A Guerra do Vietnã no Cinema

Publicado em: 31-10-2007 @ 1:29 am 
Postado em: Especiais
Escrito por: Felipe Pinheiro

A Guerra do Vietnã no Cinema

A Guerra do Vietnã é, até hoje, uma ferida aberta no orgulho dos Estados Unidos. A política intervencionista da terra do tio Sam, em plena Guerra Fria, fez com que o presidente Kennedy mandasse, em 1961, quinze mil “conselheiros militares” ao Vietnã, numa tentativa de atrapalhar a reunificação do conturbado país, prejudicando, assim, os planos do líder Ho Chi Minh de estabelecer uma sociedade comunista em uma nação unificada. Em 1965, o presidente Lyndon Johnson aumentou substancialmente o número de tropas e armamentos na guerra, sob intensos protestos de grande parte da população civil estadunidense. Os mais modernos artefatos bélicos desenvolvidos pelos Estados Unidos até então foram postos em ação no conflito. Entre eles, estavam as terríveis bombas de fragmentação, o explosivo napalm e desfolhantes químicos. As tropas do exército norte-vietnamita eram nutridas por armamentos fornecidos, por trás dos panos, pela União Soviética.

Apesar de todo o esforço empreendido durante os doze anos em que os Estados Unidos estiveram envolvidos no conflito armado, as forças norte-vietnamitas e vietcongues acabaram saindo vitoriosas. Os EUA deixaram a região em 1973, após terem sofrido 46.370 baixas.

A Guerra não poderia passar despercebida pela indústria cinematográfica e, para se falar a verdade, muitos filmes excelentes centram-se neste conflito. Entre eles estão “Apocalypse Now” (1979), “Platoon” (1986) e “Nascido Para Matar” (1987), considerados por alguns (inclusive por mim) como as três mais importantes obras centradas neste conflito armado.

›› Apocalypse Now
(Apocalypse Now, 1979)
Assista a um clipe do filme

Apocalypse Now“, de Francis Ford Coppola, foi baseado no livro Heart of Darkness, de Joseph Conrad. No filme, o capitão Willard (Martin Sheen), do exército dos Estados Unidos, recebe uma curiosa missão: deve embarcar em uma perigosa viagem ao Camboja, com o objetivo de encontrar e eliminar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), oficial que teria enlouquecido e estaria comandando um exército de nativos fanáticos nas selvas do país. A jornada é empreendida em um pequeno barco da marinha, comum nos rios do Vietnã, durante a guerra.

A tripulação do barco é composta por jovens marinheiros, comandados pelo experiente Chefe Phillips. Enquanto sobem o rio, passando por terras infestadas de inimigos, o capitão Willard, estudando dossiês sobre o coronel Kurtz, fica obcecado pelo misterioso homem. Willard, aos poucos, vai se tornando cada vez mais parecido com Kurtz, entendendo sua forma de pensar e agir. Os dois parecem estar estranhamente vinculados e, como é dito no próprio filme, não dá para contar a história de Walter E. Kurtz sem contar a de Benjamin L. Willard. O final de “Apocalypse Now” é extremamente dramático e marcante. O encontro dos dois oficiais, que aprendemos a aguardar desesperadamente durante o filme, sela seus destinos, em um momento para o qual ambos parecem ter nascido.

Muitos dizem que “Apocalypse Now” é um filme de guerra. Para mim, a Guerra é apenas o cenário mais oportuno aos dramas pessoais que o filme tenta revelar. A estranha ligação entre Willard e Kurtz é, ao meu ver, o principal tema de “Apocalypse Now”, que foge totalmente aos clichês, não sendo apenas mais um filme de crítica explícita à Guerra do Vietnã.

›› Platoon
(Platoon, 1986)
Assista a um clipe do filme
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O diretor Oliver Stone, em 1986, aventurou-se numa bem sucedida versão da Guerra do Vietnã, em “Platoon“. Stone, que lutou no Vietnã, sendo ferido em combate, pôs sua experiência pessoal no filme, tornando-o quase autobiográfico. “Platoon” conta a estória de Chris Taylor (Charlie Sheen), um jovem que se recruta voluntariamente no exército dos EUA, com o objetivo de lutar no Vietnã. Chegando lá, Taylor vê que a guerra não era como ele pensava. A maioria dos soldados que servem em seu pelotão são garotos oriundos da classe social mais baixa dos Estados Unidos, obrigados pelo governo a se arriscarem na guerra.

Dois oficiais do pelotão, interpretados brilhantemente por Tom Berenger e Willem Dafoe, não conseguem separar a guerra que travam com o inimigo daquela que travam um com o outro. Isso faz com que os homens se dividam, quebrando o companheirismo e tornando ainda mais difícil o longo período que os soldados têm que passar naquele inferno.

Numa cena forte, os soldados americanos invadem uma aldeia de camponeses e, literalmente, fazem um massacre, matando homens e mulheres, incendiando cabanas. Na mesma cena, é mostrado o ódio que começa a nascer em Chris. Um ódio que não é nutrido pelos vietnamitas e sim pela própria situação de limite em que o soldado está vivendo. Chris quase perde o controle quando é desafiado por um camponês perneta, que é morto a coronhadas, momentos depois, por outro soldado do pelotão.

Platoon” mostra, com detalhes, o extremo cansaço físico e mental a que eram submetidos os soldados, durante a guerra. O filme revela, aos poucos, a revolta que cresce no íntimo dos homens, levando-os a praticarem atos desumanos e inesperados.

›› Nascido Para Matar
(Full Metal Jacket, 1987)
Assista a um clipe do filme
COMPRE AGORA!

