançaram um amadurecimento sobre a relação. Será que não importa apenas gostar da pessoa para ficar com ela? Eu sou a favor dessa filosofia, particularmente. Mas isso agora não importa. Quero pensar no geral. Será que ainda existe espaço para tanto romantismo no mundo de hoje? Num mundo que para ter um filho, tem que se pensar não só no nome do menino e na cor do quarto do bebê, mas nas contas que virão. Temos que calcular o planejamento, o investimento e o prejuízo de se ter um filhote! Exagerada? É, bem capaz. Mas sou fã de Cazuza. Faz parte do meu show.

Segunda questão. Por que as pessoas anseiam tanto por um final feliz? Provavelmente pelo mesmo motivo que já falei em colunas passadas: por que muitos vão ao cinema e se projetam nas telonas. Vivem junto com o personagem o seu drama. Mesmo que temporariamente. Sendo assim, não seria conveniente passar por situações desagradáveis. Quase uma frustração.

Mas que complexo, não? O ingresso como passaporte para um mundo virtual mais agradável, uma fuga da realidade. Quase um projeto de “a la Vanilla Sky”.

Cinema de Palavras Mudas

Publicado em: 16-05-2006 @ 11:59 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Jurandir Filho

Mais brilhante do que expressar emoções por palavras é expressar sem elas. O risco de ocorrer má interpretação – ou interpretação alguma – é grande, mas ao mesmo tempo em que se abre a porta para a possibilidade de erro, abre-se a porta para a imaginação de cada um, e isso não tem preço. Filmes que mexem com isso me encantam facilmente, principalmente quando brincam com animação.

Finalmente tive a sorte de assistir “As Bicicletas de Belleville” (2003), uma animação francesa fantástica do diretor Sylvain Chomet. Mas não vou falar aqui da história. Quem tiver a oportunidade, confira. Quero falar mesmo é da magia do desenho.

Os personagens são fantásticos. Pouquíssimas palavras, mas muita exploração sonora. Eles interagem de forma subliminar, muda, mas mesmo assim, intensa. Mesmo mexendo apenas os olhinhos, uma onda de emoção é passada a cada tela. Os vícios de cada personagem nos fazem conhecê-lo além do tempo da história. Os gestos que delineiam traços do caráter. Muita simpatia, muita empatia. Tenho que concordar com uma amiga de infância, “os franceses são fantásticos”.

Mas o que fiquei pensando depois de ver o filme foi: será que todo mundo entendeu? Provavelmente não. Infelizmente, boa parte das pessoas que eu conheço dormiria no meio do filme, acharia sacal. Apenas fofinho, mas sem história alguma. Não por incapacidade intelectual – talvez, mas muito provavelmente por que não somos acostumados a absorver esse tipo de produção.

Somos da era da comunicação. E muitos entendem isso como era do “jorro de informações compulsivas”, quando tudo tem que ser dito, explícita e objetivamente. Walter Benjamim já falava disso, Umberto Eco e Ciro Marcondes também fizeram coro. Cada dia que passa, com o avanço das comunicações, o homem perde a sensibilidade de ser narrador e ouvinte. A atenção se dissipa e não processamos tão bem informações que não nos chegam de forma óbvia.

No cinema americano, sempre temos problemas e tensões. O clímax. Mas todos sabemos que no final tudo vai se resolver. As ansiedades serão aliviadas, os problemas resolvidos, o final esclarecido. No cinema europeu, não há tanto essa preocupação em “saciar” o público, mas sim em questionar e levantar pontos inesperados. É aquele filme que acaba e metade da sala fica: ahn? São dois extremos, talvez, mas podemos encontrar filmes que intermediam essa linha.

“Encontros e Desencontros” e “Moça do Brinco de Pérola”. Dois filmes pelos quais sou apaixonada, por todos os motivos possíveis, pessoais e técnicos. Muito provavelmente, “Encontros e Desencontros” me ganhou de cara pela situação na qual eu assisti ao filme. Eu estava quase a própria personagem da Scarlett Johanson, a Charlotte. Mas vendo pela segunda vez, reafirmei minhas idéias. O filme não termina como todos nós esperávamos, o que chega até a dar raiva. Muitas cenas não terminam como supostamente achávamos que deveria terminar. Não há casos de amor tórridos nem encontro de almas gêmeas. A maior mensagem do filme não é dita pela boca dos personagens, mas pelos olhos. Melhor exemplo que esse, só “Moça do Brinco de Pérola”, que chegou a me deixar agoniada, com vontade de pular na tela e fazer os dois de atracarem! Por sinal, são dois filmes com a loirinha Scarlett Johanson… Bom gosto que ela tem!

No segundo filme, os diálogos se tornam secundários, se comparados com o peso dos olhares dos personagens, principalmente do pintor Vermeer (Colin Firfh) e a empregada Griet (Scarlett). A timidez, a resignação, a admiração, o ciúme. Tudo passa como faísca e nenhuma palavra sequer é dita. E não só entre os personagens principais, mas todo o elenco é envolvido por essa “nebulosidade”. Brilhante. Acho até que um filme assim envolve mais quem assiste, por que convida a pessoa a participar do subjetivo, a interpretar, a adivinhar o que realmente passa pela cabeça daquela personagem. Tal qual nas obras barrocas. O cinema como arte, realmente.

Outro filme que trabalha também essa linha “muda” é o recentemente premiado “Crash”. Em quantas cenas ali não se esperou uma avalanche de palavrões, ou um choro infinito, ou um abraço gratificante? Várias! Mas o diretor trabalhou muito bem os atores para que eles valorizassem a arte de interpretar. Passar uma emoção por uma frase é muito simples. Dizer “eu te amo” é muito fácil. Provar isso, demonstrar isso, é algo que demora uma vida inteira se for o caso.

O óbvio é óbvio. Não tem mistério. Não tem charme. O dito pelo não-dito é muito mais atraente e misterioso. Exige mais de quem assiste. Torna a vida e a relações muito mais valiosas. E como Rodrigo Santoro disse uma vez em resposta sobre sua participação em “As Panteras”, “se a ausência de palavras fosse tão insignificante, o cinema mudo não seria tão aplaudido”.

Nas Entrelinhas de Selvagem

Publicado em: 26-04-2006 @ 11:57 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Por trás do que pode parecer inofensivo e normal, pode-se esconder intenções duvidosas. Tudo, inclusive a arte, pode sofrer da “síndrome da faca de dois gumes”. O cinema não fica fora disso e muitas vezes foi usado para limpar nomes, desmistificar e mistificar histórias, criar lendas… “Selvagem” foi o último filme que vi que me fez repensar sobre essa idéia, por incrível que pareça.

