Animação na Floresta

Publicado em: 12-07-2006 @ 12:08 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Eu costumo achar que quando não há uma expectativa muito grande sobre algo, esse “algo” tende a ser melhor. É. Porque a probabilidade de acontecer uma frustração é menor, porque você não espera nada e tudo que vier é lucro – aliás, quase tudo. Pensando melhor ainda, acho que as animações saem ganhando nesse ponto.

Animação não é brincadeira. Profissionais competentes e comprometidos se dedicam a lapidar detalhe por detalhe no mundo da criação virtual, horas a fio. Seria uma blasfêmia dizer que animações são apenas brincadeiras. São engraçadas de se ver. São trabalhosas, mas divertidas de serem feitas também. São assistidas com o intuito básico de livre e espontânea descontração. Mas engana-se quem acha que elas ainda se encaixam na seção “bestinhas e infantis”.

Até um tempo atrás, sim. Podia se dizer que as historinhas eram infantis. Apesar da técnica se superar cada vez mais – quase uma corrida tecnológica, as histórias eram realmente para o público infantil.

Mas aí veio “Shrek”, “Toy Story”, “A Era do Gelo”, “Selvagens”, “Madagascar”… Animações divertidíssimas, mas que começaram a chamar a atenção do público adulto. E sinceramente, eu devo ter rido muito mais em “Shrek” do que o moleque estava na poltrona da frente. Ele não tinha conhecimento para rir das paródias de filmes antigos ou das piadas nas entrelinhas – se bem que tem muito tio por aí que não entende também! Enfim, a animação, ainda divertida para as crianças devido s suas cores e personagens carismáticos, passou a ser dirigida para adultos também.

Sei que não estou falando nenhuma novidade, mas o que me fez repensar mesmo esse ponto foi o filme “Os Sem-Floresta”. De última hora decidi conferir a estréia, e no caminho ouvi opiniões desencorajadoras. “É bestinha, não tem nada de mais”. Entrei na sala, então, esperando uma repetição de “Selvagens”, um filme que serviu para passar o tempo, mas que não arrancou tantas risadas gostosas e tinha uma veia subliminar-política meio estranha para mim.

Então foi isso. Sem expectativa e querendo apenas desopilar, acabei gostando muito de “Os Sem-Florestas”! Primeiro, os personagens são muito fofinhos. Quem me conhece sabe que eu tenho esse defeito de me “apaixonar” pelos personagens das animações. Principalmente os mais nervosinhos e ingênuos, aqueles que sofrem de Déficit de Atenção e hiperatividade (e pior que tem um personagem que cai direitinho no perfil!)

Acontece que eu não vi apenas os personagens dignos de se levar para casa. Vi também algumas críticas nossa sociedade. Quem sabe até eu esteja “viajando na Hellman´s”, como costuma dizer uma amiga cinéfila, mas eu vi!

Só pelas primeiras frases do discurso de apresentação dos humanos para os bichinhos da floresta, eu já fiquei de orelha em pé. “Nós comemos para sobreviver, os humanos vivem para comer”. Essa frase foi muito divertida e extremamente pertinente. Os animais, harmoniosos e sábios, vivem tranqüilamente com o necessário. Nós, os racionais-wanna-be, estamos agora entrando na onda do “luxo for life”, onde quanto maior a quantidade, melhor, e quanto mais escasso, mais valioso. Será que vale mesmo a pena?

Tem a típica personagem moderna: estressada, pirada, dondoca, executiva… Estereótipos facilmente encontrados hoje no meio da rua. Vemos a falta de sociabilidade entre os residentes do tal condomínio. Além de outros pequenos detalhes que mostram traços da convivência humana. E todos entrando em contradição com a relação entre os animais. Começa-se a achar engraçado a comparação que deixa explícitas a estupidez humana.

Algo bastante banalizado atualmente é extremamente citado no filme: família. Pertencer a um grupo parece ser extremamente necessário hoje em dia. E pertencer de forma cúmplice, companheira e incondicional, mais ainda.

Não sei da onde dizem que nós, humanos, somos os seres racionais do planeta. Racional pode estar ligado ao verbo “raciocinar”, certo? Mas nem sempre se raciocina certo. Na maioria das vezes, se raciocina da forma mais errada, egoísta possível. E quem paga o “pato” somos nós mesmos.