Em sua respeitável, incursão ao universo dos filmes de guerra, Stanley Kubrick foi autor de uma das mais notáveis e chocantes obras do gênero: “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, 1987). A primeira parte do filme tem como cenário um campo de treinamento norte-americano, onde jovens comuns são forçados a tornarem-se assassinos frios, antes de serem enviados ao Vietnã. As lentes de Kubrick mostram com ironia a vida dos recrutas, sob o comando do mais que severo sargento Hartman.

O primeiro estágio chega ao clímax numa extraordinária cena no banheiro do campo de treinamento, considerada, por mim, uma das mais marcantes da história do cinema. Na segunda parte, somos transportados ao Vietnã e assistimos ao conflito através do recruta Joker, correspondente de um jornal de guerra destinado aos combatentes americanos.

Kubrick nos mostra agora a trajetória de jovens envolvidos em uma guerra que não é deles, assassinos movidos por uma falsa esperança de tornarem-se, um dia, heróis. Mostra a convivência dos soldados e suas relações com os vietnamitas. Revela suas inseguranças e seus medos, escondidos sob a máscara de homicidas de sangue frio. No clímax desta segunda etapa do filme, é mostrado o outro lado da guerra: os jovens soldados, unidos, enfrentando um inimigo único. O filme revela a guerra aos olhos de um dos maiores diretores do século passado. O tema é tratado com uma crueza perturbadora, humor sarcástico e uma visão crítica única.

Nascido Para Matar” destaca-se das outras produções do diretor como um legado de Kubrick aos dias de hoje, a uma sociedade movida pela indústria bélica, a mais imoral de todas as empresas. Um legado a uma sociedade de assassinos profissionais que são, como nos revela Kubrick, as maiores vítimas da guerra.

Apocalypse Now“, “Platoon” e “Nascido Para Matar” são filmes que revelam a Guerra em suas múltiplas facetas. Filmes perturbadores e marcantes por seus enredos e sua dramaticidade poética.

Tropa de Elite

Publicado em: 29-10-2007 @ 12:58 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Missão dada é missão cumprida. Filme assistido é filme absorvido. E inspiração batida é coluna escrita. Depois de escutar comentários, curtir as frases de efeito e as músicas do filme e ignorar toda e qualquer pirataria, conferi “Tropa de Elite” nos cinemas. Seria impossível escrever sobre qualquer outro assunto nessa semana.

mairasuspiro_tropadeelite.jpgPapara-papara-papara-clack-bum“. Essa foi a batida mais cantada por mim nos últimos dias, antes de ver o filme “Tropa de Elite”, até conseguir um tempo para conferi-lo no cinema. Tirar onda babando o personagem do Capitão Nascimento na pele do Wagner Moura virou rotina. Afinal, eu sempre adorei o Wagner Moura, profissionalmente e esteticamente, diga-se de passagem. E a boina “a la personal stylist Guevara” caiu muito bem. Acontece que depois de tirar essa “tropa” de brincadeiras e interpretações triviais sobre o filme, após assisti-lo, me senti uma idiota “de elite” por ter levado tudo tão frívolamente princípio.

Fazia tempo que eu não sentia um leve frio na barriga antes de entrar na sala de exibição para ver um filme. Que ficava ansiosa para ouvir os primeiros tons do início da trilha sonora, no caso, com o tão conhecido “Rap do Dendê”. Ver o rosto em close parado do Capitão Nascimento, com uma boquinha emburrada e a boina que triplicava o charme do Wagner Moura também foi outro “tiro” de emoção. Mas eu tenho que desabafar, porque eu saí com um transtorno interessante do cinema: uma mescla de revolta e compreensão.

Me senti estúpida por tratar o tema com banalidade, dançando o “Rap do Dendê” e brincando com as frases do Bope. Me senti mais uma no meio da multidão, sendo hipócrita, superficial e ignorante. Em determinada cena do filme, que novamente toca o refrão do “Rap do Dendê” – a qual eu não citarei para evitar atrapalhar quem ainda não viu, a ficha caiu: o que é que eu estava fazendo? Sim, porque normalmente não é esse o meu comportamento, não com os filmes nacionais que eu levo a sério. E digo nacionais porque eu tenho um cuidado maior com eles: são nossos.

Foi quando eu percebi que, para mim, “Tropa de Elite”, assim como outros filmes, contava uma história. Uma história até ordinária. Simples: como outros infinitos filmes, ele trazia uma narrativa. Ok. Acontece que aquela narrativa é a fotografia de histórias que se repetem no país, com personagens que podem ser encontrados facilmente na realidade, estampados em “curtas” nos noticiários de toda noite ou em “pôsters” na primeira página do jornal.

Não consegui analisar o filme de forma técnica, pelo menos, não claramente. Não consegui porque acredito ser mais importante analisar a mensagem dele no primeiro momento. Acho que a maioria dos filmes brasileiros usam o cinema para mostrar retratos de realidades nossas, e merecem ser absorvidos. Uma parcela do nosso cinema – e acredito que a maior e a melhor – usa o cinema como arte para invocar uma reflexão. É a expressão de um mundo. E “Tropa de Elite” entrou nessa linha, como um filme simples que pode ser compreendido por qualquer um. Talvez por usar uma linguagem fácil, ter ação e uma música-chefe conhecida (Tropa de Elite, do Tihuana) ele tenha atingido uma parcela maior dos brasileiros do que os outros filmes mais densos. E vejo isso de forma positiva. E esclareço: bom por ter sido divulgado e conhecido pela maioria, mas não necessariamente compreendido por ela.

Ver um filme assim, que traz um ponto de vista da realidade para a grande tela, me deixa aliviada e orgulhosa. Mesmo que fique chocada e fadada a crer que o melhor para a sociedade seria o seu fim: o homem, definitivamente, é o pior bicho que já pisou na Terra. Nesse ponto, sou radical e pessimista. Admito.

