
Caros e fieis leitores do Cinema Com Rapadura, como acredito que todos aqui gostam de cinema, certamente entenderão perfeitamente o que irei dizer. Gosto para cinema é pessoal e intransferível. Mas o pequeno agravante é que, como qualquer outro tipo de arte, no cinema, certas obras são escolhidas para fazer sucesso. Citar nomes seria extremamente dispensável, mas até mesmo para justificar o título da matéria sou obrigado a fazê-lo.
Acredito que qualquer um que ousa a dizer que gosta de cinema, já deve ter ouvido falar em “Laranja Mecânica”, do eterno mestre Stanley Kubrick. Provavelmente deve ter ouvido coisas mirabolantes, elogios extremos e críticas sempre positivas. E quem além de ouvir falar nele, que já o assistiu, deve saber o quanto ele é bom. Mas justamente aí que eu entro em controvérsia: o filme que foi convencionado como bom, tem que ser realmente bom? Eu já passei sérios problemas a respeito disso, quando certos filmes que as pessoas endeusavam, eu simplesmente gostava ou vice-versa. E quando você expõe sua opinião não tão favorável, automaticamente é tratado como um leigo ou coisa do tipo.
Isso é um tremendo absurdo! Claro que, se muitas pessoas gostam de uma determinada coisa, ela deve ser realmente boa, mas não dizem que a beleza está nos olhos de quem vê? E se pararmos para observar como foi convencionado sobre a qualidade de determinado filme, todos os seus posteriores expectadores estão propícios a gostarem dele, até mesmo pelo fato implícito da cobrança pública a respeito da sua pseudo-intelectualidade? Ou seja, muitas vezes as pessoas gostam de certos filmes não pelo o que elas acham deles, mas pelo que elas têm que achar.
Eu gostei de “Laranja Mecânica”. Achei extremamente crítico, inteligente, e artisticamente belo. Mas por ser demasiadamente e desnecessariamente desconfortável, além da atuação exacerbada de Malcolm Mcdowell, meu apreço não foi o que esperava; gosto muito dele, mas não o idolatro. E não temo em falar isso; mas temia até algum tempo atrás, até porque não existiam muitos “aliados”, por assim dizer. Essa minha percepção foi construindo-se aos poucos, quando observei que uma boa parte dos expectadores do filme tinha um discurso igual, que expressava implicitamente que alguns deles estavam com a mente previamente formatada para aderir aos positivos adjetivos atribuídos ao filme. E isso tende a propagar-se cada vez mais.

E expandindo mais o tema, podemos notar que isso acontece constantemente. “Pulp Fiction”, por exemplo, é outro grande destaque. Eu só consegui gostar dele realmente, depois de assisti-lo algumas vezes. Com o tempo, apenas amenizei algumas características negativas que tinha notado anteriormente. Mas, devo salientar que observo por uma ótica bem específica. Espectadores ordinários, aqueles que tratam o cinema somente como pipoca, por exemplo, gostam do filme por que ele é violento. Mas infelizmente, se não fossem pelos espectadores ordinários que só fazem propagar informação, o que seria dos filmes? “Matrix” ficou famoso pelas cenas de ação munidas de inovadores efeitos. “Kill Bill” ficou marcado pelo excesso de sangue. “O Senhor dos Anéis” destacou-se pelas grandes batalhas. Mas será que esses filmes só são isso? Será mesmo que a superficialidade é algo tão dominante assim? Definitivamente não! Porém é isso que os trouxeram ao “Hall” da fama, como se suas outras milhões de qualidades não existissem; ou ao menos, não fossem consideradas.
E num pólo oposto, podemos ver aqueles filmes que são muito bons que não fazem tanto sucesso. São títulos que gradativamente vêm ganhando força, como por exemplo: “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson; “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick; “Vanilla Sky”, de Cameron Crowe; “Dogville”, de Lars Von Trier; “Réquiem para um Sonho”, de Darren Aronofsky; e por aí vai. Esses filmes citados são do tipo que não foi feito para todos. Não considerem esse meu discurso como boçal, mas essa é a pura verdade. São do tipo de filme que mesmo que eles queiram, nunca irão conseguir contemplar a classe de pseudo-cinéfilos.
E é justamente por isso que eu defendo a liberdade de expressão, condenando automaticamente o preconceito exercido pelas pessoas enquanto à opinião alheia. Para quem já tem uma noção de cinema, ouvir certos comentários chega a ser irritante. Acredito que só devemos mesmo falar quando sabemos fazê-lo, não é mesmo? Contudo, ainda que sejamos incoerentes ou inconscientes, devemos expressar nossa opinião, seja ela bem fundamentada ou não. Até porque, é muito melhor ouvir as pessoas pensando com suas próprias cabeças, do que novamente, por mais uma longa linhagem, somente reproduzir aquilo que alguém, algum dia, disse que deveria ser.