Vale falar também que o descaso com o meio-ambiente é super bem colocado na trama. O começo do problema é justamente quando a primavera chega, os animais saem da toca em busca de comida e se deparam com a invasão inconseqüente do homem. Tudo isso porque “muito é sempre pouco”. E é algo tão forte que afeta ate o modo de viver dos animais. O “sabidinho” da turma é, bem dizer, virou um promoter exclusivo.

É mais ou menos assim. “Os Sem-Floresta” é um filme bacana, e que se olharmos bem, podemos ver mais além. Assim como diversas outras animações, é um filme leve e inteligente, que aborda uma situação comum no mundo dos “bichinhos” de forma divertida. Assim como “Era do Gelo 2” abordou tão bem, mas ali, sem interferência humana.

Cinema e Espiritualidade

Publicado em: 05-07-2006 @ 12:06 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Um assunto visto por muitos, ignorados por outros, desconhecido para a maioria. A Espiritualidade sempre rondou a curiosidade do homem e agora está invadindo a mídia. Assim como fez o evento “Comunicação e Espiritualidade”, nós também deveríamos discutir essa nova apresentação do tema.

De fato, é muito importante discutir sobre os temas que estão em foco na mídia. Foi mais ou menos essa a intenção do Workshop Comunicação & Espiritualidade, realizado no dia 29 do mês passado, numa iniciativa do empresário Luiz Eduardo Girão. Como não poderia deixar de ser, o cinema foi uma das mídias citadas, muito bem representado através das palavras do superintendente da TV Ceará e professor de História e Estética do Cinema da Universidade de Fortaleza, Gláuber Paiva Filho.

A conversa começou com algumas experiências do jornalista Marcel Souto Maior, autor dos livros “As Vidas de Chico Xavier” e “Por Trás do Véu de Ísis” e editor do quadro “Profissão Repórter” do programa Fantástico, da Rede Globo. Em seguida, os demais participantes da mesa redonda se pronunciaram, os quais eram a jornalista Déborah Lima, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Ceará (Sindjorce); o jornalista Moacir Maia, colunista de Economia de veículo impresso e professor universitário; o jornalista Nonato Albuquerque, que também é radialista e âncora de programa de telejornalístico; o publicitário Duda Brígido, diretor do Sindicato das Agências de Publicidade do Ceará (Sindapro), além do já citado Gláuber Filho.

Na verdade, algumas pessoas podem ter estranhado o desenrolar do evento. Alguns pensaram em algo realmente espírita, outros pensaram em algo mais focado na comunicação. Acontece que foi uma mescla - não muito equilibrada para o meu gosto, mas não deixou de ser um momento interessante.

De qualquer forma, não quero me ater ao evento em si, mas sim ao tema proposto. Por mais que o momento mereça suas considerações… Como por exemplo: alguns integrantes da mesa que faziam caras e bocas dignas de uma psicografia, o tom pastoral que outros integrantes deram ao discurso, a enrolação de palavras perdidas na perda de foco e o castigo do cerimonialista, engomado e hiperativo, que passou as 3h esperando o santo baixar, mas ao que parece, infelizmente só baixaram interferências telefônicas.

Voltando ao tema. Não é de agora que percebemos a exibição de temas mais espirituais. Na TV, vimos a novela “Alma Gêmea” a personagem Serena, da atriz Priscila Fantin, trazer tona a polêmica da reencarnação. Mas o que nos interessa é o cinema, certo? E aqui é que temos uma lista longa!

“Sexto Sentido” (1999), “Espíritos” (2004), “Os Outros” (2001), “Diário de uma Paixão” (2004), “Amor Além da Vida” (1998), “Ghost – Do Outro Lado da Vida” (1990), “O Iluminado” (1980), “O Exorcista” (1973), “Poltergeist” (1982), “Chave-Mestra” (2005)… Por enquanto basta, né? Acredito que com exceção de dois ou três, todos esses filmes são conhecidos de vocês. Alguns mais recentes, outros da década de 90/80. Mas todos trazem a espiritualidade como ponto influente no enredo.

Acredito até, que princípio, a espiritualidade era usada apenas com a finalidade de assustar. Tanto que a maioria dos filmes que usam espíritos e cia. Ltda. tem um tom de suspense. De uns tempos para cá, talvez com a maturidade do assunto e mudança de pensamento das pessoas, o tema passou a ser melhor trabalhado, virando até histórias de amor e comédias.

