
A Guerra do Vietnã é, até hoje, uma ferida aberta no orgulho dos Estados Unidos. A política intervencionista da terra do tio Sam, em plena Guerra Fria, fez com que o presidente Kennedy mandasse, em 1961, quinze mil “conselheiros militares” ao Vietnã, numa tentativa de atrapalhar a reunificação do conturbado país, prejudicando, assim, os planos do líder Ho Chi Minh de estabelecer uma sociedade comunista em uma nação unificada. Em 1965, o presidente Lyndon Johnson aumentou substancialmente o número de tropas e armamentos na guerra, sob intensos protestos de grande parte da população civil estadunidense. Os mais modernos artefatos bélicos desenvolvidos pelos Estados Unidos até então foram postos em ação no conflito. Entre eles, estavam as terríveis bombas de fragmentação, o explosivo napalm e desfolhantes químicos. As tropas do exército norte-vietnamita eram nutridas por armamentos fornecidos, por trás dos panos, pela União Soviética.
Apesar de todo o esforço empreendido durante os doze anos em que os Estados Unidos estiveram envolvidos no conflito armado, as forças norte-vietnamitas e vietcongues acabaram saindo vitoriosas. Os EUA deixaram a região em 1973, após terem sofrido 46.370 baixas.
A Guerra não poderia passar despercebida pela indústria cinematográfica e, para se falar a verdade, muitos filmes excelentes centram-se neste conflito. Entre eles estão “Apocalypse Now” (1979), “Platoon” (1986) e “Nascido Para Matar” (1987), considerados por alguns (inclusive por mim) como as três mais importantes obras centradas neste conflito armado.
›› Apocalypse Now
(Apocalypse Now, 1979)
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“Apocalypse Now“, de Francis Ford Coppola, foi baseado no livro Heart of Darkness, de Joseph Conrad. No filme, o capitão Willard (Martin Sheen), do exército dos Estados Unidos, recebe uma curiosa missão: deve embarcar em uma perigosa viagem ao Camboja, com o objetivo de encontrar e eliminar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), oficial que teria enlouquecido e estaria comandando um exército de nativos fanáticos nas selvas do país. A jornada é empreendida em um pequeno barco da marinha, comum nos rios do Vietnã, durante a guerra.


A tripulação do barco é composta por jovens marinheiros, comandados pelo experiente Chefe Phillips. Enquanto sobem o rio, passando por terras infestadas de inimigos, o capitão Willard, estudando dossiês sobre o coronel Kurtz, fica obcecado pelo misterioso homem. Willard, aos poucos, vai se tornando cada vez mais parecido com Kurtz, entendendo sua forma de pensar e agir. Os dois parecem estar estranhamente vinculados e, como é dito no próprio filme, não dá para contar a história de Walter E. Kurtz sem contar a de Benjamin L. Willard. O final de “Apocalypse Now” é extremamente dramático e marcante. O encontro dos dois oficiais, que aprendemos a aguardar desesperadamente durante o filme, sela seus destinos, em um momento para o qual ambos parecem ter nascido.
Muitos dizem que “Apocalypse Now” é um filme de guerra. Para mim, a Guerra é apenas o cenário mais oportuno aos dramas pessoais que o filme tenta revelar. A estranha ligação entre Willard e Kurtz é, ao meu ver, o principal tema de “Apocalypse Now”, que foge totalmente aos clichês, não sendo apenas mais um filme de crítica explícita à Guerra do Vietnã.
›› Platoon
(Platoon, 1986)
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O diretor Oliver Stone, em 1986, aventurou-se numa bem sucedida versão da Guerra do Vietnã, em “Platoon“. Stone, que lutou no Vietnã, sendo ferido em combate, pôs sua experiência pessoal no filme, tornando-o quase autobiográfico. “Platoon” conta a estória de Chris Taylor (Charlie Sheen), um jovem que se recruta voluntariamente no exército dos EUA, com o objetivo de lutar no Vietnã. Chegando lá, Taylor vê que a guerra não era como ele pensava. A maioria dos soldados que servem em seu pelotão são garotos oriundos da classe social mais baixa dos Estados Unidos, obrigados pelo governo a se arriscarem na guerra.


Dois oficiais do pelotão, interpretados brilhantemente por Tom Berenger e Willem Dafoe, não conseguem separar a guerra que travam com o inimigo daquela que travam um com o outro. Isso faz com que os homens se dividam, quebrando o companheirismo e tornando ainda mais difícil o longo período que os soldados têm que passar naquele inferno.
Numa cena forte, os soldados americanos invadem uma aldeia de camponeses e, literalmente, fazem um massacre, matando homens e mulheres, incendiando cabanas. Na mesma cena, é mostrado o ódio que começa a nascer em Chris. Um ódio que não é nutrido pelos vietnamitas e sim pela própria situação de limite em que o soldado está vivendo. Chris quase perde o controle quando é desafiado por um camponês perneta, que é morto a coronhadas, momentos depois, por outro soldado do pelotão.
