
Vai de vento em popa a produção da adaptação de Watchmen, graphic novel do “bruxo” das HQ’s, Alan Moore. A cargo da direção está Zack Snyder, que também adaptou “300”, obra de outro paladino da nona arte, Frank Miller.
O filme baseado na HQ de Miller (300) causou furor entre os fãs de quadrinhos por ser considerada a tradução mais fiel de um veículo midiático a outro. Praticamente, todos os diálogos, quadros, ângulos e cores foram transportados para o cinema. Era como se fosse uma história em quadrinhos em movimento. Mas como é de práxis no mundo da arte, alguns ficaram satisfeitos com o resultado. Já outros, nem tanto. Consideraram o filme um tanto monótono. E que, também, uma adaptação não significa só colocar, em um filme, tal qual está nos quadrinhos. Eu, particularmente, achei o filme visualmente bonito, as lutas estavam primorosas. Mas em determinado momento entediei-me com a história. Estava doido para que o filme terminasse logo para ir embora.
Aí me veio à cabeça a dialética da situação: se numa adaptação constam todos os elementos presentes da obra, tal qual está lá, então por que a máxima fidelidade torna-se um ponto fraco? Os filmes de super-heróis (pelo menos a maioria que está sendo produzidos atualmente) têm procurado fidedignidade, mas descartando elementos, do próprio universo da HQ, que poderia atrapalhar no desenvolvimento da história.
Um bom exemplo disso foi em “Homem-Aranha”. Na época da pré-produção, havia sido encomendado ao desenhista Alex Ross um modelo de uniforme para o filme. Ainda bem que não levaram adiante e Sam Raimi optou por usar a versão clássica do traje. Esse é um aspecto de fidelidade a mitologia do personagem. Em contrapartida, o cineasta lançou mão de algumas alterações. Por exemplo, a aranha que picou Peter Parker era genética alterada e não radioativa (como ele foi concebido originalmente por Stan Lee). Essa idéia foi aproveitada do Universo Ultimate, que dá uma nova roupagem aos personagens da Marvel para o Século XXI. O interesse romântico era Mary Jane – sua esposa nos quadrinhos – ao invés de Gwen Stacy – sua primeira namorada. Como o romance dele com a ruiva é um dos mais tradicionais das HQ’s, Raimi optou por utilizá-la. Alterações como estas que tornaram o filme uma das melhores adaptações de super-herói do cinema. Sucesso que garantiu a Marvel fazer tantos outros filmes do Cabeça-de-Teia até os fãs enjoarem. E fonte é que não falta, pois o Aranha soma quase meio século de combate ao crime. E terá mais meio século, pois se trata de uma obra em aberto. Mesmo se o Homem-Aranha morrer, vão dar um jeito de ele ressuscitar.

A graphic novel, por outro lado, é um enredo de começo, meio e fim – mas fim mesmo. Uma obra fechada. Orquestrada como uma sinfonia, em que cada nota é fundamental para torná-la imortal. E uma alteração pode acabar com uma estrutura perfeita. Exemplo disso foi “V de Vingança”, que teve o roteiro de autoria dos irmãos Wachowski. Deveria se chamar “V de Vai ser ruim assim lá no inferno”. O filme passa longe da obra edificante que Alan Moore criou, em parceira com David Lloyd, na década de 1980. Quem LEU a obra antes de ver o longa sabe muito bem do que estou falando. A história é riquíssima. Com reflexões a respeito de autoritarismo, alienação, democracia, anarquia. O personagem da Eve faz uma belíssima trajetória de auto-realização e sua relação com “V” é complexa demais para ser contada em poucos minutos de exibição. Pra contar a história de maneira decente, tinha de ser uma trilogia. Não aquela mutilação que vi. Não à toa, Moore nem quis creditar o nome dele a película. E tenho bastante receio em relação a Watchmen. Pois se trata do “Cidadão Kane dos quadrinhos”. Lembro de ficar vidrado em cada página, quadro e fala quando li. A obra é sublime. E deu muito trabalho ao desenhista David Gibbons: Alan chegou a escrever uma página inteira só para descrever um quadro de uma página. E Snyder pode estar a um passo da glória ou de cometer o maior pecado da vida dele.
P.S: Agradecimentos a Marcos Nascimento pela idéia que gerou esta matéria. Abraço, véio.
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