Verdade seja dita: nem todo mundo pode acreditar, mas todos já tiveram isso em algum momento do seu cotidiano. Seja em brincadeiras de susto, em historias de terror, em experiências próprias, em alucinações no escuro ou mesmo vendo programas televisivos ou filmes na telona. Assim como dizem “eu não acredito em bruxas, mas elas existem”, há quem diga “eu não acredito em almas, mas não me deixe sozinho no escuro”.

Realmente é um assunto de mil gumes, que pode ser interpretado de diversas maneiras e que pode ser usado de várias formas, e nem todas elas são positivas. Justamente por isso, acho importante ter esse assunto discutido, por mais que ele envolva princípios religiosos e se torna um tanto subjetivo. Mas ele está por aí, sendo tema de muitos trabalhos.

No XVI Cine Ceará, por sinal, um dos longas exibidos foi “As tentações de São Sebastião”, do diretor José Araújo. Certamente é um filme deveria ser visto pelos que gostam ou tem curiosidade pelo assunto. Principalmente porque “As Tentações” não focam no rotineiro catolicismo, mas trazem a Ubanda, religião não tão conhecida por todos.

Tanto o cinema nacional como o cinema internacional (mais comercialmente falando) trabalharam esse tema, que justamente por ser misteriosos e brincar com a subjetividade humana, chama tanta a atenção. Já estava na hora de tratarmos essa temática de forma aberta, com ceticismo ou não, mas trazê-la para a nossa realidade, já que a mídia já trouxe para os meios de comunicação.

Cinema para Um ou Dois?

Publicado em: 26-06-2006 @ 12:05 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Fiquei pensando nisso quando vi “alguém” ser repreendida por ter passado o Dia dos Namorados num cinema, sozinha. Por que as salas de exibição de cinema se tornaram lugares “incomuns” para pessoas solteiras? Quem disse que o filme só é bom se você estiver acompanhado? Por algum acaso a interpretação da história precisa de um terceiro elemento?

Não sei desde quando isso acontece. Nem se é uma convenção, uma conseqüência, uma invenção dos depressivos de plantão ou uma norma social para separar os casais dos solteiros. Sei que desde que eu me dou por gente eu escuto essa ladainha de que ir ao cinema sozinho é muito melancólico.

Eu nunca fui sozinha, então, não sei bem qual a sensação. Mas tenho amigas que preferem muito mais irem desacompanhadas do que acompanhadas. Algumas dizem que a compreensão é melhor, que a atenção não é interrompida. Eu prefiro ir com boas companhias. E quando digo boas companhias, digo boas companhias e não parceiros. Vou ao cinema para ver o filme, não para aproveitar o baixar das luzes. Mas, que jogue a primeira pedra quem nunca teve um romance após os trailers, certo? O escurinho do cinema realmente é clássico. Da maneira de cada um: desajeitado, surpreendente, “aperreado”… Até comprido.

Engraçado que existem até os lugares marcados. Casais devem sentar ao final das cadeiras. Parece até convenção. Quanto mais longe, maior a vontade de ficar junto da pessoa e longe do enredo do filme. E prova disso são as últimas filas dos cinemas UCI! Agora foi! Por que só as últimas, e não todas as cadeiras, podem levantar o apoio do braço? Que discriminação é essa? Essa opção é prova da teoria do “cinema para dois, nunca para um”, e a desculpa esfarrapada de “proporcionar maior conforto” não cola. Até porque subentende-se que quem vai ao cinema, vai para ver o filme, e não para tirar um cochilo - por mais que isso aconteça até demais. Quem quiser uma poltrona, que procure na sua própria sala, ora.

Eu inclusive já li uma pesquisa que dizia que quem senta da metade das filas para frente capta muito melhor o filme, enquanto quem se senta da metade para o fim perde muitos detalhes. Por que será? Além do motivo físico e óbvio, será que a tal teoria aí altera as estatísticas? Interfere no produto final?

Sei que essa história aí acontece demais. Quem sabe, com a idade, ela vá se atenuando. Mas ainda existe. Ainda é estranho ver uma pessoa sozinha na fila do cinema. Alguém sempre pensa: deve estar esperando pela companhia. Ou, os mais terríveis e tradicionais: pobre coitado(a) da alma solitária…

Na verdade, sozinha eu nunca fui. Mas já me senti um peixe fora d´água por estar com uma amiga e não um amigo, formando aquele típico casal. Lembro ainda e morro de rir. Uma vez, quando fui conferir “Lisbela e o Prisioneiro”, no final do filme – quem assistiu, sabe – eu quase explodo de rir. Não sabia se era rindo para não chorar ou o quê, mas eu ri. Outra vez foi durante “Simplesmente Amor”. Nossa, só casal, um filme super romântico… Sai beirando a depressão. Mas fiquei super inspirada depois. Chegou até a influenciar minha vida pessoal!