Mais uma vez, eu falando do meu vício: animações. “Selvagem” é algo meio “chapado” de “Madagascar”, que mistura um drama a lá “Rei Leão” e personagens típicos. Tem seus momentos engraçados, mas não passa de uma diversão despretensiosa e que pode até cansar o cidadão por alguns instantes.

Mas o que me fez vir citá-lo no início dessa coluna não foi isso, mas sim uma idéia nas entrelinhas do filme, idéia que inclusive vi outros amigos da área discutindo. “Selvagem” conta, ligeiramente falando, a história de um grupo de bichos do zoológico de Nova York que viaja para a África em busca de um companheiro que foi parar lá por acidente. Chegando lá, eles recuperam o amigo perdido e ainda detonam com a religião dos gnus, convertendo-os para o lado deles e destruindo o líder dos gnus. Perceberam algo? Ok. Vou facilitar. O nome do líder era Kazaan e os gnus têm rosto estreito, olhos redondos e barba preta. E aí? Sim, eles devem ser descendentes dos árabes. Olha só, caiu a ficha? A América vai até a África em um ato heróico e detona com o que encontram por lá, trazendo de volta seu tesourinho e uns novos convertidos.

Alguém pode me dizer o porquê do líder “ter” que se chamar Kazaan? E de ele viver em cavernas sombrias? Tá, eu posso estar exagerando, mas convenha: você já ouviu essa história antes, e ela está muito parecida com uma sátira da realidade. Vou ser ingênua e pensar: será que alguém da equipe se inspirou no arquivo EUA x Oriente Médio? Ou na novela mexicana “Bush, onde estará Bin Laden?” ? Não sei, não sei. Mas que está estranho, está.

Sacanagem. Apelaram para as animações. Já foi visto muito isso em trocentos filmes épicos e verídicos. Quantas vezes Hollywood não tentou minimizar a vergonha da Guerra do Vietnã? Não sabem perder. Até hoje tem o orgulho ferido porque foram derrotados por uns cabinha de olho puxado que usam armas inferiores e calçavam pneus! E não só isso. Depois do 11/9, quantos filmes apareceram abordando o tema de diversas formas? E quando falo filme, coloco os documentários no meio. Michael Moore saiu de primeira com “Fahrenheit”, e o Bush ainda saiu em outro, ridículo por sinal, apelando para o patriotismo e compaixão da humanidade. Eu passei mal assistindo.

Mas não vou discutir política aqui. É que nem outra coisa aculá, cada um tem o seu. Seu time, seu gosto e o que mais tiver que ser. Meu ponto é o poder de formar opiniões que o cinema tem, podendo ser usado das formais mais explícitas, como das mais sutis.

Outra coisa que pensei é que o cinema, por ser arte talvez, tem a capacidade de romantizar as histórias, distanciar da realidade. Por exemplo, a questão da África. Quantos filmes temos falando diretamente da questão? Ou colocando-a como plano de fundo? “O Jardineiro Fiel”, “O Senhor das Armas”, “Amor Sem Fronteiras”… Sabe aquele argumento da percepção que diz que o exagero pode intensificar a idéia, mas também banalizá-la? Talvez isso aconteça. Se acontece na televisão, quando vemos as notícias dos jornais e tem gente que acha que está longe daquela corrupção e miséria! Imagine se isso for maximizado e passar para a telona. Talvez seja algo que não dependa apenas da intenção do diretor, mas da consciência crítica de quem assiste. E essa segunda é de vital importância. Com ela, dispensariam-se os alardes, não precisaríamos colocar em xeque a urgência de certos problemas. Apenas citando-os já teríamos uma análise mais crítica. Sem ela, muitas intenções tornam-se inúteis porque que as assiste não tem capacidade de absorvê-las. E pior, pode absorver completamente errada. Cabe até piada para pessoas inteligentes nessa parte…

É. Muitos filmes fantasiados ainda virão. Muitos filmes realistas e consistentes também virão, como veio os que citados acima e como veio “Crash”. A influência do cinema continuará, cada vez mais adaptada, e nós continuaremos consumindo-o. A questão é: você engole sem processar tudo que consome ou analisa as entrelinhas do que lhe é servido? Não seja um selvagem. Faça bom uso do que te distingue dos bichos da arca de Noé!

Era do Gelo para Adultos

Publicado em: 13-04-2006 @ 11:41 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Engraçado. Ingênuo. Previsível. Talvez… “Era do Gelo 2” pode ser uma animação, mas seu tom de brincadeira e de muitas cores pode esconder uma série de reflexões sobre os tipos de pessoas que habitam nosso mundinho.

Eu sou fã de animações. Não perco uma! Me troco pelos bichinhos fofinhos e rio por qualquer besteira. Talvez seja mais fácil agradar a mim do que a uma criança de verdade! Mas depois de assistir “A Era do Gelo 2” e matar minha sede de risadas, percebi que esse filme segue uma linha de animações para adultos, no mesmo estilo de “Shrek”.

Após algumas conversas com um amigo cinéfilo e com outro companheiro fã de animações – principalmente do tipo monocromática, percebi mesmo que poderíamos tirar boas reflexões do filme.

Aquele esquilo mazelado eternamente em busca da última noz. A gente ri da desgraça do pobre coitado, mas muitos de nós podemos nos identificar com ele. E deveríamos nos inspirar nele! Apesar de todos os obstáculos, ele não desiste. Tá certo que ninguém sobreviveria ao que ele passou, mas ninguém aqui também é doido de levar tudo ao pé da letra. Eu acho… Quem sabe um aviso “não façam isso em casa” seria conveniente durante o filme. Mas independente do sucesso do infeliz, devemos invejar a disposição que ele tem, a garra!

Mas sim. Continuando. De cara, já temos uma lição de determinação e força de vontade. Depois chegam as mais mastigadas: instinto de sobrevivência, necessidade de provar coisas a todos e a si mesmo, checar os fatos antes de fazer algo…

Agora tiveram duas que achei mais interessantes: a do Sid, a preguiça aglutinadora, e a crise de existência da Ellie, a mamute-gambá. Devo dizer que sou fã do Sid. Ele é um prego carismático. Ninguém dá nada pelo pobre. Ele é alvo de chacotas sempre e nada que ele fala é levado em consideração a princípio. Mas acontece que apesar disso tudo, ele é um dos melhores personagens, de grandíssima importância. É ele quem une a turma. É ele quem faz o Diego vencer o medo de água. É ele quem manobra a cabeça-dura do Manny. É ele quem faz a galera rir também. Ele é o chiclete necessário. Aquela coceirinha chata, mas boa de sentir. Sim, sim.

E a questão da Ellie? Para começo de conversa, que viagem torta! Uma mamute pensar que é uma gambá! Mas nem falem muito. Aquilo ali nem está tão longe de nós. O mundo aí está cheio de casos assim.