Você é um fanfarrão!
Todos nós somos, na minha opinião. E muitos são moleques, como é afirmado em determinado momento pelo Capitão. Quem realmente pode julgar a realidade? Quem pode dizer se ele falou a verdade ou não? Quem pode dizer que está certo ou não, se tem jeito ou não? Quem ousa jogar uma pedra e dizer que nunca se comportou como um daqueles “playboys” estudantes de Direito, nem que seja pela corrupção, pela omissão ou pela estupidez de achar estar fazendo “consciência social” enquanto vive em cima do muro com a classe média? Todos nós somos culpados, civis e polícia, e até o Papa, que insiste em ser estrela e se hospedar em zona de risco. Fazemos todos parte dessa “merda” e somos todos hipócritas. Cínicos. A dose pode variar de um para outro – e varia. Mas não vamos deixar de dormir por causa disso. Podemos aliviar e dizer que é culpa do sistema. E até é. Nascemos nele e não é fácil mudar. Aliás, vendo os próprios argumentos do filme, eu nem sequer acredito que seja possível mudar. Somos todos fanfarrões. Fato.

Shine happy people.
A trilha do sonora do filme é irônica e conveniente. “Rap do Dendê” chega com uma apologia ao crime organizado, como um hino contra os “alemão”. O nome do filme lembra a música do Tihuana, que para mim, é uma banda de “fanfarrões”, para não dizer outra coisa. E nos créditos temos O Rappa, banda de grange referência social, cantando “Lado B, Lado A”. Digno. Até o famoso “Rap da Felicidade” marcou presença. Agora, para mim, a pérola da trilha é quando toca “Shine Happy People” durante uma festinha. Tapa na cara da classe média. Soco no estômogado dos blasés que acham que podem julgar algo e que “metralham” frases feitas sobre a realidade e os problemas do país. Pessoas felizes e radiantes no meio de uma guerra fria e não-declarada. Pessoas omissas e sem ética. E todos dançando ao som de alguma melodia que bote pra correr a culpa. Eu não tenho raiva da polícia ou dos traficantes. Antes de ter algum tipo de sentimento em relação a eles, eu fico indignada com a classe média, que não caga nem descupa o mato, e acaba condizendo com a realidade, tendo a cara de pau de criticar como vemos claramente no filme. Os personagens do filme são reais demais. É isso que tira do sério.

Pede pra sair, pede pra sair!
Todo mundo quer sair. Ninguém aguenta viver com o peso dos problemas do Brasil nas costas. Ninguém aguentaria ser patrulheiro para mudar o mundo o dia todo, vários dias. Não é fácil. E existem pessoas e pessoas. Fábios e Netos. Matias e Marias. Seria muita ingenuidade minha ser utópica e dizer que todos deveríamos sair s ruas e mudar. Não faz parte do nosso DNA isso, da nossa geração. Mas eu torço para que aconteça o mínimo: a consciência. Aquele tapa, tão bem dado pelo Capitão Nascimento repetidas vezes, foi um tapa que o filme tentou nos dar. E nós merecemos bem mais do que um tapa bem dado. Precisaríamos de um saco para nos sufocar até que acordássemos desse estado de comodismo-programado e compreendêssemos o que realmente acontece. Ou tentássemos simplesmente entender.

Põe na conta do Papa. Eu não sou muito religiosa, daí começa a meu sarcasmo quando entendo a missão para garantir o sono do Papa. Adoraria dizer para ele que a Igreja poderia rezar menos e investir os dízimos em algum laboratório “santo” que inventasse uma injeção contra o vírus da corrupção. Ou um bloqueio contra as influências do meio, já que no final das contas, nota-se que o homem é um produto do meio, meio criado por ele mesmo. É um ciclo vicioso e virulento, e o Papa só entra para atrapalhar essa emboscada toda.

Jack Baüer e Capitão Nascimento.
Eu queria utilizar a vassoura, como o Capitão Nascimento sugeriu em uma seqüência do filme, em quem disse que o ele era o Jack Baüer brasileiro. Para mim, o pequeno Jack é um personagem de entretenimento, que tem lá suas ligações com a realidade e abusa das tecnologias e da equipe competente pronta para safar o seu rabo. Já o Capitão Nascimento é que chega mais perto de ser um herói, nem por tentar ser justo ou salvar A ou B, mas por conseguir voltar para casa todo dia, com as mazelas do sistema e a briga emocional interna. São duas realidades absurdamente diferentes, que só uma pessoa muito ingênua poderia realmente pensar em cogitar seriamente. A única coisa que as duas tem em comum é a violência, que assume inúmeros papéis: o de defesa, o de sobrevivência, o de educação, o de ataque e aí é ladeira abaixo.

Enfim, “Tropa de Elite” é um filme que merece ser assistido. No mínimo, será divertidos para quem quiser ser um fanfarrão – e somos muitos. Não esperem esclarecimentos sobre a política ou a política. Para mim, a maior crítica ali não é polícia, e sim classe média. A lama da corrupção já está alta demais para perdermos tempos com julgamentos superficiais. E até o Papa seria chamado para o réu se a corrupção fosse ser julgada. O silêncio s vezes é a melhor opção para ocultar a ignorância. E como o Bope falou: ninguém é obrigado a ver o filme ou levar o tapa que ele dá. Então, peça para sair.

Podemos ver o que seus olhos vêem?