Vai ver não devemos levar em conta apenas que a pessoa está sozinha. Devemos avaliar também o gênero do filme ao qual ela vai assistir. Se for romântico, aquele ingresso pode ser uma tentativa de curtir a fossa ou apenas uma descontração sadia. Afinal de contas, a modernidade nos dias de hoje é tanta que esse mito já está se perdendo. É tanta correria e tanta gente falando no nosso dia-a-dia que alguns minutos de paz e lazer são muito bem-vindos! E, aliás, esse é um dos melhores pontos de ir ao cinema sozinho: acabam os comentários inconvenientes. Odeio!

Mas voltando questão dos gêneros, pensei em algumas besteirinhas. Realmente ele faz a diferença. Imagina você ir ver sozinho “Máquina Mortífera 3″, “Todo Mundo em Pânico 4″, “Harry Potter”… Dá para aguentar sozinho, certo? E, sinceramente, no caso de alguns filmes, se você for sozinho, estará fazendo um grande favor ao seu companheiro! Agora, imagina aí um cidadão indo assistir “Titanic”, “Um Amor para Recordar”… Esses filmes são bem mais emocionantes, ou seja, o risco de se sentir o frio da vazio da cadeira ao lado é maior. Mas, quer saber, até em uma comédia pode ser que você sinta falta da companhia, ou não, nas horas das risadas, na hora de compartilhar uma cena particular.

Enfim, acho que da próxima vez que encontrar alguém sozinho na fila, vou tirar minha dúvida. Ou quem saiba deva eu mesma conferir essa sensação… Independente de com quem se vá, como se vá, o cinema ainda é um lugar mágico, onde ninguém sabe exatamente o que vai fazer quando as luzes se apagam.

Guarnicê!

Publicado em: 13-06-2006 @ 12:03 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Provavelmente a equipe dos Rapaduras ainda está curtindo o final da ressaca pós-Cine Ceará. Quem viu, aproveitou. Quem não foi, perdeu. Mas quem disse que a maratona de Festivais termina por aí? O cinema nacional já pode contar com o Guarnicê, o festival de cinema que acontece em São Luiz - Maranhão.

Do dia 31 a 08 de junho, Fortaleza foi invadida por uma onda ibero-americana da Sétima Arte. Sim, sim. o 16o Cine Ceará chegou cheio de novidades, trazendo filmes de outras nacionalidades, com diferentes linguagens e realidades. Certamente foi um evento muito rico e, por parte das equipe do CCR, deveras divertido. Mas isso vocês podem conferir nos bastidores da nossa cobertura.

Pois sim. Quem pensa que a maratona de festivais acaba por ali está redodamente enganado. Dia 13 de junho já começa o 29o Festival Guarnicês de Cinema e Vídeo, outro grande evento da área do cinema que acontece na capital Maranhense, São Luiz. O Cine Ceará acabou de debutar, está na sua 16a edição. Já o Guarnicê está um pouco mais adulto, contando com mais de duas décadas de história.

Ele é realizado pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O festival exibe filmes de curta, média e longa metragens nos formatos 8mm, 16mm e 35mm, em mostras informativas e competitivas. Também são organizados concursos de vídeo em várias categorias, de telecomerciais e telereportagens. Até semelhante com o Cine Ceará, certo?

O festival acontece no mês de junho, durante a maior festa cultural do estado. Neste período, grandes manifestações folclóricas, como o Bumba-Meu-Boi, atraem pessoas de todo o mundo capital São Luís - Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. E olha que mexe mesmo, viu? Eu estou aqui conferindo as preparações para as festas do Boi e fiquei até surpresa com o envolvimento das pessoas.

O festival aproveita essa leva de festa e se baseia nesse tema. Na verdade, o termo “guarnicê” se refere a um momento de preparação, momento em que os brincantes do Bumba-Meu-Boi se reúnem em torno da fogueira onde esquentam os seus tambores e pandeirões, cantando a toada que anuncia a chegada do Boi. Guarnicê é a palavra chave da maior manifestação folclórica do Maranhão. É a expressão que representa simbolicamente o espírito cultural da terra e sintetiza o vigor de suas tradições.

