Rapadura Blog - O Blog do Portal Cinema com Rapadura

Sobre a Magia do Cinema e Meirelles

Publicado em: 19-11-2007 @ 5:09 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Igor Vieira

Quando recebi o e-mail do Jurandir Filho (o Juras), indicando o novo blog do Fernando Meirelles, sobre sua nova incursão no cinema mundial, não pude conter a curiosidade. Apesar do recurso já ter sido usado por outros diretores, e até mesmo por Meirelles na ocasião da produção de “O Jardineiro Fiel”, nunca havia lido nada que acompanhasse o dia-a-dia de um set de filmagens vindo da fonte direta e mais completa que é o cineasta.

Acompanhava cada nova notícia sobre a escolha do elenco, as locações (que acabou por contemplar Canadá, Uruguai e Brasil – que vontade de viver em São Paulo só para acompanhar um dia que fosse de gravação) e tudo o mais que a imprensa divulgava sobre o título provisório “Blindness – Ensaio Sobre a Cegueira”. Agora, seria diferente. Ficaria sabendo da boca ou dos toques do brasileiro indicado ao Oscar e que trabalharia com Julianne Moore, Mark Ruffalo e Gael García Bernal. Admirador do trabalho de Meirelles e do texto de Saramago que sou mesmo não tendo lido ainda o livro que deu origem ao filme, virei fã do diretor logo que li o primeiro post. A paixão com que o cara escreve é de deixar muito estudante de cinema babando. E pensar que tem um estagiário sortudo e, deixando de lado o recalque, provavelmente talentoso da ECA na equipe do filme.

Um dos melhores momentos da leitura do blog, que vez ou outra releio além de acompanhar as últimas novidades, continua sendo o Post 3: Sobre filmagem “al dente”, quando ele compara o trabalho com Moore e Ruffalo a cozinhar na mesma panela um ravióli e um fusili. O texto repleto de metáforas culinárias fala sobre os diferentes tempos dos atores. Aspectos do trabalho que só aprenderíamos no local ou de alguém realmente experiente.

Outro post marcante é aquele sobre carisma. Fernando Meirelles escreve sobre alguns nomes em seu elenco que transbordam dessa qualidade, caso da canadense Sandra Oh. Mas seus escritos vão além de suas impressões pessoais sobre este ou aquele ator. O autor descreve todo o processo que considera relevante em todas as etapas da criação de um filme. Desde o encontro com José Saramago para discutir o roteiro adaptado até os detalhes de edição. Para a sorte dos aficionados por cinema, o trabalho de Meirelles vai além do apenas posicionar câmeras e orientar o elenco principal. Ele gosta e gasta muito tempo preocupado com os mínimos detalhes. Detalhes esses que levam a múltiplas questões como as tratadas no Post 6: Sobre cocô, civilização e barbárie. É graças também a Meirelles que podemos aprender que filmar com mais de uma câmera não significa necessariamente preguiça ou dinheiro de sobra no orçamento, mas também criatividade e sensibilidade; que a preparação de atores é um processo muito mais complicado do que alguns poderiam imaginar (as oficinas para que todos agissem como cegos de olhos abertos incluíram os atores, figurantes e a equipe técnica); e que a observação é um trunfo para aqueles que querem seguir nessa área, vide os detalhes nos comportamentos de Ruffalo nas oficinas e de Bernal nos ensaios que lhe chamaram a atenção e ele aproveitou em cena.

Através desta recente ferramenta da Internet, nós humildes cinéfilos passamos a conhecer mais sobre técnicas, manias e idéias de um diretor. Coisas que alguns consideram um verdadeiro efeito broxante. Quando fiz um curso em uma Universidade Federal, ouvia alguns alunos colocarem que o apreendimento da técnica fazia perder o brilho e a magia da coisa. Pensava justamente o contrário. Achava fascinante o modo como cálculos e estratégias que pareciam oriundas de uma ciência exata se transformavam em tudo o que se via na tela. Hoje, depois de Diário de Blindness, entendi que o sentimento, a intuição, a emoção e o talento ainda prevalecem nesta área.