Publicado em: 29-10-2007 @ 12:40 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Paulo Flausino

Revendo o convincente documentário “Janela da Alma”, testemunhei uma frase inesquecível que dizia, mais ou menos, assim: “Apesar de enxergar bem sem óculos, eu sentia falta do enquadramento. Acho que a visão é mais seletiva de óculos”. Nesse mesmo instante pausei o vídeo, desliguei o monitor, fechei meus olhos, olhei para dentro e… algo aconteceu. Inspirei profundo e… algo se moveu. Dessa vez encontrei? Será? Sim! Não há mais duvida. Do imenso e profundo mar que é o inconsciente, emergiu um entendimento súbito (insight)!

Finalmente entendi um mistério que sempre me rondou, um enigma que sempre me incomodou! Que olhos são esses, que os diretores têm e que mais ninguém tem? Que visão de mundo é essa? Visão que, como um arpão, nos atravessa a alma, dilacera-nos os conceitos, reformula-nos as idéias e nos prende a algo único e fascinante que é o sentimento da transcendência, a sensação de sair de si, o poder de alcançar o outro, a proeza de transpor nossa limitada realidade! Através do trabalho deles podemos ser outras pessoas e viver outras histórias! Conhecer outros lugares e entender outras paragens!

É claro que não estou me referindo a Michael Bay’s e Tim Story’s da vida, que alastram o mundo cinematográfico com produtos descartáveis e renegam o potencial do cinema como arte e como canal de crescimento cultural e intelectual. Ali me referia a senhores como: Charles Chaplin, Orson Welles, Steven Spielberg, Sergei Eisenstein, Federico Fellini, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, Peter Jackson, Woody Allen e “George Lucas”. Todos esses senhores são, em minha opinião, gênios incontestáveis sendo que cada um deles tem suas próprias particularidades que os engrandecem ou os apequenam dependendo de que contextos forem julgados e avaliados.

Voltando � quela grande questão: “Que olhos são esses, que somente eles têm, que mais ninguém tem? E mesmo que eles se diferenciem, um do outro, em vários e vários aspectos, o que todos eles têm em comum? O que? Hein?” Inspirado pelas palavras que grifei naquela frase citada no primeiro parágrafo, atrevo-me a dizer que sei o que liga a todos eles; o que os fazem manter um elo eterno de um para com o outro e os diferencia de todo o resto (nós)! Vamos pensar… “Elementar, meus caros Watsons Rapaduras!” Nada mais simples… Nada mais eficaz e diferenciador em nossas vidas e em nossa sociedade!

OLHAR COM A ALMA!!! Sim! Olhar com alma… Isso simboliza dar um significado profundo e singular para cada visão do dia-a-dia, isso representa valorizar a cada tomada que seus olhos venham a fazer! Com essa premissa de vida, eles conseguem a proeza de utilizarem suas visões SELETIVAS, de seus sensos de grandiosidade, de suas profundas admirações pelo belo e pela vontade irresistível de arrebatar e transportar multidões e mais multidões para o ENQUADRAMENTO da vida, que só eles conseguem vislumbrar e entender em profundidade real!

É assim que os enxergo. É assim que os sinto. É assim que os admiro! Quanto a você, meu amigo rapadura, que diretores você admira? Como você os enxerga?

Agnes Varda e Seus Quase Documentários

Publicado em: 29-10-2007 @ 12:39 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Beatriz Diogo

Agnes Varda tem um estilo beirando o pitoresco de apresentar imagens que desencadeiam sua história. O jeito quase documental de “Os Respigadores e a Respigadora” é brindado pela maneira leve que ela tem de brincar com fatos, e com a própria câmera. Como se estivesse ali descobrindo não só histórias, mas também o uso da câmera, seus efeitos, suas cores – e apresentando tudo isso para quem assiste aquela experiência. Muito interessante os momentos em que ela se filma: penteando os cabelos, depois a imagem da própria mão e enfim a brincadeira com relógio re-aproveitado.

Dessa forma ela vai entrelaçando os fios desse quase embate, mostrando personagens que não são exatamente personagens, e que nos fazem sentir que estão contando para nós (e não para uma câmera) suas descobertas. Como se eu tivesse a oportunidade de conhecer aquelas pessoas e compartilhar de suas experiências, num momento descontraído.

Quase parece um filme caseiro, uma câmera na mão e uma expectadora curiosa e profundamente observadora. E de certa forma, é. Mas a junção de outros elementos que compõe o filme, nos faz perceber a profundidade do trabalho que foi realizado. Essa característica da “expectadora curiosa e observadora”, é levada aos seus projetos, como uma marca mesmo do seu trabalho. Já no seu primeiro trabalho (La Pointe-courte, 1956), ela demonstra isso, mesmo que a linguagem utilizada seja diferente (há ficção, personagens criados).

Existe um constante diálogo com a câmera nos trabalhos de Varda, uma ligação forte em seus filmes. Em Lions Love (1969), o “ensaio” com o documentário acontece mais uma vez, mas através de mais uma ficção. Agnès Varda gosta de trabalhar com documentários, mas claro, � sua maneira própria e característica: eles normalmente são documentários que não parecem exatamente documentários. E paralelo a isso, trabalha com suas ficções, caminhando com tranqüilidade pelos gêneros, como comédias, dramas e até fantasia. É interessante o costume que ela conserva de fazer parte de seus filmes de alguma maneira, de aparecer na tela mesmo em alguns deles.

Da mesma geração de Godard, Agnes Varda chegaram a trabalhar juntos em Loin du Vietnam (1967), onde alguns cineastas (como Joris Ivens, William Klein, Claude Lelouch, Chris Marker e Alain Resnais) juntaram-se na realização deste documentário quase político, onde apóiam o exército Vietnamita durante a tão falada Guerra do Vietnã.

Vencedora de pelo menos 23 prêmios em festivais respeitados de cinema, Agnès Varda continua dirigindo filmes, sendo uma cineasta ativa. Aliás, não só dirigindo, como produzindo, escrevendo, editando e atuando!