Mas, ele nem sempre teve esse nome, viu? Em 1977, quando foi lançado, era chamado de Jornada Maranhense de Super 8, passou para Guarnicê e cada vez mais vem crescendo. No início reunia um grupo de cineastas locais que durante toda a década de setenta produziram filmes de curta-metragem exibidos em pequenas mostras realizadas em São Luís e no interior do estado. As mostras foram crescendo ano após ano com o aparecimento espontâneo de novos realizadores e através de cursos e oficinas ministradas por grandes nomes do cinema nacional. Assim como o Cine Ceará, ele recebe filmes de todo o Brasil. A diferença é que agora o Cine Ceará abriu as telonas para os países ibero-americanos…

Felizmente a cena do cinema nacional não está tão parada! E antes que eu me esqueça, os cearenses ainda vão ter mais oportunidades no segundo semestre com a segunda edição do eufórico Curta Canoa (Festival Latino-Americano de Curta-Metragem de Canoa Quebrada). Aproveitem!

Código dos Livros para o Cinema

Publicado em: 29-05-2006 @ 12:02 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Esse negócio de transformar livro em filme é meio complicado, vocês não acham? Andei pensando nisso já várias vezes, mas o assunto me veio tona novamente após a estréia do famoso “O Código DaVinci” nos cinemas.

Eu ainda não vi o filme. E podem me chamar do que for, mas eu não estou morrendo para vê-lo ainda. Os motivos? São vários. Primeiro, não gosto das adaptações de livros para o cinema. Sempre deixam a desejar. Não por incompetência, mas porque nunca é a mesma coisa, já que cada um é cada um – mas falo sobre isso mais adiante. Segundo, esse filme, para mim, é apenas um caça-níquel. Achei o Ron Howard até corajoso demais ao assumir um projeto tão perigoso. Sim, perigoso, já que o livro foi super polêmico, super lido, super comentado, super exposto. Até o Diabo deve ter lido. Terceiro, os personagens principais não me convenceram nos trailers. Sim, não posso julgar o filme pelo trailer, mas trailers são feitos para causarem impacto e chamarem a atenção das pessoas, certo? Pois bem, não funcionou muito bem comigo. Fora que eu detesto salas lotadas demais. Vou esperar a poeira baixar e então confiro o filme, que até agora chegou aos meus ouvidos como uma produção medíocre, de atores descartáveis. O que foi que houve com o Tom Hanks? E a tal da Audrey deveria ter ficado no mundo fabuloso da Amelie. Que pena!

Mas antes de começar a coluna de fato, alguém pode me explicar quem foi o maluco que deu a idéia do filme estrear em Cannes? Quem foi o insano?! Central do Brasil recebeu cinco minutos de palmas, de pé, e eles querem estrear “O Código DaVinci” em Cannes?! Confundiram com o Oscar, não foi? Só pode. Cannes é conhecido por ser exigente. Que pretensão estúpida a desse povo… Não é porque tem o nome do grande Leonardo Da Vinci que a obra leva o crédito dele não, hein!

Mas, saindo do foco do superpop aí, vou voltar para a coluna. Essa parceria de filmes e livros tem futuro? Acho que ela sempre aguça a curiosidade de quem leu o livro, cria uma expectativa. E justamente por gerar uma espera é que a possibilidade de se acontecer uma frustração é maior. Se você vai sem esperar nada, qualquer coisa pode ser lucro. Mas se você tem uma idéia do que pode ser, qualquer coisa que saia desse modelo pode causar reações adversas.

Ao ler um livro, você automaticamente produz um filme na sua cabeça. Imagina as cenas, os personagens. Eu mesma imaginei o Robert Langdon completamente diferente! E imaginei a Sophie Neveau realmente ruiva, sabe? Aí já começa aquela sensação de “Vai, me convence!”. A leitura provoca essa criação. A imagem não, ela já chega com tudo pronto para ser projetado nas nossas cabeças. Por isso não gosto da adaptação. É preciso sempre lembrar que o filme é uma versão dos olhos do diretor. Não podemos exigir que seja igual nossa, certo?