Para aqueles que não conhecem ainda Diário de Blindness, basta clicar aqui. O Cinema com Rapadura também acompanha as atualizações do blog e disponibiliza no portal as últimas notícias que surgem dos sets de filmagem.

RapaduraCast 50 - Desconstruindo o Gênero Pornô

Publicado em: 16-11-2007 @ 2:21 pm 
Postado em: RapaduraCast
Escrito por: Rapadura Team

ATENÇÃO: Esse programa não é recomendado para menores de 18 anos!
CENSURA: Linguagem chula, sexo, pornografia, vergonha pública

Eis o qüinquagésimo RapaduraCast. Quem diria que aquele primeiro programa meio sem nexo chegasse a tão magnânimo estado? A comemoração foi feita no RapaduraCast 49, quando os leitores praticamente fizeram o programa. Para a 50ª edição teremos um dos casts mais pedidos por e-mail e comentários: o pornô. Esse é quase um proibidão do mundo dos podcasts.

Jurandir Filho (Juras), Raphael Santos (PH) e Maurício Saldanha (Mau), deixaram a vergonha – e o juízo - em algum lugar muito escondido e fizeram um RapaduraCast inapropriado para menores de 18 anos, pessoas com problemas cardíacos e/ou que não agüentam emoções muito fortes. O trio praticamente desconstruiu o gênero pornô. Fomos de “o que é, de fato, um pornô” e chegamos a estranhas reflexões, como, por exemplo, filmar relações íntimas. Não está entendendo nada? Não está entendendo nada? Pois entenderá ao escutar esse programa.

A falta de vergonha foi grande? Foi, apesar do PH ficar tentando tomar o lado puritano da história e regular os outros integrantes! De certa forma, os rapaduras ainda conseguiram abordar de forma um tanto séria este polêmico assunto. Houve até uma briga entre os participantes. Armação? Não, eles brigaram mesmo e foi muito difícil fazê-los voltarem ao normal. Caso não aprecie o assunto, escutar os integrantes se engalfinhando já vale.

Duração: 85 min

SUGESTÕES, CRÍTICAS, DÚVIDAS E CHUTES NO SACO
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Fórmula para ganhar Oscar?

Publicado em: 14-11-2007 @ 6:44 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Desde que Fábio Barreto conseguiu a façanha de ter um filme indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Quatrilho” (1995), a cada novo sucesso de nosso cinema, cogita-se quais as chances de finalmente um filme brasileiro ganhar o prêmio mais famoso do cinema mundial. Não que premiações internacionais sejam novidade para nós, Glauber Rocha, Anselmo Duarte, Hector Babenco (mezzo argentino mezzo brasileiro) e até mesmo Arnaldo Jabor já tiveram filmes premiados em importantes festivais como Cannes, mas o prêmio da Academia de Artes de Hollywood tornou-se uma verdadeira obsessão brasileira.

Depois de “O Quatrilho” tivemos outros indicados: “O Que é isso Companheiro?”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” (que conseguiu indicações importantes em categorias técnicas, como edição). “Central do Brasil” ganhou o urso de ouro em Berlim, num dos mais importantes festivais do mundo, além do urso de prata para Fernanda Montenegro como melhor atriz. Outros filmes não chegaram a ganhar prêmios, mas foram bem recebidos pela crítica internacional, como “Ceú de Estrelas” de Tata Amaral, e “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Mesmo assim, todas as vezes que nossos filmes figuraram entre os cinco indicados a filme estrangeiro acabamos esbarrando em outras escolas cinematográficas, como Holanda (por duas vezes) e Itália.