RapaduraCast 47 - Jogos Mortais

Publicado em: 26-10-2007 @ 12:00 am 
Postado em: RapaduraCast
Escrito por: Redação CCR

Olá leitores, queremos propor um jogo”. Diferente dos jogos de Jigsaw, neste você não possui escolha. Ou melhor, tem, mas somente uma. Escutem a quadragésima sétima edição do RapaduraCast e comentem logo aqui abaixo e/ou mandem e-mails. Muito simples. “Make your choice”.

Jurandir Filho (Juras), Raphael Santos (PH) e Maurício Saldanha descabelaram-se ao falar da cine-série “Jogos Mortais”. O trio comentou tudo sobre os três primeiros longas e até um pouco da expectativa do quarto filme que estréia justamente hoje! Infelizmente, para as pessoas que não assistiram a série, esse podcast irá revelar detalhes importantíssimos. Só escutem na íntegra caso tenham assistido a todos os três primeiros filmes ou se não se importarem com spoilers. Relaxem, que não revelamos nada de importante de “JOGOS MORTAIS 4“. Esse programa teve direito até a uma dublagem do final do terceiro filme da série. Afinal, a Amanda morreu ou não?

O quadro E-Mails trouxe uma novidade. Iniciando as comemorações do RapaduraCast 50, preparamos uma surpresa: você vai enviar um e-mail para rapaduracast@cinemacomrapadura.com.br contendo perguntas, sugestões, pedidos ou dúvidas sobre o portal, o RapaduraCast, cinema, seriados, games e tudo de mais interessante nesse mundo. Coloquem o lado Jô Soares e Maria Gabriela de vocês para fora! Faremos um RapaduraCast 49 especial, dedicado exclusivamente aos leitores do Cinema com Rapadura e ouvintes do podcast. Um presente nosso para vocês que fazem desse programa o melhor podcast de cinema do Brasil.

Duração: 78 min

LINKS ÚTEIS
- Jogos Mortais
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10 Road Movies

Publicado em: 25-10-2007 @ 2:07 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Viajar é sempre bom. É emocionante a ida a um território desconhecido. Claro que você, mesmo estando em sua própria cidade, também está sujeito a eventos totalmente desconhecidos - a vida é cheia de surpresas -, mas ter a oportunidade de mudar de ares é sempre uma sensação das mais agradáveis e excitantes.

Tendo em vista a minha ida recente para São Paulo e o fato de eu ter visto o road movie “Transamérica” por lá, pensei em enumerar dez filmes do gênero. O road movie é aquele tipo de filme que deixa a gente ansioso para chegar ao destino, ao mesmo tempo que nos dá tempo para curtir a paisagem. Na verdade, a viagem é tão ou mais importante que o destino. Então, como forma de celebrar as viagens, segue uma lista de dez road movies. Não necessariamente os melhores, mais os que mais rapidamente me vieram cabeça.

1. HISTÓRIA REAL (The Straight Story). Um filme atípico na filmografia de David Lynch, ainda que muito de sua marca esteja presente nessa história de um velhinho que parte numa longa viagem em cima de um cortador de grama. Ele atravessa várias cidades devagarinho, nesse “meio de transporte” com o objetivo de ver o seu irmão, que estava muito doente. Ele tem suas próprias razões para querer viajar em cima de um cortador de grama, em vez de um meio de transporte mais rápido. Pra que razão melhor do que ver aquele céu estrelado? Curiosamente, o veterano Richard Farnsworth, o protagonista do filme, cometeu suicídio poucos meses depois do filme, aos 80 anos de idade. Farnsworth foi indicado a dois Oscars, sendo que um deles por “História Real”.

2. O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée). O genial Luis Buñuel conta a história de dois vagabundos saindo de Paris e seguindo o caminho de Santiago de Compostella, na Espanha. Ao mesmo tempo que mostra o percurso dos dois, Buñuel nos apresenta o que ele e Jean-Claude Carrière consideravam as seis maiores heresias. Os dois fizeram uma intensa pesquisa e fizeram um filme bastante polêmico e considerado ofensivo pelos católicos mais radicais.

3. E SUA MÃE TAMBÉM (Y Tu Mamá También). Talvez um dos filmes em que a gente mais sente a alegria de viajar. Talvez porque seus protagonistas são muito jovens e cheios de vida. No México, dois rapazes e uma mulher mais velha que eles partem numa viagem pelo interior do país. No caminho, eles aprendem muito sobre sexo, amizade e a valorização de cada momento da vida, como se fosse o último. Belíssimo e sensual trabalho de Alfonso Cuarón.

4. SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways). Diferente dos jovens do filme de Cuarón, os protagonistas de “Sideways” já se aproximam da meia-idade e a vida já lhes trouxe muitas amarguras e decepções. Talvez por isso que o personagem de Paul Giamatti não consegue sentir se entusiasmar tanto com essa viagem. Para ele, o principal objetivo da viagem vai ser mesmo conhecer as principais rotas de vinho da Califórnia. Mas, para sua sorte, a amizade, o retorno da auto-estima e as mulheres estarão pelo caminho.

5. FLORES PARTIDAS (Broken Flowers). Assim como o personagem de Giamatti, o personagem de Bill Murray nesse filme é um homem anestesiado e que já perdeu o gosto pela vida. Até o dia em que ele recebe uma carta anônima que lhe avisa de um filho adolescente, do qual ele não sabia da existência. Auxiliado por seu vizinho e amigo, ele faz uma viagem em busca da mãe de seu filho. O final é belíssimo.

6. CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS. Um dos melhores filmes dos últimos anos do cinema brasileiro, essa pérola dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes é uma das mais inspiradas odes sobre a amizade já realizadas. Grande sacada colocar como um dos protagonistas um estrangeiro. É assim como nos sentimos naquele lugar devastado pela fome e pela miséria, mas que pelo menos não cai bombas do céu. Poucos filmes me deram tanto prazer nesse ano de 2006.

7. ONDE ANDA VOCÊ?. Já que estamos falando de filme brasileiro, lembro desse título tão mal recebido pela crítica e pelo público, mas que me proporcionou momentos de muita alegria. Na trama, um comediante decadente realiza uma viagem em busca de um comediante lendário que mora numa terra distante do Nordeste brasileiro. Vale tudo para alcançar a felicidade perdida. Adoro o tom agridoce desse filme. Dirigido por Sérgio Rezende, que voltou s telas com “Zuzu Angel”.

8. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta / The Motorcycle Diaries). Projeto bem mais ambicioso dirigido por um cineasta brasileiro é essa cinebiografia de parte da juventude de Che Guevara, quando ele saiu de motocicleta com um amigo para conhecer a América do Sul. Este é o exemplo clássico de road movie que mostra o quanto uma viagem pode interferir na vida de uma pessoa e modificá-la para sempre.

9. THELMA & LOUISE. Já entrando no território misto de road movie com filmes de fuga, um dos exemplos mais acabados da filmografia de Ridley Scott é “Thelma & Louise”. O que acontece quando duas mulheres saem em busca da liberdade que há tanto tempo lhes foi negada? Na história, uma dona de casa e uma garçonete fogem de suas vidas e de seus maridos num Thunderbird. A viagem das duas vai ser no mínimo explosiva.

10. TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada). A viagem não é nada agradável, principalmente para o homem que matou acidentalmente Melquiades Estrada. Para ele, essa viagem é como uma purgação pelos seus pecados. No meio do caminho, o deserto que castiga o corpo, cobras venenosas, a pobreza do México e um velho cego que pede para que uma alma caridosa lhe faça o favor de ceifar a sua vida miserável. Excelente estréia na direção de Tommy Lee Jones.

Rambo 4 (2008)

Publicado em: 25-10-2007 @ 1:40 pm 
Postado em: Trailers
Escrito por: Maurício Saldanha


Em 2008 vai fazer 20 anos desde a estréia de “Rambo III”. Nestas duas décadas, Stallone continuou batalhando pelos campos de Hollywood, tentando um bom papel. E achou. “Risco Total” (1993) e “Copland” (1997) são filmes que mostram um homem além do mito (Rocky, Rambo). Mais, “Copland” fez Stallone contracenar com gente como Robert De Niro e Harvey Keitel.

Mas não adianta. Hollywood não perdoa. E muito provavelmente, os fracassos de Stallone estavam anotados. Então mesmo mostrando em “Copland” um verdadeiro ator, seu futuro nas telas era certo: quase nenhum. Sem opção, Stallone teve de escolher projetos recusados, com roteiros capengas, fadados todos ao fracasso.

Porém na virada do milênio, Stallone decide caminhar por suas próprias pernas e dar ele mesmo o fim que Hollywood sempre antes, gosta de determinar. Pegou seus mais queridos personagens e decidiu por encontrá-los cara a cara. Em 2006 foi a vez de ROCKY. E em 2008, Stallone encontra “RAMBO“.

Começa o trailer! Sem a trilha clássica da série, as imagens não emocionam tanto como no trailer de “Rocky Balboa”. Este é um trailer high-tech. Com Stallone parecendo um personagem de LOST, e com frases de efeito tipo: “Viva pelo nada ou Morra por alguma coisa”. Sangue em menos dose que o teaser antes apresentado, e mais caracteres televisivos tipo “Survivor”…

Mas é isso. Talvez seja o novo milênio o culpado dessa nova roupagem. Mas eu, que comprei o box em dvd de Rambo, senti falta da atmosfera de “Rambo - Programado Para Matar” (1982). Porém faltas eram já sentidas também nas duas seqüências seguintes. Sem falar no querido Trautman (Richard Crenna) que neste novo filme não tem como aparecer. Nem no trailer nem no filme. Que Deus o tenha.

A benção deste projeto é sem dúvida a direção de Stallone. Quem viu os extras de Rambo ou Rocky sabe o quanto Sylvester é apaixonado por ambos os personagens e ele, só ele, sabe como os mesmos devem terminar (ou continuar) seus legados.

AVALIAÇÃO DO TRAILER: 8/10
ESTRÉIA NOS EUA: 25 de Janeiro de 2008
SAIBA TUDO SOBRE O FILME: Clique aqui!

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Eu Sou a Lenda (2007)

Publicado em: 25-10-2007 @ 1:36 pm 
Postado em: Trailers
Escrito por: Maurício Saldanha



Will Smith conseguiu o que nenhum outro negro do seu time conseguiu. Martin Lawrence, Chris Tucker, Chris Rock… nenhum deles atingiu o posto de mega star como o de Smith. Arrisco dizer que Will é um Eddie Murphy, talvez não tão pretensioso. Sorte de Francis Lawrence, que dirige este “EU SOU A LENDA” (“I Am Legend”). Ele vem de um único longa: “Constantine”. Antes disso? Clipes de “cantoras”, como Jennifer Lopez e Britney Spears. Em seu segundo longa Francis deixa de lado um canastrão nível 10 (Keanu Reeves) e passa para o rei Midas negro da atual década: Will Smith.

Começa o trailer! De início lembra “Nova Iorque Sitiada” e logo passa para não tão inéditas cenas de uma também Big Apple sem nenhum habitante, somente Smith e seu fiel escudeiro cão. Então que o trailer é tomado por um clima de tensão e falta de luz, sussurros estranhos e…vampiros!!