Acho que estou começando a ficar curiosa para ver “O Código” não pelo filme, mas pela curiosidade em ver minha cara após o filme. Será exceção ou cairá na rotina dos que deixaram a desejar?

Terapia no Cinema

Publicado em: 23-05-2006 @ 12:00 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Acho que em todos os aspectos da nossa vida, esperamos um final feliz. Exceto quando pessoas do nosso desafeto estão envolvidas, né? Tem gente que adora ver a desgraça daquela criatura que atrapalha sua vida. Mas de qualquer forma, é verdade que esperamos sempre algo agradável no fim de uma história, logo, sempre esperamos finais felizes nos cinemas. Mas qual o porquê mesmo, hein?

Já ouvi muitas pessoas saírem da sala do cinema dizendo que o filme era horrível simplesmente porque não encontraram um final feliz, ou porque não entenderam, ou porque não era óbvia a resposta – como até comentei na coluna passada. Que absurdo, não? Ou não? Será justo julgar um filme pelo fim? Tal qual julgar um livro pela capa?

Semana passada conferi o previsível “Terapia do Amor”. Empolguei-me para conferir esse filme simplesmente porque queria algo leve, que servisse como ferramenta para uma desopilação do mundo “workaholic” que vivo. E serviu. Só não tão bem porque me deixou muito sensível pelas causas amorosas… Tá certo que a amiga que me fez companhia é sensacional, maluca como eu, mas um príncipe contemporâneo seria bem mais condizente com o contexto!

Ah, antes que você passe para o próximo parágrafo… Se você não viu o filme e não quer saber o final caso pretenda ver, pule o próxima parágrafo e volte depois da seção para ler a coluna completa!

Enfim, por incrível que pareça, “Terapia do Amor” não foi tão previsível quanto eu esperava. No último suspiro, ele virou a mesa. O filme não acaba no “e foram felizes para sempre”. Milagre!

Intencionalmente ou não, o final do filme proporcionou uma compreensão até madura sobre a relação dos dois, atrapalhados pela idade e pela crise ética da mãe. Sei que eu e minhas viagens cinéfilas chegamos num ponto interessante. Dois, aliás.

Primeiro, sobre o próprio filme. Acho que os dois personagens alcançaram um amadurecimento sobre a relação. Será que não importa apenas gostar da pessoa para ficar com ela? Eu sou a favor dessa filosofia, particularmente. Mas isso agora não importa. Quero pensar no geral. Será que ainda existe espaço para tanto romantismo no mundo de hoje? Num mundo que para ter um filho, tem que se pensar não só no nome do menino e na cor do quarto do bebê, mas nas contas que virão. Temos que calcular o planejamento, o investimento e o prejuízo de se ter um filhote! Exagerada? É, bem capaz. Mas sou fã de Cazuza. Faz parte do meu show.

Segunda questão. Por que as pessoas anseiam tanto por um final feliz? Provavelmente pelo mesmo motivo que já falei em colunas passadas: por que muitos vão ao cinema e se projetam nas telonas. Vivem junto com o personagem o seu drama. Mesmo que temporariamente. Sendo assim, não seria conveniente passar por situações desagradáveis. Quase uma frustração.

Mas que complexo, não? O ingresso como passaporte para um mundo virtual mais agradável, uma fuga da realidade. Quase um projeto de “a la Vanilla Sky”.

Cinema de Palavras Mudas

Publicado em: 16-05-2006 @ 11:59 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Jurandir Filho

Mais brilhante do que expressar emoções por palavras é expressar sem elas. O risco de ocorrer má interpretação – ou interpretação alguma – é grande, mas ao mesmo tempo em que se abre a porta para a possibilidade de erro, abre-se a porta para a imaginação de cada um, e isso não tem preço. Filmes que mexem com isso me encantam facilmente, principalmente quando brincam com animação.

Finalmente tive a sorte de assistir “As Bicicletas de Belleville” (2003), uma animação francesa fantástica do diretor Sylvain Chomet. Mas não vou falar aqui da história. Quem tiver a oportunidade, confira. Quero falar mesmo é da magia do desenho.

Os personagens são fantásticos. Pouquíssimas palavras, mas muita exploração sonora. Eles interagem de forma subliminar, muda, mas mesmo assim, intensa. Mesmo mexendo apenas os olhinhos, uma onda de emoção é passada a cada tela. Os vícios de cada personagem nos fazem conhecê-lo além do tempo da história. Os gestos que delineiam traços do caráter. Muita simpatia, muita empatia. Tenho que concordar com uma amiga de infância, “os franceses são fantásticos”.