Mamutes que pensam que são gambás. Gambás que pensam que são mamutes. Mas esses não são os piores casos. Pior é um gambá que pensa que é mamute e convence os outros de que é mesmo um mamute! Aliás… Tem coisa pior. Pior ainda é um gambá que sabe que é gambá, finge que é mamute e convence os outros disso. Já dizia Picasso: para ser um gênio, basta convencer os outros disso. E por aí temos muitos casos assim. São os famosos “convencidos”. Ou também chamados de esnobes, sem-noção, enxamistas… Existem diversos nomes para esse tipo de comportamento. Mas ainda acredito que isso é coisa de “gente sabida”…

E para começar falando disso, vamos diferenciar o que é sabedoria e o que é sabidoria. Sabedoria é digno daquele que é sábio, sapiente. Inteligência. Sabidoria é digno do malandro, do “sabido”, do espertinho que tem sempre um jeito de facilitar a própria vida s custas dos outros. É nesse quadro que encontramos o tal “jeitinho brasileiro”.

Tem gente que acha a sabidoria um “must”. “É o certo mesmo!” Mas acontece que nos dias de hoje as coisas estão mudando, e nem sempre o espertinho consegue se safar de tudo. Ninguém consegue fechar todas as torneiras, certo? Prova disso são as várias descobertas e punições que estão acontecendo por aí. Estamos longe de alcançar o “nirvana” da justiça, mas quem sabe estamos dando os primeiros passos da ética.

Já é um ponto de reflexão interessante. Hoje em dia, dizem que é mais importante “parecer” do que “ser”. Será que continuará assim por muito tempo? Ou as máscaras estão começando a cair mais rapidamente? Os gambás estão sendo descobertos e os mamutes descobrindo sua real capacidade?

Leonardo Boff já falou sobre isso usando águias e galinhas. Não usando necessariamente essa minha abordagem do “fingir para enganar”, mas usando a do “fingir por que não sei quem sou”. Uma pessoa-mamute que cresceu entre pessoas-gambás não vai saber que tem sangue de mamute. Não vai conhecer sua força e sua capacidade, e logo pode tornar-se alguém medíocre involuntarimente. Ainda tem a pessoa-gambá que quer pertencer aos mamutes e se esforça ao máximo para isso, ultrapassando seus limites, passando até para o grupo das pessoas-esquilos!

Já viram que dá para sair classificando as atitudes e os indivíduos de diversas maneiras, hein? Cada personagem do “Era do Gelo 2” pode representar um perfil. Quem sabe aquilo ali é uma paródia de situações corriqueiras nossas, disfarçadas com humor. Descubra qual personagem combina com você, então. Só não tente enganar os outros. A conta sempre chega para ser paga.

O Plano Perfeito, no Brasil

Publicado em: 04-04-2006 @ 11:38 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Lembro que quando soube daquele roubo “cinco estrelas” ao Banco Central aqui em Fortaleza, pensei brincando: eita, esse povo deve Ter visto muita televisão! Na verdade, nem duvido que eles tenham tido as idéias por alguma mídia por aí, mas gostaria mesmo é de que fosse adicionado ao programa da Escola dos Ladrões o filme “O Plano Perfeito”

Todo mundo sabe da influência que a mídia tem sobre as pessoas. De forma positiva ou negativa, forte ou fraca, ela sempre atinge os telespectadores. O que varia é o senso crítico e o poder de reflexão com que o indivíduo rebate isso. Mas, não vou aqui voltar ao velho discurso da indústria cultural, do julgamento da televisão. Quero falar de algo mais específico. E divertido.

Nós temos vários filmes que abordam assaltos a bancos. Roubos magníficos, como em “Ladrão de Diamantes”. A lista é vasta. E metade vieram da mesma “sala de criação”. Foi quando lançaram ‘O Plano Perfeito’. “Outro!” Acontece que o elenco me fez pensar duas vezes antes de classificá-lo como mais um “10 dicas de como assaltar um banco com glamour”.

Denzel Washington tem uma filmografia maravilhosa. “Chamas da Vingança”, “O Colecionador de Ossos”, O Dossiê Pelicano”… Clive Owen, sou suspeita a falar. Sou fã. “Closer”, “Sin City”, “A Identidade Bourne”. E para quebrar o patriarcalismo, Jodie Foster. A premiada de “O Silêncio dos Inocentes” e “Taxi Driver”. Seria muita decepção “O Plano Perfeito” ser apenas mais um filme de assalto a bancos!

Felizmente, eu me enganei. Não é um filme espetacular. É um filme normal. Mas eu gostei muito das impressões que pude tirar dele. Spike Lee fez bem na direção. Os roteiristas Russel Gewirtz e Menno Meyjes acertaram no desenrolar. O elenco está adequado e a trilha sonora está uma graça. A música de início é muito legal! É corrido, com takes diferentes do que costumamos ver, com detalhes interessantíssimos.

Na verdade, eu menti para vocês. O filme não fala de um assalto a um banco, do tipo normal. É quase isso. Mas não é. Os malandros daqui deviam mesmo assistir a esse filme e seguir a sua cartilha. Quem sabe o Brasil não melhorava! Na verdade, o ladrão é quase um mocinho. Ele tem pinta de malvado, mas é gente boa. Deve ser até um dos mais corretos por ali. Só é um pouco drástico!

Estou enrolando vocês, não é? É que não queria entregar a surpresa do filme. Mas vou falar apenas o que as próprias sinopses liberaram. É um roubo com intenções “nobres”, digamos. E quando ele começa, muitas pessoas entram em jogo. Interesses de pessoas poderosas valem mais do que a ética ou a lei. Suborno. Chantagem. Ninguém pode confiar ou ser confiado. Vence quem é mais esperto e ousado. Nada que não costumamos ver na nossa realidade.

O personagem de Clive Owen, Dalton Russel, é inteligente e meticuloso. Mesmo passando a maior parte do filme mascarado, o cara deixa você “trancado”. E o mais engraçado é que algumas cenas do filme alfinetam temas que fogem do principal. No final, tudo pode ser encarado como pequenas críticas.

A educação das crianças, a produção de jogos violentos, a má educação de algumas criaturas, o preconceito, a corrupção. Tudo é tocado no filme, mas de forma tão sutil que pode passar despercebido por aqueles desatentos ou com fraco poder de reflexão.

Se um roubo daquele tivesse que ser realizado no Brasil, acho que quem sairia no prejuízo seriam os ladrões. Primeiro, eles não conseguiriam metade da atenção que iriam querer de principio. Iria demorar uns dias, já que a polícia daqui não é das mais eficientes. Segundo, roubar já é rotina. Não está na lista Top de Alarme. Terceiro, haja paciência para escolher alguém a ser “punido”. Aqui é tanta gente que não presta, que tem passados comprometedores, que não bastaria ser apenas um assalto. Teriam que ser vários, uma maratona! Quarto, não poderia ser em qualquer época do ano. Teria que passar longe do Carnaval, da Copa do Mundo, do fim de novela das oito. Não poderia ser no fim-de-semana nem na Segunda-feira, porque até aí ninguém trabalha direito. Coisa complicada, não?