“Platoon” mostra, com detalhes, o extremo cansaço físico e mental a que eram submetidos os soldados, durante a guerra. O filme revela, aos poucos, a revolta que cresce no íntimo dos homens, levando-os a praticarem atos desumanos e inesperados.
›› Nascido Para Matar
(Full Metal Jacket, 1987)
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Em sua respeitável, incursão ao universo dos filmes de guerra, Stanley Kubrick foi autor de uma das mais notáveis e chocantes obras do gênero: “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, 1987). A primeira parte do filme tem como cenário um campo de treinamento norte-americano, onde jovens comuns são forçados a tornarem-se assassinos frios, antes de serem enviados ao Vietnã. As lentes de Kubrick mostram com ironia a vida dos recrutas, sob o comando do mais que severo sargento Hartman.
O primeiro estágio chega ao clímax numa extraordinária cena no banheiro do campo de treinamento, considerada, por mim, uma das mais marcantes da história do cinema. Na segunda parte, somos transportados ao Vietnã e assistimos ao conflito através do recruta Joker, correspondente de um jornal de guerra destinado aos combatentes americanos.


Kubrick nos mostra agora a trajetória de jovens envolvidos em uma guerra que não é deles, assassinos movidos por uma falsa esperança de tornarem-se, um dia, heróis. Mostra a convivência dos soldados e suas relações com os vietnamitas. Revela suas inseguranças e seus medos, escondidos sob a máscara de homicidas de sangue frio. No clímax desta segunda etapa do filme, é mostrado o outro lado da guerra: os jovens soldados, unidos, enfrentando um inimigo único. O filme revela a guerra aos olhos de um dos maiores diretores do século passado. O tema é tratado com uma crueza perturbadora, humor sarcástico e uma visão crítica única.
“Nascido Para Matar” destaca-se das outras produções do diretor como um legado de Kubrick aos dias de hoje, a uma sociedade movida pela indústria bélica, a mais imoral de todas as empresas. Um legado a uma sociedade de assassinos profissionais que são, como nos revela Kubrick, as maiores vítimas da guerra.
“Apocalypse Now“, “Platoon” e “Nascido Para Matar” são filmes que revelam a Guerra em suas múltiplas facetas. Filmes perturbadores e marcantes por seus enredos e sua dramaticidade poética.
“Papara-papara-papara-clack-bum“. Essa foi a batida mais cantada por mim nos últimos dias, antes de ver o filme “Tropa de Elite”, até conseguir um tempo para conferi-lo no cinema. Tirar onda babando o personagem do Capitão Nascimento na pele do Wagner Moura virou rotina. Afinal, eu sempre adorei o Wagner Moura, profissionalmente e esteticamente, diga-se de passagem. E a boina “a la personal stylist Guevara” caiu muito bem. Acontece que depois de tirar essa “tropa” de brincadeiras e interpretações triviais sobre o filme, após assisti-lo, me senti uma idiota “de elite” por ter levado tudo tão frívolamente princípio.
Revendo o convincente documentário “Janela da Alma”, testemunhei uma frase inesquecível que dizia, mais ou menos, assim: “Apesar de enxergar bem sem óculos, eu sentia falta do enquadramento. Acho que a visão é mais seletiva de óculos”. Nesse mesmo instante pausei o vídeo, desliguei o monitor, fechei meus olhos, olhei para dentro e… algo aconteceu. Inspirei profundo e… algo se moveu. Dessa vez encontrei? Será? Sim! Não há mais duvida. Do imenso e profundo mar que é o inconsciente, emergiu um entendimento súbito (insight)! 


1. HISTÓRIA REAL (The Straight Story). Um filme atípico na filmografia de David Lynch, ainda que muito de sua marca esteja presente nessa história de um velhinho que parte numa longa viagem em cima de um cortador de grama. Ele atravessa várias cidades devagarinho, nesse “meio de transporte” com o objetivo de ver o seu irmão, que estava muito doente. Ele tem suas próprias razões para querer viajar em cima de um cortador de grama, em vez de um meio de transporte mais rápido. Pra que razão melhor do que ver aquele céu estrelado? Curiosamente, o veterano Richard Farnsworth, o protagonista do filme, cometeu suicídio poucos meses depois do filme, aos 80 anos de idade. Farnsworth foi indicado a dois Oscars, sendo que um deles por “História Real”.
2. O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée). O genial Luis Buñuel conta a história de dois vagabundos saindo de Paris e seguindo o caminho de Santiago de Compostella, na Espanha. Ao mesmo tempo que mostra o percurso dos dois, Buñuel nos apresenta o que ele e Jean-Claude Carrière consideravam as seis maiores heresias. Os dois fizeram uma intensa pesquisa e fizeram um filme bastante polêmico e considerado ofensivo pelos católicos mais radicais.