Mas o que fiquei pensando depois de ver o filme foi: será que todo mundo entendeu? Provavelmente não. Infelizmente, boa parte das pessoas que eu conheço dormiria no meio do filme, acharia sacal. Apenas fofinho, mas sem história alguma. Não por incapacidade intelectual – talvez, mas muito provavelmente por que não somos acostumados a absorver esse tipo de produção.

Somos da era da comunicação. E muitos entendem isso como era do “jorro de informações compulsivas”, quando tudo tem que ser dito, explícita e objetivamente. Walter Benjamim já falava disso, Umberto Eco e Ciro Marcondes também fizeram coro. Cada dia que passa, com o avanço das comunicações, o homem perde a sensibilidade de ser narrador e ouvinte. A atenção se dissipa e não processamos tão bem informações que não nos chegam de forma óbvia.

No cinema americano, sempre temos problemas e tensões. O clímax. Mas todos sabemos que no final tudo vai se resolver. As ansiedades serão aliviadas, os problemas resolvidos, o final esclarecido. No cinema europeu, não há tanto essa preocupação em “saciar” o público, mas sim em questionar e levantar pontos inesperados. É aquele filme que acaba e metade da sala fica: ahn? São dois extremos, talvez, mas podemos encontrar filmes que intermediam essa linha.

“Encontros e Desencontros” e “Moça do Brinco de Pérola”. Dois filmes pelos quais sou apaixonada, por todos os motivos possíveis, pessoais e técnicos. Muito provavelmente, “Encontros e Desencontros” me ganhou de cara pela situação na qual eu assisti ao filme. Eu estava quase a própria personagem da Scarlett Johanson, a Charlotte. Mas vendo pela segunda vez, reafirmei minhas idéias. O filme não termina como todos nós esperávamos, o que chega até a dar raiva. Muitas cenas não terminam como supostamente achávamos que deveria terminar. Não há casos de amor tórridos nem encontro de almas gêmeas. A maior mensagem do filme não é dita pela boca dos personagens, mas pelos olhos. Melhor exemplo que esse, só “Moça do Brinco de Pérola”, que chegou a me deixar agoniada, com vontade de pular na tela e fazer os dois de atracarem! Por sinal, são dois filmes com a loirinha Scarlett Johanson… Bom gosto que ela tem!

No segundo filme, os diálogos se tornam secundários, se comparados com o peso dos olhares dos personagens, principalmente do pintor Vermeer (Colin Firfh) e a empregada Griet (Scarlett). A timidez, a resignação, a admiração, o ciúme. Tudo passa como faísca e nenhuma palavra sequer é dita. E não só entre os personagens principais, mas todo o elenco é envolvido por essa “nebulosidade”. Brilhante. Acho até que um filme assim envolve mais quem assiste, por que convida a pessoa a participar do subjetivo, a interpretar, a adivinhar o que realmente passa pela cabeça daquela personagem. Tal qual nas obras barrocas. O cinema como arte, realmente.

Outro filme que trabalha também essa linha “muda” é o recentemente premiado “Crash”. Em quantas cenas ali não se esperou uma avalanche de palavrões, ou um choro infinito, ou um abraço gratificante? Várias! Mas o diretor trabalhou muito bem os atores para que eles valorizassem a arte de interpretar. Passar uma emoção por uma frase é muito simples. Dizer “eu te amo” é muito fácil. Provar isso, demonstrar isso, é algo que demora uma vida inteira se for o caso.

O óbvio é óbvio. Não tem mistério. Não tem charme. O dito pelo não-dito é muito mais atraente e misterioso. Exige mais de quem assiste. Torna a vida e a relações muito mais valiosas. E como Rodrigo Santoro disse uma vez em resposta sobre sua participação em “As Panteras”, “se a ausência de palavras fosse tão insignificante, o cinema mudo não seria tão aplaudido”.

Nas Entrelinhas de Selvagem

Publicado em: 26-04-2006 @ 11:57 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Por trás do que pode parecer inofensivo e normal, pode-se esconder intenções duvidosas. Tudo, inclusive a arte, pode sofrer da “síndrome da faca de dois gumes”. O cinema não fica fora disso e muitas vezes foi usado para limpar nomes, desmistificar e mistificar histórias, criar lendas… “Selvagem” foi o último filme que vi que me fez repensar sobre essa idéia, por incrível que pareça.