Tem até uma cena engraçada. Quando os policias estão todos ao redor do banco, nervosos e em posição de ataque, a câmera dá uma visão aérea e lá se vê uma pombinha branca atravessando a rua muito tranquilamente. Parecia até que ela estava gozando da cara daqueles caras uniformizados com armas na mão. Somos muito medíocres mesmo. Só não sei se a Dona Pomba foi convidada especial ou deu uma de “Robert”.

Enfim, “O Plano Perfeito” é um filme inteligente, que pode até dar idéias para os espertinhos de plantão. Mas calma, aqui no Brasil, não é tão fácil acontecer algo daquele tipo. Só as coisas normais mesmo: bang-bang e dinheiro.

Crash

Publicado em: 30-03-2006 @ 11:56 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

“Closer” escancarou a realidade dos relacionamentos amorosos. “Crash” escancarou a realidade social do mundo estúpido em que vivemos. E essa é uma ferida que afeta toda e qualquer criatura que sobreviva nessa bomba que chamamos “sociedade”.

Falaram e falaram desse filme. Mais ainda quando ele ganhou o Oscar. Antes tarde do que nunca, fui conferir o tal de “Crash” essa semana. Para o meu completo espanto, pude ver que ele, mais do que merecidamente, fez jus a todos os bons comentários. Com um elenco estupendo, com um roteiro maravilhoso, com uma trilha sonora curta e mais instrumental, muito bem escolhida, “Crash” certamente foi um dos melhores filmes que já tive o prazer ver. Daqueles que fazem você se sentir diferente na volta para casa. E melhor ainda, daqueles que te dão um “pedala” e dizem: que mundo insano é esse, hein?

Raiva. O filme todo é cheio de raiva. Impressionante como o ser humano consegue ser vingativo e violento. Impressionante como vivemos num mundo de bola de neve. Impressionante como a teoria do caos ganha asas com pouquíssimas faíscas. Impressionante como somos hipócritas ao achar linda a harmonia das sete cores do arco-íris enquanto não conseguimos viver em harmonia com a monocromática. Sim. Negros. Brancos. Isso sendo bem generalista e deixando de lado os pardos, mestiços, amarelos e a “paleta” a quatro.

A impressão que tive é que, na verdade, estão todos perdidos. Confusos com tanta informação e com tanta injustiça. A rotina embaça a vista, já disseram. E pode até fazer você ver o que quer ver, ao invés do que realmente é. Não existe mais distinção entre preconceituosos e não-preconceituosos, racistas ou não. Existe quem foi e quem não foi afetado por ele. E todo mundo está vulnerável a isso. Absurdamente.

A dignidade não vale mais nem um piper. O respeito já pediu demissão. O senso crítico virou um covarde. A justiça está de férias nas Bahamas alegando que estava com problemas de saúde – estava daltônica. A humanidade voltou para a selva. Chutaram o pau da barraca e ninguém está nem aí para catar os cacos.

Eu fiquei impressionada como o filme é sensível, sem ser clichê. Ele não amola, nem faz sensacionalismo. Ele só mostra o que acontece no mundo afora. Simples assim. E para quê inventar histórias mirabolantes, revoltantes e malucas se o nosso mundo nos dá tudo isso, de graça e a cada 5 minutos? “Crash” é duro por isso: ele cutuca a ferida. Arregaça as suas pálpebras e mostra o que acontece do lado de fora do seu carro. Não é o moleque do sinal que pede uma ajuda e você vira a cara para não encarar. No cinema não dá para fazer isso. A não ser que você queira jogar fora a pequena fortuna que pagou antes de entrar na sala…

Dizem que o que diferencia o homem do animal é a consciência. Mas eu, sinceramente, acho que não há mérito nenhum em ter consciência e se fazer o que é feito por aí. Pior do que fazer o mal, é ter consciência de que esse mal está sendo feito. Que honra se tem nisso? O homem é um bicho complexo. Constrói templos e campos de concentração. Aprende a medicina e provoca a morte. Acaricia e estapeia. Dualidade caótica, não?

Onde foi que perdemos o nó da meada, hein? E é maravilhoso saber que um filme como “Crash” foi produzido. Mas quem disse que ele vai mudar a realidade? Quem disse que nós vamos cair na real e fazer algo? E não é só questão de saber o que fazer, é ter coragem para tal. Hoje em dia, quem tenta ser correto pode levar uma bala no meio da testa. Falar num tom mais alto pode ser a senha para a violência. Quem se arriscaria?

Todas as cores. Todas as raças. Todas as religiões. Tanta riqueza cultural e tanta desordem social. E nem quem é do mesmo “time” se respeita. Um por ninguém e todos por nenhum. Está aí, na vista de todos. Só abrir a janela. Só não vê quem não quer.

Agora, falei muito da questão do preconceito… Mas o filme não fala apenas disso. Tem muito mais. Ele mostra vidas paralelas que se colidem. Talvez por isso as batidas no início e no final do filme. As nossas vidas são cheias de colisão. Muitas vezes explosivas.

Mas o filme tem esperança também. Esperança de que essa raiva passe. Que essa sensação carente de conforto e compreensão se acalme. Nem todo mundo é mau. A maioria só está cansada. Revoltada. Inerte. Assustada. É como diziam os sociólogos: o homem é produto do meio. Mais do que nada, o homem é um simples homem. Um animal. E por ser isso, é bom e é ruim. Tem seus defeitos e qualidades. E “Crash” mostra isso cruamente.

Não sei mais como definir esse filme. É muito bom. As histórias que vão se desenrolando e se entrelaçando, fazendo você ficar tenso na poltrona… “De cara”. E ele não é tão “americano”. Ele não é óbvio. Em nenhum momento ele é previsível. Palavras são ótimas, mas olhares dizem muito mais. Esse filme tem cenas maravilhosas. Quase emblemáticas! Como a cena em que a menina corre para salvar o pai. Jogue pipoca quem não ficou no mínimo com um nó na garganta durante o filme!

As atuações estão ótimas. Matt Dillon ganhou meu respeito. Até a Sandra Bullock! Sempre achei que eles dois faziam papéis medíocres… A trilha sonora, maravilhosa. Maior parte sendo toda instrumental, apenas para dar o clima e manobrar as emoções. O final com “Maybe Tomorrow” do Stereophonics foi a gota d´água para eu me apaixonar…

Espero que a maioria das pessoas que puderam assistir ao filme tenham uma boa reflexão. Assim como as histórias do filme não mudaram no final ou foram solucionadas, nossa realidade não vai mudar só por que conseguimos enxergá-la na tela do cinema. Confira o filme. E deixe ele fazer um “crash” na sua miopia social.

