
Recentemente, durante o Festival de Cinema de Gramado, o diretor Jorge Furtado declarou: “o cinema ainda não morreu, mas não vai muito bem de saúde”. Diretor de sucessos recentes do cinema nacional, como “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou Um Cara”, Furtado chegou a este “diagnóstico” após sua mais nova obra, “Saneamento Básico – O Filme”, não ter ido tão bem nas bilheterias quanto se esperava. A baixa das bilheterias nacionais em 2007 até agora foi sentida por praticamente todos nossos cineastas, salvando raras exceções como “A Grande Família”, e quando um dos mais importantes cineastas brasileiros (autor do já clássico curta “Ilha das Flores”) sai declarando algo desse tipo aos quatro ventos, precisamos fazer uma reflexão um pouco maior, e aprofundar o “diagnóstico” de nosso cinema.
O objetivo aqui não é esgotar o assunto, e receitar medicamentos que possam curar nosso “doente”, mas apontar pelo menos os maiores “sintomas” que afetam nossa produção cinematográfica. Primeiramente falemos das políticas públicas voltadas para o cinema, ou melhor dizendo, da política: lei de incentivo baseada em renúncia fiscal. Seja na esfera municipal, estadual ou federal, as leis de incentivo sustentam nosso cinema, e ditam a sua lógica. Eis o primeiro paradoxo: políticas públicas baseadas nas leis de mercado, mas não no bem “público”.
A lei de incentivo não disponibiliza recursos diretamente para os filmes aprovados, mas sim uma espécie de “selo de qualidade”, que possibilita aos cineastas buscarem recursos no mercado com grandes patrocinadores, que por sua vez estão interessados em patrocinar apenas aquilo que os possibilite algum “lucro”. Ora, o que pode ser mais interessante aos olhos de um potencial patrocinador: o novo filme de Fernanda Montenegro ou a estréia de um jovem cineasta?
Pronto, está instalada uma competição acirrada entre a classe artística nacional pelas migalhas da iniciativa privada, filmes que teriam capacidade de ser produzidos sem a lei, como os da Globo Filmes, disputam o mesmo parco mercado que os cineastas independentes. Políticas públicas voltadas para a valorização de nossa produção cultural? Ora, estamos em tempos neoliberais, e o Estado deve se eximir de qualquer imposição ao mercado, pois este se auto-regula sozinho.
Uma vez instaurada tal lógica, resta aos realizadores centrar todos os seus esforços na busca por patrocínio para a produção, e quando muito para a pós-produção. Assim, uma outra fase igualmente importante do processo que envolve um filme fica esquecida: a distribuição. O número de salas que exibem filmes brasileiros é ínfima em comparação � s salas dedicadas ao cinema hollywoodiano, e o tempo de exibição também é igualmente ínfimo, um filme brasileiro que consegue ficar mais de duas semanas em cartaz pode-se considerar um vencedor, e você que insiste em gostar de nosso cinema deve se apressar para ver aquele filme que tanto esperou antes que ele saia de cartaz. O resultado em números: apenas 10% das produções nacionais conseguem receitas nas bilheterias correspondentes aos valores captados com leis de incentivo.
Além disso, uma vez negligenciada a distribuição presenciamos fenômeno no mínimo curioso: o “filme na lata”, aquele que chega a esperar anos por uma vaga no circuito nacional de exibição. Estabelece-se assim um círculo vicioso: como nossos filmes não dão lucro sem apoio estatal eles não podem existir, e como os prejuízos são assumidos pelo Estado nossos cineastas e produtoras também não precisam centrar esforços em criar um público para seus filmes. Todos se transformaram numa espécie nova de funcionalismo público, capacitada e selecionada (via as leis de incentivo) para produzir um estoque considerável de filmes para o Estado.
Se essa política cultural se mostra tão ineficiente, em números e em qualidade (uma vez que compromete a produção), por que ela não é modificada? Bem, o primeiro passo para isso seria uma articulação entre a própria classe dos cineastas, capaz de discutir e propor um novo modelo tanto para as leis de incentivo quanto para o circuito de distribuição. Discutir inclusive temas considerados polêmicos, como a reserva de mercado para o cinema nacional.
Argumenta-se contra a reserva que o nosso cinema deve se impor pela qualidade, que a obrigatoriedade em exibir filmes nacionais levaria inevitavelmente a um aumento no número de produções medianas, que teriam público garantido apenas graças � reserva. Mas quem argumenta isso fala como se o cinema brasileiro tivesse uma estética definida, como se nossa escola cinematográfica não tivesse passado por vários hiatos (o mais recente na era Collor, com o fechamento da EMBRAFILME). Para falarmos apenas na tão aclamada “qualidade” de nossa produção atual, citemos algumas “estéticas” atuais: os filmes trash infantis de Xuxa, Didi e “Eliana e os Golfinhos”; aqueles que mais parecem um capítulo da novela da seis como Dom (Machado de Assis dá voltas no túmulo); ou ainda, os apêndices de seriados ao estilo do “Casseta e Planeta”. Pelo visto, a estética dominante hoje em dia é uma estética televisiva, e não cinematográfica.
Como concorrer com “Transformers”, “Shrek” e “Piratas do Caribe”? Que além de milhões de dólares em efeitos especiais e publicidade são exibidos em centenas de salas no país inteiro. Uma saída seria abrir mais espaço para cineastas como o próprio Jorge Furtado, e filmes como os recentes “O Cheiro do Ralo” e o “Céu de Suely” (que contribuem para a estética do cinema nacional). E para mostrar como a idéia não é tão absurda basta falarmos de escolas mais tradicionais que a nossa, que nunca passaram por interrupções como passamos, já adotaram a reserva de mercado para concorrer contra Hollywood.
Vide os países da União Européia (para não falarmos dos asiáticos, fortíssimos com China e Índia), que graças � pressão dos mais famosos cineastas franceses conseguiram para o cinema dos países que a integram, a exibição obrigatória de 51% para seus filmes. A reserva de mercado foi tão benéfica que fez ressurgir o cinema de vários países: França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Suécia e Holanda conseguiram reconquistar seu público. Está na hora de debatermos com seriedade o nosso cinema, e deixarmos de comprar o falacioso discurso neoliberal que prega liberdade de mercado entre desiguais, entre aqueles que dispõe de milhões (sejam hollywoodianos ou globais) e aqueles que lutam pela sobrevivência diária. No caso, a sobrevivência que está em jogo é de uma representação cultural importante para o país, o cinema, realizado por nossos artistas e focando em temas que nos são mais próximos do que carros que viram robôs ou piratas fantasmas.