Mais uma vez, eu falando do meu vício: animações. “Selvagem” é algo meio “chapado” de “Madagascar”, que mistura um drama a lá “Rei Leão” e personagens típicos. Tem seus momentos engraçados, mas não passa de uma diversão despretensiosa e que pode até cansar o cidadão por alguns instantes.

Mas o que me fez vir citá-lo no início dessa coluna não foi isso, mas sim uma idéia nas entrelinhas do filme, idéia que inclusive vi outros amigos da área discutindo. “Selvagem” conta, ligeiramente falando, a história de um grupo de bichos do zoológico de Nova York que viaja para a África em busca de um companheiro que foi parar lá por acidente. Chegando lá, eles recuperam o amigo perdido e ainda detonam com a religião dos gnus, convertendo-os para o lado deles e destruindo o líder dos gnus. Perceberam algo? Ok. Vou facilitar. O nome do líder era Kazaan e os gnus têm rosto estreito, olhos redondos e barba preta. E aí? Sim, eles devem ser descendentes dos árabes. Olha só, caiu a ficha? A América vai até a África em um ato heróico e detona com o que encontram por lá, trazendo de volta seu tesourinho e uns novos convertidos.

Alguém pode me dizer o porquê do líder “ter” que se chamar Kazaan? E de ele viver em cavernas sombrias? Tá, eu posso estar exagerando, mas convenha: você já ouviu essa história antes, e ela está muito parecida com uma sátira da realidade. Vou ser ingênua e pensar: será que alguém da equipe se inspirou no arquivo EUA x Oriente Médio? Ou na novela mexicana “Bush, onde estará Bin Laden?” ? Não sei, não sei. Mas que está estranho, está.

Sacanagem. Apelaram para as animações. Já foi visto muito isso em trocentos filmes épicos e verídicos. Quantas vezes Hollywood não tentou minimizar a vergonha da Guerra do Vietnã? Não sabem perder. Até hoje tem o orgulho ferido porque foram derrotados por uns cabinha de olho puxado que usam armas inferiores e calçavam pneus! E não só isso. Depois do 11/9, quantos filmes apareceram abordando o tema de diversas formas? E quando falo filme, coloco os documentários no meio. Michael Moore saiu de primeira com “Fahrenheit”, e o Bush ainda saiu em outro, ridículo por sinal, apelando para o patriotismo e compaixão da humanidade. Eu passei mal assistindo.

Mas não vou discutir política aqui. É que nem outra coisa aculá, cada um tem o seu. Seu time, seu gosto e o que mais tiver que ser. Meu ponto é o poder de formar opiniões que o cinema tem, podendo ser usado das formais mais explícitas, como das mais sutis.

Outra coisa que pensei é que o cinema, por ser arte talvez, tem a capacidade de romantizar as histórias, distanciar da realidade. Por exemplo, a questão da África. Quantos filmes temos falando diretamente da questão? Ou colocando-a como plano de fundo? “O Jardineiro Fiel”, “O Senhor das Armas”, “Amor Sem Fronteiras”… Sabe aquele argumento da percepção que diz que o exagero pode intensificar a idéia, mas também banalizá-la? Talvez isso aconteça. Se acontece na televisão, quando vemos as notícias dos jornais e tem gente que acha que está longe daquela corrupção e miséria! Imagine se isso for maximizado e passar para a telona. Talvez seja algo que não dependa apenas da intenção do diretor, mas da consciência crítica de quem assiste. E essa segunda é de vital importância. Com ela, dispensariam-se os alardes, não precisaríamos colocar em xeque a urgência de certos problemas. Apenas citando-os já teríamos uma análise mais crítica. Sem ela, muitas intenções tornam-se inúteis porque que as assiste não tem capacidade de absorvê-las. E pior, pode absorver completamente errada. Cabe até piada para pessoas inteligentes nessa parte…

É. Muitos filmes fantasiados ainda virão. Muitos filmes realistas e consistentes também virão, como veio os que citados acima e como veio “Crash”. A influência do cinema continuará, cada vez mais adaptada, e nós continuaremos consumindo-o. A questão é: você engole sem processar tudo que consome ou analisa as entrelinhas do que lhe é servido? Não seja um selvagem. Faça bom uso do que te distingue dos bichos da arca de Noé!

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