Match Point!

Publicado em: 21-03-2006 @ 11:55 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Eu passei a olhar para a sorte de um jeito diferente depois de assistir ao último filme do baixinho Allen, “Match Point – Ponto Final”. Esse pequeno grande diretor, mais uma vez, se saiu muito bem no novo filme, mudando um pouco os tons, mas deixando seu jeito se sair nos pequenos detalhes. Se duvidar, vou começar a jogar tênis também!

O cara pegou de jeito! Fez a sorte me pregar uma peça! “Caba” quente! É, tô falando do Woody Aleen. E pior, ainda cutucou minhas feridas! Quero ir para Londres! Quero ouvir o sotaque britânico no meu pé do ouvido! Por que eu já estou sofrendo demais… Semana passada fui tentada pelo Hugh Grant e o Colin Firfh, enquanto menos tinha me recuperado da overdose platônica com o Jude Law e o Clive Owen. Agora, tive que me segurar com o Jonathan Rhys Meyers e seus olhos fuzilantes de azul intenso. Fala sério, vamos maltratar, mas torturar é terrorismo! Ah. Ok. Acabou o desabafo. O filme.

Eu jurava que sabia o final. E pior que mesmo achando que sabia, estava nervosa do mesmo jeito. Woody brincou conosco nesse filme! Lembro que assisti com uma amiga que sofreu bem essa ansiedade nervosa que o filme passa. Aliás, ela sofreu e o meu braço também! A sorte realmente é um bicho estranho. E a comparação que é feita no início do filme é maravilhosa. Os momentos de pequeníssimo espaço de tempo que decidem uma partida, que decidem uma vida. O minuto que você se atrasa e perde o ônibus, escapa de um acidente e pega o próximo e conhece o homem dos seus sonhos. Há! Sorte demais, né? Mas o Chris Wilton, personagem fofo-vilão, estava lambuzado dela. Aparentemente. Eu não sei lá bem se ele foi sortudo, felizardo feliz, com o resultado da sua “sorte”… Mas eu não posso falar senão vou entregar o filme. E como pessoa boa que eu sou, quero forçá-los a assistir!

Como se não bastasse a trama já ser excelente, o Allen ainda investe nas boas óperas para rechear o filme. Escolhidas a dedo! Maravilhosas! Estupendas! Adoro óperas. Tão emocionantes! E eu lembro que de tão mergulhada que estava na história, nem parava para raciocinar: olha, é ópera! O encaixe está perfeito. Você vibra, torce, teme. Acaba que você não sabe exatamente para quem está torcendo. E ainda tem um detalhe: nos momentos de tensão, a música sempre se repete, como um vinil arranhado. Sensacional.

Não posso deixar de falar da Scarlet Johanson. Go, girl! Ela, além de estar linda, mulherão sensual, ainda encarou o papel super bem. Essa garota me fascina, desde “Encontros e Desencontros”, quando fez uma criatura meio garota-nerd-gente-fina. Sem falar de “Moça do Brinco de Pérola”, que ela passa toda emoção e confusão do personagem pelos gestos e olhares, já que ela quase não fala. Palmas para ela.

E quem esperava ver Nova York e viu Londres? Novidade, hein? Os sotaques estavam bem carregados. O estilo londrino também. Mas se você prestar atenção, as cenas de Londres que são mostradas lembram Nova York. As ruas cheias de lojas, os parques ao estilo Central Park… Uma leve relembrança ao seu estilo americano. E por sinal, esse filme não tem nada do cinema americano. O cinema que resolve todas as questões e não deixa problemas, com finais felizes ou previsíveis.

Mas, espera. É complicado falar desse filme. Eu ainda estou digerindo as suas idéias. O que até agora tem me pegado mais é a questão de saber o que é sorte. Sorte é uma força que nos leva s coisas boas? À felicidade? Sorte é tipo aquela mulher sacana que fica brincando de uni-duni-tê lá em cima, escolhendo quem vai se dar bem, quem vai se dar mal? Sorte é uma invenção nossa para explicar acontecimentos maravilhosos? E também para explicar os desgraçados ao cubo… Sim, não esqueçam que existe a presença da sorte e a sua ausência também, viu?

E o filme parece ser uma história de amor. Mas não lá muito romântico da forma convencional. E também não é história de trapaças. É mais complexo do que isso, por que mistura várias coisas, por que se pode tirar várias interpretações e por que apresenta várias tópicos para serem discutidos. É um filme bastante denso.

Como disse uma vizinha minha, será que a sorte e a felicidade andam juntas? Sempre? Até por que no filme dizem “não desejo felicidade, desejo sorte”. Como se uma fosse conseqüência da outra? Parece utopia. Sorte. Felicidade. Até o amor entra no meio. São apenas conceitos abstratos. Subjetivos demais para serem tachados. Cada um escolhe a sua sorte, eu acho. Depende da facilidade de se satisfazer, das ambições. Você pode achar que não tem sorte por que não tem dinheiro. Alguém pode se achar super sortudo por que tem amigos verdadeiros. Varia. Eu me acho super azarada por não ter aquele sotaque britânico só para mim. Mas acho que a sorte olhou para mim quando me apresentou filmes bons, como esse do Woody Allen. Coisa volúvel. Efêmera. Mesmo assim, desejo boa sorte para vocês. Mesmo não sabendo exatamente o que quero dizer com isso!

Essência a la Bridget Jones

Publicado em: 13-03-2006 @ 11:45 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Por que o gênero mulher-desastrada provavelmente-desquitada provoca tanta simpatia? Estava eu assistindo ao hilário “O Diário de Bridget Jones” pelas terceira vez e fiquei me fazendo essa pergunta: será que todas as mulheres tem uma Bridget dentro de si?

Vou começar logo dizendo que a coluna dessa semana está a mais feminina de todas. Desculpem-me, rapazes. Prometo que recompenso vocês na próxima vez. Mas foi uma mera coincidência do destino eu estar, ontem noite, na casa da minha vizinha, reassistindo casualmente “O Diário de Bridget Jones”. Acontece que fiquei me perguntando: por que será que esse filme é tão queridinho? Vou sair elencando pontos que podem ser responsáveis por esse carinho todo.

