Quando recebi o e-mail do Jurandir Filho (o Juras), indicando o novo blog do Fernando Meirelles, sobre sua nova incursão no cinema mundial, não pude conter a curiosidade. Apesar do recurso já ter sido usado por outros diretores, e até mesmo por Meirelles na ocasião da produção de “O Jardineiro Fiel”, nunca havia lido nada que acompanhasse o dia-a-dia de um set de filmagens vindo da fonte direta e mais completa que é o cineasta.
Acompanhava cada nova notícia sobre a escolha do elenco, as locações (que acabou por contemplar Canadá, Uruguai e Brasil – que vontade de viver em São Paulo só para acompanhar um dia que fosse de gravação) e tudo o mais que a imprensa divulgava sobre o título provisório “Blindness – Ensaio Sobre a Cegueira”. Agora, seria diferente. Ficaria sabendo da boca ou dos toques do brasileiro indicado ao Oscar e que trabalharia com Julianne Moore, Mark Ruffalo e Gael García Bernal. Admirador do trabalho de Meirelles e do texto de Saramago que sou mesmo não tendo lido ainda o livro que deu origem ao filme, virei fã do diretor logo que li o primeiro post. A paixão com que o cara escreve é de deixar muito estudante de cinema babando. E pensar que tem um estagiário sortudo e, deixando de lado o recalque, provavelmente talentoso da ECA na equipe do filme.
Um dos melhores momentos da leitura do blog, que vez ou outra releio além de acompanhar as últimas novidades, continua sendo o Post 3: Sobre filmagem “al dente”, quando ele compara o trabalho com Moore e Ruffalo a cozinhar na mesma panela um ravióli e um fusili. O texto repleto de metáforas culinárias fala sobre os diferentes tempos dos atores. Aspectos do trabalho que só aprenderíamos no local ou de alguém realmente experiente.
Outro post marcante é aquele sobre carisma. Fernando Meirelles escreve sobre alguns nomes em seu elenco que transbordam dessa qualidade, caso da canadense Sandra Oh. Mas seus escritos vão além de suas impressões pessoais sobre este ou aquele ator. O autor descreve todo o processo que considera relevante em todas as etapas da criação de um filme. Desde o encontro com José Saramago para discutir o roteiro adaptado até os detalhes de edição. Para a sorte dos aficionados por cinema, o trabalho de Meirelles vai além do apenas posicionar câmeras e orientar o elenco principal. Ele gosta e gasta muito tempo preocupado com os mínimos detalhes. Detalhes esses que levam a múltiplas questões como as tratadas no Post 6: Sobre cocô, civilização e barbárie. É graças também a Meirelles que podemos aprender que filmar com mais de uma câmera não significa necessariamente preguiça ou dinheiro de sobra no orçamento, mas também criatividade e sensibilidade; que a preparação de atores é um processo muito mais complicado do que alguns poderiam imaginar (as oficinas para que todos agissem como cegos de olhos abertos incluíram os atores, figurantes e a equipe técnica); e que a observação é um trunfo para aqueles que querem seguir nessa área, vide os detalhes nos comportamentos de Ruffalo nas oficinas e de Bernal nos ensaios que lhe chamaram a atenção e ele aproveitou em cena.
Através desta recente ferramenta da Internet, nós humildes cinéfilos passamos a conhecer mais sobre técnicas, manias e idéias de um diretor. Coisas que alguns consideram um verdadeiro efeito broxante. Quando fiz um curso em uma Universidade Federal, ouvia alguns alunos colocarem que o apreendimento da técnica fazia perder o brilho e a magia da coisa. Pensava justamente o contrário. Achava fascinante o modo como cálculos e estratégias que pareciam oriundas de uma ciência exata se transformavam em tudo o que se via na tela. Hoje, depois de Diário de Blindness, entendi que o sentimento, a intuição, a emoção e o talento ainda prevalecem nesta área.
Para aqueles que não conhecem ainda Diário de Blindness, basta clicar aqui. O Cinema com Rapadura também acompanha as atualizações do blog e disponibiliza no portal as últimas notícias que surgem dos sets de filmagem.



Desde que Fábio Barreto conseguiu a façanha de ter um filme indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Quatrilho” (1995), a cada novo sucesso de nosso cinema, cogita-se quais as chances de finalmente um filme brasileiro ganhar o prêmio mais famoso do cinema mundial. Não que premiações internacionais sejam novidade para nós, Glauber Rocha, Anselmo Duarte, Hector Babenco (mezzo argentino mezzo brasileiro) e até mesmo Arnaldo Jabor já tiveram filmes premiados em importantes festivais como Cannes, mas o prêmio da Academia de Artes de Hollywood tornou-se uma verdadeira obsessão brasileira.


Alguns filmes trazem na sua essência um fechamento natural de história. De maneira tal, que não existe como fazer uma continuação desse longa. Ele é bem feito, produzido, finalizado e construído (com utilização de tempo necessário para contar a história), e não necessita de uma segunda parte. Na verdade, não existe como trazer uma segunda parte dele sem desmerecer a qualidade e o bom nome do primeiro. São exemplos disso os recentes (talvez não tão recentes) “Efeito Borboleta” e “Premonição”.
Hoje em dia muito se tem falado de uma suposta falta de criatividade em Hollywood. Isso é atribuído principalmente por causa dos inúmeros remakes produzidos - sejam de produções americanas, sejam de outros países -, das várias adaptações de quadrinhos para o cinema e da “importação” de cineastas estrangeiros para a indústria hollywoodiana. Mas será que isso é verdade mesmo? Será que os produtores americanos estão recorrendo a isso simplesmente pela falta de idéias novas? Vamos por partes.
Geralmente, se eu for ler um livro adaptado para o cinema, prefiro que seja antes de ver o filme, já que o livro normalmente vem antes do filme. Mas já aconteceu de eu ler o livro depois de ter visto o filme. Por exemplo, só li “O Cemitério”, de Stephen King, alguns anos depois de ter visto o filme “O Cemitério Maldito”, de Mary Lambert. E o que aconteceu é que o livro deixou o filme bem atrás. Stephen King tem o poder de fazer com que a gente acredite naquilo tudo. Enquanto se está lendo “O Cemitério”, acredita-se piamente que aquele cemitério indígena tem mesmo o poder de ressuscitar os mortos, nem que eles venham como zumbis e com seus corpos ainda em contínuo estado de putrefação.
