Minha paixão pelo cinema começou ainda na infância, com Jerry Lewis, Peter Sellers, o Gordo e o Magro e Charles Chaplin naquelas sessões dominicais dos anos 80. Mas foi na adolescência que me tornei aquilo que comumente chamam de cinéfilo, um verdadeiro compulsivo, chegando a assistir dois ou três filmes por dia. Confesso que não tinha muito critério para escolher qual filme assistir, bastava ligar a tv e ver os créditos iniciais para me dispor a passar duas horas ali parado, mesmo que fosse a maior bomba do mundo.
Mas de uns anos pra cá resolvi ser um pouco mais seletivo, decidi que já tinha visto bombas suficientes pelo resto da minha vida. E por algumas vezes sou radical a ponto de me recusar assistir alguns filmes, cheguei até mesmo a criar uma categoria pessoal para essas obras: NÃO VI E NÃO GOSTEI. Pode ser um nome no elenco, um trailler sem graça ou na maioria das vezes, a sinopse, e pronto, não faço o menor esforço para ver o filme. A princípio pode até parecer um preconceito, em alguns casos talvez seja mesmo, mas não é nada que não possa ser remediado. Eu disse que não me esforço para ver o filme, mas se estiver em casa e ele estiver começando na televisão, e eu não tiver nada melhor para fazer no momento, até me disponho a por prova minha pré-avaliação.
Deixem-me dar alguns exemplos. Primeiramente, novas versões para alguns de meus filmes preferidos: “Cidade dos Anjos” e “Mensagem para você”. O primeiro é uma versão hollywoodiana para um dos grandes filmes de Win Wenders, “Asas do Desejo”. No original um anjo passando por uma crise existencial, se questionando pelo sentido da vida eterna, acaba apaixonando-se por uma trapezista e resolve tornar-se um mortal para viver esse amor. Na versão americana temos os rostos conhecidos de Nicolas Cage e Meg Ryan, ela é uma médica e ele é o anjo caído e apaixonado.
O filme de Wenders possui beleza e sutileza apaixonantes, além do mérito de transformar filosofia em cinema a partir de uma história de amor. Isso sem falar na fotografia, belíssima feita metade em preto e branco e metade colorida. Todas essas qualidades afirmam o diretor como um grande artista, possuidor de uma linguagem tão própria e de uma obra tão característica que qualquer tentativa de copiá-las ou de se aproximar delas não passa disso, de uma cópia.
Agora falando de “Mensagem para você”, temos aí uma refilmagem de um clássico dos anos 40, “A Loja da Esquina”. Na primeira versão James Stewart e Margaret Sullavan são dois funcionários da loja do título, que se odeiam, mas trocam juras de amor por correspondência sob pseudônimos. Sessenta anos depois o casal é formado por Tom Hanks e Meg Ryan, dois livreiros concorrentes que trocam mensagens de amor por e-mail, estamos na era da Internet afinal de contas.
Aqui o central é justamente a questão conjuntural, simplesmente não estamos mais nos anos 40, toda a inocência e otimismo que dão o tom no clássico do diretor Ernest Lubitsch soam no mínimo démodé em nossos tempos cínicos. Isso sem contar no carisma de James Stewart, Tom Hanks pode ser o queridinho de Hollywood hoje em dia, mas com certeza não tem a mesma força que o ator preferido de Alfred Hitchcock, Frank Capra e John Ford (simplesmente os três maiores diretores do cinemão holywoodiano). Quanto a Meg Ryan não se trata de perseguição de minha parte, mesmo ela tendo atuado em um de meus filmes preferidos, “Harry e Sally”, não são todos os trabalhos dela que chamam minha atenção.
Já um ator que me afasta de qualquer filme simplesmente com seu nome nos letreiros é o ex-astro Kevin Costner, desde o mega fracasso “Waterworld” o nome do americano para mim é sinônimo de bomba. Me parece que o sucesso alcançado depois de “Dança com Lobos”, subiu cabeça dele, ou alguém se lembra de algum filme memorável após o oscarizado western? Ele teve a cara de pau de protagonizar bobagens como “O Mensageiro” e “Dez dias que abalaram o mundo”, além de recentemente ter bancado o serial killer em “Instinto Secreto” (e ameaçar que este na verdade é a primeira parte de uma trilogia). E pelos números das bilheterias não foi só o meu interesse pelos filmes de Costner que desapareceu, se um dia ele já foi o galã número um de Hollywood, hoje ele não passa de um coroa boa pinta.
Isso não quer dizer que meu interesse se conduz apenas pelo sucesso de público, alguns filmes que tiveram sucesso retumbante também não me apetecem, nesses casos é a temática nada original que me afasta. Vide a série “Jogos Mortais” e todos seus derivados: “Albergue” e “Turistas”. Todas essas produções possuem como maior atrativo o bizarro e o escatológico para fazer terror, me bastou assistir o primeiro “Jogos” pra constatar algo que parece claro como água, esse novo subgênero do terror nada mais é do que um derivado de mau gosto de “Seven”. Ao lado de “Clube da Luta”, outro filme também do diretor David Fincher, o suspense protagonizado por Brad Pitt e Morgan Freeman conseguia ir a fundo no que diz respeito banalização da violência e perda do valor da vida humana, enquanto o assassino Jigsaw se destaca exatamente pelo contrário: choca pelo excesso, transformando em mero espetáculo o grotesco como se fosse uma proposta estética. E essa receita parece ter sido feita para as bilheterias, tanto que já estamos na quarta parte dessa bizarrice.
Continuações despropositadas também me irritam, como as séries já infinitas “Premonição” e “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. Idéias que a princípio eram até interessantes, e bem resolvidas num único filme são espremidas até o bagaço em mais duas ou três continuações, chegando a irritar os seus próprios fãs. Em suma, o grande problema de todas essas produções lamentáveis é um só: grana. É uma pena que em sua sanha por lucros astronômicos os grandes estúdios por vezes percam o bom senso, e revelem seu maior talento, acabar com qualquer idéia realmente original e inovadora.