Primeiramente precisamos admitir algo que pode ser doloroso para os cinéfilos mais nacionalistas: todas as vezes que perdemos o Oscar, perdemos para filmes melhores do que os nossos. A recusa em admitir isso levou a um certo ressentimento por parte de nossos cineastas, um complexo de inferioridade, e alguns filmes antes mesmo de estrearem são colocados como representantes oficiais do Brasil, porque teriam mais chances de enfim ganhar a estatueta. Filmes bem resolvidos tecnicamente, que procuram “fórmulas” que possam conquistar os membros da academia acabam se perdendo em suas narrativas, como foi o caso de “Olga”, que virou uma doce história de amor entre uma judia e um brasileiro interrompida pelo nazismo, uma tentativa de realizar uma “Lista de Schindler” � brasileira?

A categoria de melhor filme estrangeiro é justamente a categoria na qual fórmulas menos funcionam, enquanto categorias como melhor ator e atriz possuem favoritos � priori (aqueles que interpretam doentes terminais, homossexuais, pessoas com problemas mentais), o filme estrangeiro não possui nenhum tema ou conteúdo privilegiado. Se alguns anos temos verdadeiras barbadas, quando sucessos internacionais apenas se confirmam, como “O Tigre e o Dragão”, em outros temos grandes surpresas, vide quando o delicioso “O Destino de Amélie Poulain” perdeu mesmo sendo um sucesso consolidado internacionalmente. Este ano tivemos outra surpresa, o maravilhoso “O Labirinto do Fauno”, mesmo recebendo três prêmios técnicos, perdeu justamente na categoria que era considerado favorito absoluto.

Neste ano já tivemos uma surpresa no próprio representante brasileiro, a comissão do Ministério da Cultura contrariou as expectativas de muita gente e indicou “O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias”. Muitos preferiam o sucesso instantâneo “Tropa de Elite”, por suas inegáveis qualidades técnicas e por sua temática supostamente “social”. Sejamos sinceros mais uma vez: as tão aclamadas qualidades de “Tropa…” nos parecem tão grandes por se tratar de um filme nacional (mais uma vez nossos cinéfilos nacionalistas na área), qualquer filme de ação norte-americano como “Duro de Matar 4.0” ou “Transformers” possui as mesmas qualidades e mesmos truques pirotécnicos. Não que isso chegue a comprometer, é apenas um fato que deve ser reconhecido.

Já quanto ao “O Ano…”, me pareceu uma boa escolha. Trata-se de um filme que faz parte de uma onda recente de resgatar histórias da época do regime militar no Brasil, um tema sempre necessário, mas que acrescenta � sua história a maior paixão nacional, o futebol. Enquanto o menino Mauro espera pela volta de seus pais, militantes políticos que partiram para a clandestinidade dizendo que estavam saindo de férias, torce pela seleção brasileira de futebol na Copa do México. O clima político do Brasil nos anos de maior repressão do regime contrasta com a euforia provocada por Pelé & Cia, o que sugere uma reflexão sobre a luta política, o ufanismo provocado pelo futebol, e a alienação diante de uma ditadura no país.

A delicadeza com que o diretor Cao Hamburger conduz a história, aliada � s boas interpretações (principalmente do elenco infantil) são os grandes trunfos do filme. Se o filme tem chances de ganhar o Oscar? Essa é outra história, e francamente, ganhar prêmios é sempre bom, mas consolidar nosso cinema com linguagem e temática próprias é mais importante. A academia inclusive reconhece isso, por vezes o melhor filme estrangeiro vai justamente para escolas que alcançaram esse grau de maturidade, como China ou Itália. Essa é a grande contribuição de “O Ano…”, a partir de uma temática específica nossa faz um cinema que pode ser considerado universal, provando que nada substitui o valor de uma boa história bem contada, para isso não existem fórmulas mágicas.

Qual é a Cena? - Edição #07

Publicado em: 14-11-2007 @ 6:39 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Raphael Santos

Você pediu e nós voltamos. Depois de um tempo sumida, o “Qual é a Cena?” está de volta. Para comemorar tal retorno, resolvemos fazer uma homenagem à Pixar. Como o grau de dificuldade está bastante baixo, eu quero entrar em um acordo com vocês. Que tal além de descrever a cena, descrever um pouco o que acontece depois? Quero ver quem é bom nisso. Se habilita?