Tá certo. Tem o Hugh Grant e o Colin Firfh. Me dá uma dor só de olhar aqueles dois britânicos maravilhosos. Ai, só perdem para o Jude Law e o Clive Owen em “Closer”… Enfim, já temos nossa dupla de galãs: o canalha e o correto. Temos uma protagonista hilária e desastrada, talvez a mistura certa para arrecadar empatia do público. Sim, só na primeira cena ela já nos ganha. Bridget, uma garrafa de vodka (e Absolut ainda!) e Celine Dion detonam no dueto de “All By Myself”! Atirem a primeira bolsa aquela que nunca cantou emocionadamente um desses clássicos melosos em situações desbotadas da sua vida! No chuveiro ou na cozinha, no carro ou no elevador… Podem admitir. Rola uma identificação sim, bem básica, mas rola!

Fora isso, logo de começo a Bridget já declara guerra s gordurinhas indesejadas - drama de toda mulher de verdade, fora os cigarros e
abstinência sexual. Vou ignorar as últimas duas opções, mas da primeira, ninguém escapa. Nem a Kate Moss, nem a Gisele Bundchen. Gordurinhas indesejadas estão no topo da lista negra feminina. E nossa heroína desastrada vive bem esse drama. “Eu pensei que você tinha dito que ela era magra”. Ninguém merece ouvir isso, ainda mais no instante em que se descobre que é corna!

E falando em chifre… Que mulher nunca sofreu nos braços de um canalha por excelência? Pior quando é do tipo do personagem do Hugh Grant. Daniel Cleaver: lindo, charmoso, rico e canalha. Para quê melhor? Ou pior? Até o nome do cafajeste já diz: Cleaver. Do inglês “cleaver”, inteligente, sabidinho. Pensa que engana! Mas engana. E a infeliz da personagem de Renée Zellweger caiu que nem uma patinha, e não só ela.

Mas para equilibrar a gangorra, aparece o personagem do Colin Firfh: Mark Darcy. Discreto, mas desconcertante. Inteligente e com futuro promissor. Sem muitas ações, mas com uns olhares fuzilantes. O típico queridinho da mamãe e das mulheres adjacentes também! E melhor, ele ainda gosta dela do jeito que ela é. Matou. Tá amarrado!

Claro que isso tudo não foi desenrolado tão facilmente. Quase que não sai, por sinal. E no durante, é uma mescla de risada com agonia, sorte e azar. Só sei que se você parar para prestar atenção, o público que se envolve com o filme acaba se transformando numa torcida organizada! Justamente pelas possíveis identificações que podem vir a surgir, de
forma bem brincalhona, claro. O filme é uma comédia romântica, mas que traz dramas bem comuns de nós todas, de uma forma bem descontraída. Por isso deve ter tanta empatia. Afinal, eu ainda acho que dentro de cada mulher por aí, existe uma essência a la Bridget Jones. Nem que seja por uma fase, nem que seja o tempo de uma garrafa de vodka!

Vanilla Sky

Publicado em: 07-03-2006 @ 11:42 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Viajando pelo céu de baunilha, pode-se subtender muitas coisas através da máscara de David Aames. Dispensando a ficção científica, para mim, Vanilla Sky é muito mais uma exposição dos efeitos e conseqüências das sensações que qualquer viagem futurística. Sem querer concluir ou responder questões, a coluna dessa semana se trata apenas de rascunhos e pensamentos “vanillianos”…

Doce e amargo. Será que pode? Pode. E como! Como disse Brian Shleby: eu conheço o amargo, o que me favorece a apreciar o doce. Você só valoriza o doce do amor quando prova a sua amargura. Se duvidar, dá para dizer que nós, seres humanos e mortais, somos viciados em relacionamentos. Mesmo sabendo da dor. Da dor desgraçada e quase interminável que sentimos quando o amor se acaba para uma das partes, principalmente quando é “apenas” para uma das partes. Somos viciados no doce? Ou no amargo? Ou no eterno ciclo de temperos da vida?

Transformar a vida num sonho lúcido para reviver um amor falido. Mais ou menos isso que o personagem de Tom Cruise, David Aames, fez em Vanilla Sky. Mas imagine se pudéssemos fazer isso realmente. Viver num mundo onde o céu era pintado por Monet, onde os vinhos eram escolhidos por Modigliani, onde a música era tocada por Jeff Buckley (que inclusive dá uma canja com “Last Goodbye” no filme). Tão perfeito que poderia virar pesadelo. Se não sentissemos mais o amargo, o doce perderia o valor.

Apesar de toda a loucura de Vanilla Sky, eu me apeguei muito ao lance do doce e amargo. Na psicologia do lado emocional humano, tão surpreendente. Impressionante o que as sensações podem fazer conosco. Se acabar num minuto, e no instante seguinte, por um motivo qualquer, emergir. Mais ou menos que nem a personagem Sofia falou: cada minuto que passa é uma chance para virar a mesa.

Abra os olhos. Ou deixe-os bem fechados. Qual a diferença, afinal? Se você não conseguir distinguir sonho de realidade, as duas ações se tornarão sinônimos. Vai ver o que interessa mesmo é viver o que se pode viver, sentindo. Real ou ilusão. Mas sentindo. “A maioria de nós vive a vida toda sem nenhuma aventura de verdade para chamar de própria”. Algo como o que Oscar Wilde disse: a maioria de nós não vive, apenas existe. Sendo assim, aventure-se. Aproveite o dia. Sinta tudo que puder sentir, do doce ao amargo. Até o sem gosto, para depois valorizar o apimentado demais.

Falando assim chega a dar medo. Quem não tem medo de sentir o extremo? Até euforia em excesso pode causar danos. Nem que seja um AVC. O excesso é tão mais perigoso que a falta. Ele pode banalizar, desvalorizar. Para quê ter todas as mulheres do mundo se ainda quem vai pra cama com você é a solidão, David Aames? Ele, que “nunca sentirá a dor de voltar para casa sozinho”, e logo, não valoriza uma boa companhia. Sem sentir nada, além do peso da carteira no bolso da calça de grife…

Estranho ter medo de sentir dor, mas ao mesmo tempo viver sempre tão perto dela. “Depois de cair de uma ponte a 120km/h, eu só deixo a felicidade entrar quando a revisto dos pés a cabeça”. Medo de sentir. Conheço pessoas assim, que são pior que São Tomé. Nem vendo acreditam. Esperam sempre o próximo momento para ver se a felicidade não vai embora. Será que é melhor se afogar no doce, chegando até o vício, e depois sofrer uma crise violenta de abstinência? Ou viver cautelosamente, medindo as doses de sentimento na vida, apelando para o racional?

Até que ponto o racional atrapalha a culinária das emoções? Até que ponto os momentos realmente fazem a diferença? “Eu perdi você quando entrei naquele carro. Sinto muito”. Era destino? No final das contas, isso vai ser uma dúvida filosófica que poderia levar muita gente a loucura. Ou ao não-viver, na agonia de ficar sempre no “e se eu fizesse aquilo ao invés disso?”. Vai ver o fim dessa criatura era viver enrolada em pensamentos. Ninguém nunca vai saber, mas tem sempre alguém que vai se consolar pondo a culpa no destino. Tão mais fácil do que assumir as próprias escolhas.

