
Existem etapas da nossa vida; um momento ou uma situação em que nos sentimos num filme ou que poderia render uma boa história para o cinema. Com direito a personagens principais, coadjuvantes e até uma trilha sonora.
Foi o que aconteceu comigo entre os dias 6 e 7 de maio. Durante o período em que os motoristas de ônibus de Fortaleza deflagraram uma greve. A cidade, durante a noite do dia 6, entrou num caos. As ruas repletas de pessoas que só se perguntavam “Como irei para casa?”. E a situação parecia grave em frente ao Shopping Benfica, de onde eu olhava do para-peito da rampa que dá acesso aos deficientes físicos, à aglomeração de gente que fazia balbúrdia. Onde os ônibus passavam superlotados. Atos de vandalismo como depredação e até tentativas de atear fogo nos veículos. Um evento assim parece atraente em uma produção do tipo “Cloverfield“, “Eu Sou a Lenda ” ou “Batman – O Cavaleiro das Trevas“. Um espetáculo para histórias que têm uma catástrofe como pano de fundo. Mas que na vida real, não é tão glamurosa assim. Um aspecto que considero negativo, não só do cinema, mas dos meios de comunicação em geral: a banalização.
Em contrapartida, pude constatar que havia pessoas solidarizando-se com o sofrimento alheio – por exemplo, guardas que pagavam, do próprio bolso, refeição para idosos que não tinham como ir para casa e que, provavelmente, dormiram nos terminais de ônibus - não era apenas um clichê dos filmes. Que bom! =)
Eu, vendo a impossibilidade de tomar uma condução para casa, optei por algo que pode ser considerado uma atitude até extrema: fui andando até minha residência. Enquanto eu caminhava – e começava a rascunhar em minha mente esta matéria – me imaginava em um filme de ficção científica, tipo “Independence Day”. Mas também, eu achava que estava em uma comédia daquelas em que o protagonista é um tremendo “pé frio”. Assim como Peter Parker, “Homem-Aranha 2”, quando ele perdeu os poderes, teve de descer por elevador e ir arrastando a motocicleta até seu apartamento. Durante a 1h e 30 min em que andei, vinha à minha cabeça a música “Heaven Knows I’m Miserable Now”, do The Smiths. Se realmente tocasse, ficaria uma cena legal.
No dia seguinte, poucos ônibus circulavam pela cidade e eu tive a sorte de embarcar em um. Mas o cobrador alertou que poderíamos ser interceptados por manifestantes que pretendiam furar os pneus e quebrar as janelas dos ônibus. Aí me senti como o personagem de Tom Cruise em “Guerra dos Mundos”. Na cena em que pessoas querem tomar o seu carro. Fiquei tenso durante a viagem, todavia nada aconteceu. Ao meio-dia, saindo do meu estágio, tentei voltar para casa. Porém, nada. Nada que pudesse me valer a volta para o meu lar, doce lar. Optei por andar até o Shopping Benfica. Comi alguma coisa. Depois fui ao Gaiola – um bar – tomar cerveja Antarctica (pois é Jurandir, a Brahma podia estar mais barata, mas a boa é A boa).
Pedi ao Seu Edson – o dono do bar – sintonizar numa rádio. Com o céu azul, bastante ensolarado, as nuvens brancas como algodão e apreciando uma cerveja bem gelada, ao som de “Fix You” do Coldplay e depois “Be Yourself” do Audioslave; este foi o cenário da minha tarde do dia 7. E tendo como contexto a greve dos ônibus, que deixou a cidade em polvorosa e depois num estado de calmaria por conta de poucas pessoas que se aventurarem a sair de casa. Imaginei-me como o Clint Eastwood, na cena final de “Menina de Ouro”. Depois encontrei um amigo, filosofamos na mesa do bar. Fomos embora. Após outros percalços, cheguei em casa. E você? Já vivenciou algo que poderia servir de base para um enredo de filme? Não deixe de comentar.
P.S: O fundo musical para esta matéria foi “Punchdrunk Lovesick Singalong” do Radiohead. Traduzindo: “Canção brega de amor para cantar bêbado”. 