Você ainda não sabe o que é a seção? É simples. Colocaremos imagens marcantes e vocês terão que adivinhar qual é o nome do filme e descrever a cena. Porém, o leitor que MELHOR descrevê-la, terá seu comentário juntamente com seu nome e sua cidade inseridos aqui na matéria, logo abaixo da imagem correspondente ao filme. Seja bastante claro e objetivo nas suas palavras. Diga os nomes dos personagens para reforçar ainda mais a sua descrição. Vale lembrar que quem já acertar o nome do filme de primeira, já terá seu crédito fixo. Vamos aos filmes e suas cenas:

ATUALIZADO: Edição encerrada! Vocês estão cada vez piores. :(
19 de Novembro de 2007

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Nome do filme: Carros (Guilherme Diniz)
Descrição da cena: Luigi, fã de corridas toda a sua vida, fica empolgadíssimo ao ouvir o estrangeiro Relâmpago McQueen dizer que é um carro de corrida famoso. Sua empolgação logo acaba ao saber que McQueen não conhece nenhuma Ferrari. ”Luigi só gosta de Ferraris”. (Lincoln Péricles)
Dificuldade: 3/10

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Nome do filme: Vida de Inseto (Guilherme Diniz)
Descrição da cena: Hopper, líder de um bando de gafanhotos, vai buscar sua oferenda que as formigas sempre fazem por medo dos gafanhotos. Mas Flik, uma formiga que vive fazendo inventos para ajudar as formigas, acidentalmente joga um de seus inventos em cima das sementes dos gafanhotos, por estar desesperado, logo depois ele percebe o que fez e tenta impedir, porém já é tarde. Ele entra no formigueiro com se nada tivesse acontecido, até que pouco depois os gafanhotos perguntam onde está a comida e entram no formigueiro destruindo boa parte dele, depois eles vão embora dizendo que querem a comida em uma semana. Flik é expulso pelos outros até que ele propõe buscar ajuda para pegar as sementes mais rápido… (Rafael Moreira)
Dificuldade: 4/10

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Nome do filme: Toy Story (Guilherme Diniz)
Descrição da cena: Sid é um garoto que não gosta de brinquedos. Seu principal hobby é explodi-los ou mutilá-los. Quando Woody, o boneco cowboy protagonista vai parar na casa do garoto na companhia de Buzz Lightyear, o boneco astronauta, o seu plano é voltar pra casa, na companhia de seu dono Andy, que na verdade é na frente da casa do masoquista de brinquedos. Quando Sid cola um foguete nas costas de Buzz, na intenção de mandá-lo pro espaço e explodi-lo em seguida, Woody arma um mirabolante plano com os brinquedos do quarto do Sid para fazer com que ele veja a real razão para a que os brinquedos foram feitos: brincar, não destruir. Quebrando todas as regras de ficarem imóveis na presença de humanos, os brinquedos saem de diversos lugares, como a caixa de areia do quintal e ameaçam encurralar Sid, conseguindo amedrontá-lo. (Rodrigo Ferreira)
Dificuldade: 2/10

Manifesto Contra as Continuações Despropositadas!

Publicado em: 14-11-2007 @ 6:33 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Beatriz Diogo

Alguns filmes trazem na sua essência um fechamento natural de história. De maneira tal, que não existe como fazer uma continuação desse longa. Ele é bem feito, produzido, finalizado e construído (com utilização de tempo necessário para contar a história), e não necessita de uma segunda parte. Na verdade, não existe como trazer uma segunda parte dele sem desmerecer a qualidade e o bom nome do primeiro. São exemplos disso os recentes (talvez não tão recentes) “Efeito Borboleta” e “Premonição”.