É isso. “EU SOU A LENDA” é um filme não de um único homem na terra, mas sim, de um único ator para segurar a metragem do longa. Vale lembrar que este filme, desde a década passada, era já anunciado. James Cameron pretendia dirigir, com Arnold Schwarzenegger atuando. Depois de Arnold entrar na política e Cameron realizar o maior blockbuster da face da terra (“Titanic”), ambos desistiram do projeto.

Bom para Francis Lawrence que pega tal projeto com estes nomes uma vez envolvidos. E tanto faz para Smith, pois, tudo que ele faz é igual a sucesso.

Avaliação: 6/10
ESTRÉIA NOS EUA: 14 de Dezembro de 2007
ESTRÉIA NO BRASIL: 18 de Janeiro de 2008
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Diga-me o seu filme que te direi quem és.

Publicado em: 22-10-2007 @ 7:11 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Sabe quando você está em um grupo novo de pessoas e falta assunto? Pois é, vira e mexe, alguém acaba falando de algum filme para quebrar o gelo ou simplesmente para puxar assunto. E dependendo do filme que a pessoa citar, você pode até tirar algumas conclusões sobre a personalidade da criatura.

Eu tenho uma amiga com quem eu já deixo pré-combinado: ó, se faltar assunto, joga algum filme na conversa. Ou o cinema entra como tábua-da-salvação para evitar o silêncio constrangedor entre as pessoas ou entra como fonte de pesquisa sobre a pessoa com quem se está conversando. Sempre muito útil!

Certa vez eu estava em um jantar qualquer, com um monte de gente com quem eu não tinha muita paciência para conversar. Então, alguém falou: ah, a Maíra escreve sobre Cinema. Olha, só… Imediatamente, todo mundo começou a me perguntar sobre cinema, como se eu tivesse muita paciência para falar apenas sobre isso 24 horas por dia ou fosse uma autoridade no assunto. Aí começam as perguntas mais óbvias (e descabidas): “Tu sabe quais os filmes que estão em cartaz?” Ah sim, claro, eu sou informadora nas horas vagas… Ou, “Tu já assistiu aquele filme tal?” Provavelmente, a pessoa está falando de algum enlatado americano super-pop ao qual eu ainda não tive tempo de ver. Ou ainda, os casos mais absurdos: “Ah, eu sou cinéfilo!” É mesmo? “É, eu vou ao cinema todo fim de semana!” Sim, e quem foi que disse que cinéfilo é definido por matemática? Enfim, ok… E qual teu ator favorito? Tem algum que tu acompanha? “Sim, eu adoro o Brad Pitt!” Nossa senhora, só não foi pior porque ele não falou o Tom Cruise… Nada contra o Brad Pitt - ele é um pitel. Mas, não consigo dar muito crédito a quem tem ele como melhor ator, sem sequer citar um nome de peso-qualitativo. Enfim, quando o Cinema entra como tábua-da-salvação dos outros e tábua-do-desespero para você, quem sabe o melhor é pegar o filme mais complexo e europeu que você viu e citá-lo. Pronto, acaba o assunto de onda comercial. Ou vice-versa.

Se estamos no extremo-comercial, podemos ir para o extremo-cult ou, como eu já citei em colunas passadas, para o extremo do “pseudo-cult”. Aquele povo que quer parecer inteligente e sai falando dos filmes que viraram ícone da cultura cinéfila e são referências de “cinema bom”. É só ver se a pessoa vai citar “Laranja Mecânica”, qualquer filme do Bergman, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança”, “Amelie Poulain”, “Cinema Paradiso” e por aí vai, sem sequer ter uma base argumentativa forte. “Ah, porque esse filme é bom demais, sem palavras para descrêve-lo!” Claro que é sem palavras, se fosse para descrever, você não conseguiria… E o pior é que tem gente que até engana, sabe? Ai você tem que investigar se a criatura realmente curte o filme – porque afinal de contas, são filmes bons – ou se está apensar pousando de pseudo-cult. Nessas horas, é bom se fazer de doido. Ou então, soltar um argumento seu e perguntar o que o tal “grilo” falante tem para dizer.

E aí rolam os extremo-cults mesmo, que só querem falar do cinema italiano, do cinema do Oriente Médio, do Cinema Novo e gritando argumentos como se estivesse em um palanque político. Ai, eu canso. E fico enfadada. Se quer se exibir, ao invés de explicar o tema e apresentar os filmes, procure o bar mais próximo, que os bêbados podem fingir te dar atenção. No final das contas, essas pessoas só querem ter público para confirmar o intelecto deles. Ninguém com bom senso insiste em uma conversa unilateral, ora.

Bom mesmo, na verdade, é quando você vê que a pessoa sabe do que gosta e não tem medo de falar. No mínimo, ela vai saber falar bem do filme, sendo trash, ruim ou o que quer que seja. É quando todas as máscaras que certos filmes podem impor saem de cena e a síndrome de David Aames some do mapa. Qual é o problema de quem diz que o primeiro grande filme da vida foi “O Rei Leão”? Ora, foi o meu primeiro filme, junto com “Sociedade dos Poetas Mortos”. E o que é que tem chorar em “Um Amor Para Recordar”? É mamão-com-açúcar, mas emociona alguns. Não é para ter vergonha de assumir, ora. Se fosse “Minha Vida Sem Mim”, produzido pelo Almodóvar, em um instante seria “digno” de ser citado em rodas de conversas… No final das contas, os filmes que você gosta podem dizer muito sobre você, mas são seus argumentos sobre eles que fazem a diferença. Então, ande sempre com as notinhas no bolso, caso você precise sair de uma saia justa ou de um silêncio constrangedor.