Enfim, sonhem com céus de baunilha, com momentos doces e amargos. Mas sintam. No final das contas, é isso é a realidade.

É só a moldura que presta?

Publicado em: 21-02-2006 @ 11:37 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Grandes produções trazem grandes filmes por conseqüência? A qualidade do filme é proporcional ao dinheiro nele investido? Ah, isso é trivial. Moldura bonita em quadro ruim não adianta nada… Só para enganar.

Há filmes e filmes! Para dizer a verdade, esse tipo de frase é um grande lugar-comum, porque, afinal, esse pensamento poderia ser aplicado para - quase - qualquer coisa sobre a terra e debaixo deste sol – o qual não se decide ultimamente se vai ou racha. Oh, climinha doido esse de fevereiro!

Mas, voltando ao assunto, antes que eu esqueça e faça uma homenagem interminável para a noite e para os dias nebulosos, chuvosos e afins, acompanhados de chocolate quente… Podemos aplicar essa dicotomia para quase qualquer coisa: há advogados e advogados, há músicas e músicas, há namorados e namorados, há pastéis e pastéis e daí por diante. E só digo “quase” porque quando se refere política - infelizmente - tenho refletido em virtude dos últimos acontecimentos: há políticos apenas.

Sobre os filmes, poderíamos abrir ainda mais essa classificação: há filmes, e há filmes, e há filmes (…) E seria uma insensatez tentar colocá-los numa mesma prateleira, porque são inúmeras as categorias e dificilmente conseguiríamos compará-los com justiça.

No entanto, consigo fazer uma distinção bem clara. Alguns até dirão que esta visão é amadorística. A academia - quem sabe - colocaria uma foto minha num alvo de tiro caso eu a declarasse abertamente. Mas, devo confessar! Há dois tipos de filmes: os que gosto e os que não gosto!

Pronto. Disse. E fui sincera, fui sim. Vejam só o caso dos filmes “arrasa quarteirões”: Pearl Harbor , Waterwolrd , Tróia, O Aviador, Alexandre… Elenco estelar bombando e a máquina publicitária a todo vapor para elevar as bilheterias 4a dimensão. Entretanto, mesmo assim, como dizia o bardo Shakeaspeare: ” Muito barulho por nada!”.

Tanta parafernália e tantos fogos de artifício para um resultado tão sofrível. Há molduras que são melhores que seus quadros. Melhor não seria diminuir a ansiedade de público para que fosse menor a decepção ? E assim - quem sabe - alguma alma boa diria: - “Sabe? Eu esperava pior!” Sei não, será que esse povo não tem autocrítica, bom senso, semancol? Essa mega-hiper-ultra-turbo-gigadivulgação atualmente já me desperta uma reação contrária: fico logo desconfiada. Pé atrás mesmo. Odeio ser frustrada!

Vamos observar, por exemplo, filmes com orçamentos muito mais modestos, com muito menos estrelas em cartaz e sem tantos efeitos especiais fazendo muito mais sucesso - até de bilheteria - do que diversos outros mais festejados. Por quê? Porque são bons, eu insisto. Roteiro bons, atuações convincentes, direção criativa e eficiente. Nada demais e ao mesmo tempo tudo direitinho. Você vai ao cinema com o seu namorado e a sua pipoca (ou com o que preferir e der para ter - sem infames interpretações, por favor!). Você assiste ao filme. Alguém te conta uma bela história e você ri, se emociona, vibra, interage, chora, esmurra, grita, sofre, sufoca, ri de novo e sai satisfeito da sala de exibição. Tudo justo e honesto. Você pagou o ingresso e mereceu o entretenimento - se você foi só para curtir e esquecer os problemas. Ou a reflexão, se você foi para parecer intelectual nem que seja só para você mesmo!

Filmes deste naipe são tantos que fica até difícil elencar. Seja porque são vários e posso me esquecer se algum, sendo injusta. Sendo porque - obviamente - todos sentimos e pensamos diferentemente e por isso não há nenhuma obrigação de que gostemos todos dos mesmos filmes.

Questão de gosto não se discute, dizem, certo? Agora não venham me generalizar. Eu não estou dizendo que os filmes de produção bombante são ruins. Tem filme com produções monstruosas e que são bons. E filmes modestos que são um saco. Tem filme e filmes… Meu ponto em questão aqui é que certos filmes só tem arranque de motor. Só tem a moldura bonita. O trailer bem feito. Na verdade, o bicho era tão ruim que a galera teve que investir milhões para tentar arrumar a desgraça. Não vamos nos deixar levar pros fogos de artifícios. O que interessa mesmo é o conteúdo e feeling – é, ele de novo – que o filme provoca em você. Se for para ver grandes efeitos, vá logo para uma animação ou um filme de ficção científica e etc tal!

Rolou um feeling!

Publicado em: 15-02-2006 @ 11:27 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Para mim cinema é que nem música. Tudo na minha vida tem um fundo musical. E muitos dos grandes momentos que vivi – e vivo –tem um fundo cinematográfico que provoca uma enorme identificação. Será que cada tipo de filme se adapta com cada tipo de humor do momento?

Eu lembro de alguns momentos marcantes da minha simplória existência que foram carimbados com alguns filmes. E tenho também aquelas cenas – e até filmes inteiros, que provocaram uma identificação tão grande que quase cobro os direitos autorais.

Para o segundo caso, o de total identificação, “Closer – Perto Demais” encabeça a lista. Lembro que o filme me arrebatou desde o começo. E os diálogos e emoções, todos, tinham sido roubados do meu subconsciente e inspiradores daquele filme espetacular. Dissecaram dois anos da minha vida e jogaram ali. Absurdo! Pena que na minha triste realidade não tinha um Jude Law da vida, canalha ou não, dando sopa daquele jeito. Enfim, a interação entre eu e “Closer” foi tão grande que uma coluna inteirinha minha foi dedicada inflamadamente a essa produção. E se fosse para essa coluna ter fundo musica, Damien Rice já estaria emocionando a cibernética com “The Blower´s Daughter”.

Outro filme que vem em segundo lugar é “Encontros e Desencontros”. Inventei de assistir ao filme despretensiosamente, no meio de uma madrugada paulista de insônia e chuva, e acabou que rolou uma química arrebatadora entre eu e a Scarlet Johanson. A pobre garota perdida na grande Tóquio com um recém-marido ridículo que não tem a menor sensibilidade para perceber o dilema da moça. Oh, meu Deus! Foi o destino que me fez sentar naquele sofá e assistir a esse DVD.