Mas alguns “mercenários” da indústria cinematográfica insistem em ir de contrapartida a essa lógica e filmar novos episódios, usando do bom desempenho do antecessor para conseguir algum dinheiro de alguns espectadores que não percebem essa enrolação e ficam até mesmo felizes em saber que podem assistir um pouquinho mais daquilo que os satisfez algum tempo atrás.

O primeiro modo de reconhecer esses aspirantes a roubo de obra alheia é olhar os créditos: grande parte da equipe técnica do primeiro sequer entra no segundo (ou terceiro, ou quarto…), porque já sabe de antemão da bomba que está por vir, e visando manter a boa reputação e o respeito entre os profissionais, tira o nome de “projetos” como esse.

Basta de usar filmes que arranhem a imagem dos originais simplesmente por ganância! Basta de estúdios que não conseguem ter a mentalidade de que apoiar trabalhos como esse acabam por desacreditar o cinema para as pessoas! Basta de tentar obter sucesso em projetos que não merecem nosso respeito!

Somos terminantemente contra a banalização de bons enredos, somos contra as continuações despropositadas que ferem o fechamento de filmes que merecem um ponto final e não uma vírgula seguida de continuação!Alguns filmes trazem na sua essência um fechamento natural de história. De maneira tal, que não existe como fazer uma continuação desse filme. Ele é bem feito, produzido, finalizado e construído (com utilização de tempo de filme necessário para contar a história), e não necessita de uma segunda parte. Na verdade, não existe como trazer uma segunda parte dele sem desmerecer a qualidade e o bom nome do primeiro. São exemplos disso os recentes (talvez não tão recentes) “Efeito Borboleta” e “Premonição”.

Mas alguns “mercenários” da indústria cinematográfica insistem em ir de contrapartida a essa lógica e filmar novos episódios, usando do bom desempenho do antecessor para conseguir algum dinheiro de alguns espectadores que não percebem essa enrolação e ficam até mesmo felizes em saber que podem assistir um pouquinho mais daquilo que os satisfez algum tempo atrás.

O primeiro modo de reconhecer esses aspirantes a roubo de obra alheia é olhar os créditos: grande parte da equipe técnica do primeiro sequer entra no segundo (ou terceiro, ou quarto…), porque já sabe de antemão da bomba que está por vir, e visando manter a boa reputação e o respeito entre os profissionais, tira o nome de “projetos” como esse.

Basta de usar filmes que arranhem a imagem dos originais simplesmente por ganância! Basta de estúdios que não conseguem ter a mentalidade de que apoiar trabalhos como esse acabam por desacreditar o cinema para as pessoas! Basta de tentar obter sucesso em projetos que não merecem nosso respeito!

Somos terminantemente contra a banalização de bons enredos, somos contra as continuações despropositadas que ferem o fechamento final de filmes que merecem um ponto final e não uma vírgula seguida de continuação!

Falta de Idéias? Não é de hoje…

Publicado em: 14-11-2007 @ 1:18 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Muitas refilmagens, muitas adaptações de quadrinhos e muitos cineastas estrangeiros aportando em Hollywood. Seria isso um sinal de crise de criatividade na indústria cinematográfica americana?

Hoje em dia muito se tem falado de uma suposta falta de criatividade em Hollywood. Isso é atribuído principalmente por causa dos inúmeros remakes produzidos - sejam de produções americanas, sejam de outros países -, das várias adaptações de quadrinhos para o cinema e da “importação” de cineastas estrangeiros para a indústria hollywoodiana. Mas será que isso é verdade mesmo? Será que os produtores americanos estão recorrendo a isso simplesmente pela falta de idéias novas? Vamos por partes.