O Segredo da Vida

Publicado em: 22-10-2007 @ 12:56 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Eles estão chegando! Depois de venderem milhões de livros pelo mundo inteiro os magos da auto-ajuda finalmente (ou infelizmente) estão chegando s telas de cinema, com suas fórmulas mágicas de sucesso e fortuna ao alcance de qualquer um. O grande representante dessa nova “escola” cinematográfica é o “Segredo”, que conta a história de uma conspiração milenar para ocultar da humanidade a “Lei da Atração”, o tão afamado segredo do título. A tal “Lei” consiste basicamente em acreditar na força do pensamento, na sua capacidade em atrair para si tanto coisas boas (dinheiro, dinheiro e mais dinheiro) quanto coisas ruins.

Uma vez que a qualidade cinematográfica do documentário é baixíssima, a ponto de parecer um daqueles vídeos de formatura (inclusive com animações toscas no estilo do 3D-Max), nos resta discutir a “Lei” em questão. Vejamos como tudo funciona, a história de um homossexual que sofria preconceito no trabalho é belo exemplo da teoria defendida no filme: segundo a “Lei da Atração” ele atraia pra si com seus pensamentos negativos toda a discriminação que sofria. Ou seja, o problema não estava na sociedade homofóbica em que ele vivia, mas no fato dele pensar constantemente em coisas negativas, ao invés da sociedade mudar e ser mais tolerante ele é quem teve mudar seus pensamentos e pronto, sucesso, dinheiro e fim do preconceito.

A fórmula é basicamente a mesma de outros sucessos do lucrativo mercado da auto-ajuda: a resposta está sempre no indivíduo, ele tem a chave para todos seus problemas, caso não consiga resolvê-los a responsabilidade é toda sua, e não do guru do sucesso que estiver na moda (ótima válvula de escape teórica, qualquer problema com a teoria está no intérprete, e não na formulação). O significado do sucesso tão almejado pode ser resumido a uma simples palavra: dinheiro. Amor, amigos, fraternidade e solidariedade são todos frutos do dinheiro. E mais uma vez é reforçada a lógica individualista, você e seu sucesso em primeiro lugar, todo o resto do mundo será automaticamente feliz se você também for. O fato do ser humano viver em sociedade, e de que todos dependemos em maior ou menor escala das pessoas com quem convivemos, sequer são abordados pelo filme. Se você pretende se inserir numa lógica arrivista do “salve-se quem puder” esse é o filme ideal, depois de assistir pode se inscrever no “Aprendiz” do Roberto Justus e mentalizar que ficará igualzinho a ele. Mas e se a resposta não estiver em você, mas justamente nas pessoas ao seu redor? E se a fórmula mágica para a felicidade não puder ser encontrada sozinho?

Dois dos melhores filmes de 2006 investem mais nessa possibilidade, e se revelam muito mais interessantes, seja como cinema ou então como teoria (ou “Segredo”, como queiram). Em “A Fonte da Vida”, um médico vivido por Hugh Jackman pesquisa obsessivamente uma cura para o câncer de sua amada esposa (interpretada por Rachel Weiz), sua busca é incansável a ponto de fazer com que sacrifique as últimas horas que teria ao lado dela no laboratório. A angústia do personagem não se deve apenas ao medo da perda, mas também ao fato de não entender o mistério da morte. Por outro lado, mesmo estando com as horas contadas, sua esposa aceita seu destino e acaba por lhe dar a resposta para todos seus questionamentos por meio da forma como encara a morte. Ela mostra que uma vida nunca faz sentido sozinha, mas apenas em complementaridade s vidas ao seu redor, em especial aqui a vida da pessoa que se ama. Tanto que ela deixa seu último livro inacabado para que ele termine, a história dela é a história dele.

O diretor Darren Aronofsky (”Réquiem Para Um Sonho“) utiliza os recursos narrativos do cinema para melhor desenvolver sua “tese”, em especial a fotografia: uma mesma luz ilumina o filme inteiro, a luz de uma estrela para a qual todas as vidas convergem, aí a vida transcende a morte, no momento em que os dois se tornam um. No final, poderia ser apenas mais um filme romântico com queda para o melodrama, mas toda simbologia da trama (religiosa, filosófica) consegue superar um único gênero, flertando até mesmo com a ficção cientifica de forma convincente. O amor entre os dois personagens principais nos faz lembrar dos versos da última canção dos Beatles: “e no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá”.

E quanto ao dinheiro e bens materiais? Igualmente podemos dizer que eles não fazem o menor sentido sem o componente humano, como mostra “Filhos da Esperança”. Num futuro próximo, por algum motivo desconhecido as mulheres não conseguem engravidar, e a morte da pessoa mais jovem do planeta desencadeia uma onda de protestos e confrontos violentos por todo planeta. Mas o aspecto mais interessante é quanto s conquistas materiais da humanidade, os avanços tecnológicos desse futuro alternativo pararam na década de 90. Sem futuras gerações para herdarem o mundo, não quer dizer mais nada um tv de plasma ou um celular com bluetooth. A certa altura, o personagem de Clive Owen interroga o curador do maior museu de Londres: de que adianta preservar todas estas obras-primas se dentro de cinco décadas não vai haver mais ninguém para apreciá-las?

Sucesso, fama e dinheiro, bem como todas as conquistas materiais da humanidade são vazias quando não podem ser aproveitadas em benefício das pessoas, e de preferência em benefício de mais de uma pessoa, ou seja, da coletividade. Se existe mesmo algum “segredo”, com certeza ele não pode ser descoberto sozinho, e tão pouco ser apropriado em benefício próprio, porque se assim o for o “segredo” pode ser definido numa simples palavra: egoísmo.

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