Quando acontecem essas identificações malucas, com qualquer tipo de arte, eu fico pensando: será que o cidadão fez isso pensando exatamente nisso que eu estou pensando? Será que ele tava passando por isso também? Ou foi algum conhecido que chegou contando um fato pessoal triste e gerou a idéia? Ou foi um insight nada a ver? Enfim, na verdade, eu não estou preocupada em saber da origem. Fico arrepiada só de ver pensamentos e emoções minhas – e de tantos outros – retratadas na telona.

Mas calma, também não tenho minha vida toda retratada por filmes. Já era demais, né? Na verdade, o mesmo filme pode ter mil “retratações”, por que a identificação, o feeling, varia de pessoa para pessoa, de vivência para vivência, experiência para experiência. E tem aqueles filmes que apenas inspiram. Ou apenas causam aquela sensação de “ahhhh”. Exemplo: “Simplesmente Amor”.

Fui assistir a esse doce filme com uma grande amiga na simplória intenção de me divertir. Acontece que fui invadida por uma onda de “All You Need Is Love”. Acredite ou não, saí da sala aceitando um pedido de namoro pendente há tempos. Só faltava eu dizer que depois assisti a um filme e saí da sala querendo terminar o mesmo namoro, né? Mas não, já saí com essas idéias e frustrações a mais, mas nunca coloquei em prática! Cinema é quase, mas não é meu Oráculo ainda…

E “O Fantasma da Ópera”? Que eu saí me sentindo a cantora, doida pra encontrar um Erick da vida. Será que não rola um “Fantasma da Sétima Arte”? Mas, falando sério. Aquela história de amor sofrida, amarga, dolorosa e mesmo assim, linda de morrer. Aquelas músicas… Fiquei envolvida com o tema por anos a fio. Mesmo o filme não sendo tão maravilhoso, nem chegando aos pés da peça, o que vale é a intenção!

Ah, adoro sair de filmes com essa sensação de “rolou um clima”. É como se fosse um amigo seu que te compreendeu em todos os quesitos. Tirando a viagem na maionese que passa na sua cabeça… Se deixar levar nos raios de luzes é o que há. Experimente!

Quebrando tabus

Publicado em: 06-02-2006 @ 11:23 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

O Cinema é composto por diversos tipos de filmes. Vai desde os tipos mais clichês até os mais psicodélicos. Na coluna dessa semana, quero falar justamente dos menos tradicionais, aqueles que quebraram tabus e deixaram sua marca na história da Sétima Arte.

Para um filme marcar época, ou ele deve ser muito bom, muito ruim ou muito polêmico. Se bem que os que são muito ruins até que estão sendo ignorados de vez – amén!

Quero lembrar agora dos filmes que fizeram história, que são comentados até hoje e que quebraram tabus. Tenho dois que vieram minha mente rapidamente: Pulp Fiction e Laranja Mecânica. Quentin Tarantino e Stanley Kubrick – que também dirigiu a pérola “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Dois diretores famosos por serem polêmicos. E os dois filmes até que abordam um tema em comum: a violência. Mas não daquela forma hipócrita de dizer “paz para a humanidade” ou passando lição de moral. Justamente o contrário: banalizando e intensificando a violência, não por endeusá-la, mas talvez numa tentativa de sacudir os passivos nas cadeiras do outro lado. Não são filmes leves, nem um pouco. Aposto que quem viu Laranja Mecânica, nunca mais conseguiu ouvir “Singing in the rain” da mesma forma! E quem viu Pulp Fiction, nunca mais viu os sanduíches da McDonalds com a mesma rotina.

Outro filme que marcou, e que classifica outro tipo de produção, é Cinema Paradiso. Bem longe de ser um “horrorshow”, Cinema Paradiso é a metalinguagem do cinema mais magnífica que já ouvi falar. O diretor Giuseppe Tornatore arrepia cinéfilos até hoje. De 1990 para cá, poucos filmes foram tão tocantes, tão doces e ao mesmo tempo tão suavemente amargos como este. A cena final, absurdamente bela, merece ser incluída em qualquer antologia de grandes finais.

Mas, vamos com calma. Quero procurar aqueles que causaram estrondo mesmo, tipo um que mostrou pela primeira vez um homem e uma mulher se beijando apaixonadamente, filmado por Thomas Edison para ser exibido nos nickle-odeons, constituindo o primeiro grande escândalo da Sétima Arte.

Aí tem gente que idolatra o tal do Titanic e baba dizendo que ele ganhou 11 oscars. Pois saiba que ele não foi o primeiro e único. Ben Hur também levou 11 estatuetas, sendo considerado um dos melhores épicos já feitos

Nos termos de ficção científica, Matrix realmente deu o que falar e sempre será comentado nas rodas de ficção, mas Blade Runner foi o ápice desse estilo, que ajudou a definir a estética cinematográfica dominante nos anos 80, quando o cinema seria cada vez mais influenciado pela linguagem dos videoclipes.

Passando da ficção para os desenhos, quem diria: Branca de Neve e os Sete Anões. Melhor desenho da Disney, revolucionário por ser o primeiro longa-metragem animado e brilhante em sua realização. E até hoje é comentado por aí. Virou até about de Orkut! Tem gente por aí se auto-denominando “os sete anões da Branca de Neve”…

E ainda vem “As Times Goes By” fazendo clima romântico para Bougart e Hepburn em “Casablanca”. Definitivamente, o clássico. O filme mais amado de todos os tempos, talvez o mais influente, a maior quantidade de grandes frases por centímetro celulóide – e no fundo é apenas uma bela história de amor e redenção.

Mas se for para falar de música, temos que falar de “Cantando na Chuva”. Quem nunca imitou a cena do poste e do guarda-chuva? Um dos melhores musicais.

Temos ainda o idolatrado “O Poderoso Chefão”! A belíssima saga da família Corleone em um dos mais empolgantes momentos do cinema, certamente a melhor trilogia de todos os tempos.

E um dos meus preferidos: A Primeira Noite de um Homem. Dustin Hoffman bem novinho e desconhecido, num filme de grande roteiro e boa direção. Poucos filmes conseguem capturar tão bem o estado de espírito de toda uma geração, a estupefação diante do mundo e o senso de inadequação a conceitos que, aparentemente, já não eram os seus.
E falando de gerações, “Juventude Transviada” foi o maior símbolo cinematográfico da geração rock´n´roll.

São tantos. Deveria ter divido a coluna em parte um, dois… Mas quis falar desses filmes que marcaram épocas, por que me emocionei quando vi “O Segredo de Brokeback Mountain”. Numa atitude audaciosa e despreconceituasa, Ang Lee tratou do homossexualismo de forma sincera, emocionante e realista. Atuações magníficas. Sem palavras. Uma pena que ainda existam pessoas de cabeça fechada o suficiente para não reconhecer um bom filme, simpatizando ou não com o tema.

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