No que se refere s refilmagens, não é de hoje que isso se faz em Hollywood. Nos anos 50, o próprio Hitchcock chegou a fazer um remake de um filme seu da fase inglesa, “O Homem que Sabia Demais”. As versões mais conhecidas de “Ben-Hur” e “Os Dez Mandamentos” também são remakes, tentativas bem sucedidas de melhorarem o que já era bom. Acontece que ultimamente isso está sendo bem mais freqüente, principalmente no gênero horror. “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “Despertar dos Mortos”, “Assalto 13ª D.P.”, “13 Fantasmas”, “Museu de Cera”, todos já tiveram suas refilmagens recentemente. Para breve, vem aí remakes de “Quadrilha dos Sádicos”, de Wes Craven, e de “The Fog”, de John Carpenter. Nas próximas semanas, já estréiam no Brasil as refilmagens de “Guerra dos Mundos” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Além do mais, ainda está sendo cogitada uma refilmagem de “Os Pássaros”, de Hitchcock, uma heresia, ainda mais quando sabemos que quem está por trás disso é ninguém menos que Michael Bay, o horrível. Há também os remakes dos sucessos orientais, como “O Chamado”, “O Grito” e “The Eye”. Recentemente, já foi anuciado um remake do coreano “OldBoy”. Bom, pelo menos, a maioria desses remakes têm sido de alto nível.

Quanto s adaptações de quadrinhos para o cinema, elas são menos uma crise de idéias e mais a descoberta de uma mina de ouro para os executivos da indústria. E não devem parar tão cedo. Como o público jovem é responsável pela maior parte dos ingressos vendidos, temos que nos preparar para ver mais e mais super-heróis nas telas.

Quanto “importação” de diretores estrangeiros, não é de hoje que isso acontece na indústria. Basta lembrar que grandes diretores europeus como Fritz Lang, Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Alfred Hitchcock fizeram obras grandiosas nos EUA. Já na época do cinema mudo, o genial F.W. Murnau teve uma de suas obras-primas - “Aurora” - financiada pelos americanos. O subversivo Paul Verhoeven, antes de estrear nos EUA, já era um diretor consagrado na Holanda. Por mais que acusem os americanos de protecionismo, há tempos o país tem aberto as portas para muitos estrangeiros. Mesmo assim, é digna de nota essa nova abertura que se tem dado a vários cineastas estrangeiros. Eles vêm de várias partes do mundo: Japão (Hideo Nakata, Takashi Shimizu), França (Alexandre Aja, Florent Emilio Siri, Jean-François Richet), Brasil (Walter Salles), Espanha (Alejandro Amenábar, Jaume Balagueró), México (Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu), China (Ang Lee, Chen Kaige).

Mas será que esses fatores se constituem como provas da crise de idéias em Hollywood? Será que um país que tem o luxo de ter nomes como Clint Eastwood, Martin Scorsese, Woody Allen, Brian De Palma, George Romero, John Carpenter, David Lynch e Steven Spielberg, todos cineastas que continuam realizando vez ou outra obras-primas, será que dá pra acreditar em falta de criatividade? Isso sem mencionar outros nomes mais recentes, como os de Richard Linklater, Gus Van Sant, Quentin Tarantino e M. Night Shyamalan, diretores que têm contribuído para fazer de uma simples ida ao cinema uma experiência inesquecível. Não se trata de estar supervalorizando os americanos em detrimento dos filmes produzidos no Brasil ou em outros países, mas não tem como não ficar admirado com um time desses. E eles ainda têm a sorte de terem disposição um bom dinheiro para gastar.

Por isso eu acho que não. Não está havendo essa chamada falta de novas idéias. O que pode estar havendo é uma preferência pela reciclagem e uma injustiça com alguns grandes cineastas. David Lynch e Brian De Palma, por exemplo, só tem conseguido realizar seus filmes com a ajuda dos franceses. George Romero só voltou a fazer uma produção de orçamento mais gordo (”Land of the Dead”) por causa do sucesso dos zumbis do remake “Madrugada dos Mortos”. John Carpenter continua com dificuldade de financiamento para seus projetos. Francis Ford Coppola sempre fez melhores filmes com muito dinheiro e não tem conseguido fazer mais nada bom desde a falência de sua produtora, a Zoetrope. Histórias de falência e prejuízo também perseguem o sumido e talentoso Michael Cimino. Hollywood não perdoa quem dá prejuízo e por mais que o cinema americano tenha uma história gloriosa, há sempre também histórias vergonhosas, como o descaso que se teve com o gênio Orson Welles. Mas como vivemos num mundo capitalista, isso já era de se esperar.