3. E SUA MÃE TAMBÉM (Y Tu Mamá También). Talvez um dos filmes em que a gente mais sente a alegria de viajar. Talvez porque seus protagonistas são muito jovens e cheios de vida. No México, dois rapazes e uma mulher mais velha que eles partem numa viagem pelo interior do país. No caminho, eles aprendem muito sobre sexo, amizade e a valorização de cada momento da vida, como se fosse o último. Belíssimo e sensual trabalho de Alfonso Cuarón.
4. SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways). Diferente dos jovens do filme de Cuarón, os protagonistas de “Sideways” já se aproximam da meia-idade e a vida já lhes trouxe muitas amarguras e decepções. Talvez por isso que o personagem de Paul Giamatti não consegue sentir se entusiasmar tanto com essa viagem. Para ele, o principal objetivo da viagem vai ser mesmo conhecer as principais rotas de vinho da Califórnia. Mas, para sua sorte, a amizade, o retorno da auto-estima e as mulheres estarão pelo caminho.
5. FLORES PARTIDAS (Broken Flowers). Assim como o personagem de Giamatti, o personagem de Bill Murray nesse filme é um homem anestesiado e que já perdeu o gosto pela vida. Até o dia em que ele recebe uma carta anônima que lhe avisa de um filho adolescente, do qual ele não sabia da existência. Auxiliado por seu vizinho e amigo, ele faz uma viagem em busca da mãe de seu filho. O final é belíssimo.
6. CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS. Um dos melhores filmes dos últimos anos do cinema brasileiro, essa pérola dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes é uma das mais inspiradas odes sobre a amizade já realizadas. Grande sacada colocar como um dos protagonistas um estrangeiro. É assim como nos sentimos naquele lugar devastado pela fome e pela miséria, mas que pelo menos não cai bombas do céu. Poucos filmes me deram tanto prazer nesse ano de 2006.
7. ONDE ANDA VOCÊ?. Já que estamos falando de filme brasileiro, lembro desse título tão mal recebido pela crítica e pelo público, mas que me proporcionou momentos de muita alegria. Na trama, um comediante decadente realiza uma viagem em busca de um comediante lendário que mora numa terra distante do Nordeste brasileiro. Vale tudo para alcançar a felicidade perdida. Adoro o tom agridoce desse filme. Dirigido por Sérgio Rezende, que voltou s telas com “Zuzu Angel”.
8. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta / The Motorcycle Diaries). Projeto bem mais ambicioso dirigido por um cineasta brasileiro é essa cinebiografia de parte da juventude de Che Guevara, quando ele saiu de motocicleta com um amigo para conhecer a América do Sul. Este é o exemplo clássico de road movie que mostra o quanto uma viagem pode interferir na vida de uma pessoa e modificá-la para sempre.
9. THELMA & LOUISE. Já entrando no território misto de road movie com filmes de fuga, um dos exemplos mais acabados da filmografia de Ridley Scott é “Thelma & Louise”. O que acontece quando duas mulheres saem em busca da liberdade que há tanto tempo lhes foi negada? Na história, uma dona de casa e uma garçonete fogem de suas vidas e de seus maridos num Thunderbird. A viagem das duas vai ser no mínimo explosiva.
10. TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada). A viagem não é nada agradável, principalmente para o homem que matou acidentalmente Melquiades Estrada. Para ele, essa viagem é como uma purgação pelos seus pecados. No meio do caminho, o deserto que castiga o corpo, cobras venenosas, a pobreza do México e um velho cego que pede para que uma alma caridosa lhe faça o favor de ceifar a sua vida miserável. Excelente estréia na direção de Tommy Lee Jones.
Eu tenho uma amiga com quem eu já deixo pré-combinado: ó, se faltar assunto, joga algum filme na conversa. Ou o cinema entra como tábua-da-salvação para evitar o silêncio constrangedor entre as pessoas ou entra como fonte de pesquisa sobre a pessoa com quem se está conversando. Sempre muito útil!
Eles estão chegando! Depois de venderem milhões de livros pelo mundo inteiro os magos da auto-ajuda finalmente (ou infelizmente) estão chegando s telas de cinema, com suas fórmulas mágicas de sucesso e fortuna ao alcance de qualquer um. O grande representante dessa nova “escola” cinematográfica é o “Segredo”, que conta a história de uma conspiração milenar para ocultar da humanidade a “Lei da Atração”, o tão afamado segredo do título. A tal “Lei” consiste basicamente em acreditar na força do pensamento, na sua capacidade em atrair para si tanto coisas boas (dinheiro, dinheiro e mais dinheiro) quanto coisas ruins.