Cinema e Literatura

Publicado em: 13-11-2007 @ 9:03 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Foram poucos os livros que li que foram adaptados para o cinema. Sei que comparar dois tipos de arte não é muito aconselhável, seria comparar bananas com maçãs, alguns diriam, mas é mais ou menos isso que eu me proponho a fazer agora. A comparação, no caso, levaria em consideração o meu grau de satisfação depois de ter lido o livro ou visto o filme.

Geralmente, se eu for ler um livro adaptado para o cinema, prefiro que seja antes de ver o filme, já que o livro normalmente vem antes do filme. Mas já aconteceu de eu ler o livro depois de ter visto o filme. Por exemplo, só li “O Cemitério”, de Stephen King, alguns anos depois de ter visto o filme “O Cemitério Maldito”, de Mary Lambert. E o que aconteceu é que o livro deixou o filme bem atrás. Stephen King tem o poder de fazer com que a gente acredite naquilo tudo. Enquanto se está lendo “O Cemitério”, acredita-se piamente que aquele cemitério indígena tem mesmo o poder de ressuscitar os mortos, nem que eles venham como zumbis e com seus corpos ainda em contínuo estado de putrefação.

“Ah”, alguém poderia dizer, “mas o filme nunca é melhor que o livro”. Eu diria que isso é possível sim. Alfred Hitchcock, por exemplo, nunca gostou de pegar livros importantes para adaptar. Ele jamais pegaria “Crime e Castigo”, do Dostoiévski, pra citar o exemplo que o próprio mestre deu. Ele preferia pegar obras menores e transformá-las em filmes maiores. O exemplo vivido por mim foi o de quando li “O Chefão”, de Mario Puzo. Apesar de ser um ótimo romance, comparado com “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, o livro perde muitos pontos. A força que Coppola imprime na saga dos Corleone é algo sem paralelos na história do cinema.

Alguns livros são tão grandes e importantes que sempre que alguém tenta fazer uma adaptação deles, acaba dando com os burros n’água ou, na melhor das hipóteses, realiza obras medíocres, como foi o caso de “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, adaptado de um dos maiores clássicos da literatura (”Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis). No Brasil, eu diria que um dos melhores exemplos de boa adaptação para as telas foi o caso de CARANDIRU, que Hector Babenco fez do bonito livro de Dráuzio Varela.

É bem interessante ver alguns filmes tendo lido o livro em que ele se baseia. Uma das primeiras vezes que tive essa experiência foi quando vi no cinema “A Insustentável Leveza do Ser”, de Philip Kaufman, poucos dias depois de ter terminado de ler o romance homônimo de Milan Kundera. O livro até hoje está entre os meus preferidos de todos os tempos e o filme soube captar bem o espírito do romance, apesar da dificuldade que se tinha de adaptar as reflexões filosóficas de Kundera para as telas. A vantagem do filme é que vemos, materializadas em nossa frente, as personagens de Tereza e Sabina, que aparecem nuas no filme e na pele de duas atrizes excepcionais. O livro tinha alguns momentos bem quentes em se tratando de erotismo, mas o filme é mais explícito. Pode-se dizer que é um filme erótico. Até hoje me lembro de um texto de Eugenio Bucci, que saiu numa antiga edição da Revista SET, em que o crítico falava poeticamente dos pentelhos da personagem de Juliete Binoche. Acreditem, ficou muito bonito e nada vulgar.

Mais recentemente, pude ver a trilogia “O Senhor dos Anéis”, magnificamente dirigida por Peter Jackson, depois de ter lido os três livros de J.R.R. Tolkien. Eu diria que esse é o caso de filme que fica melhor pra quem leu os livros. Quem leu os livros e viu a bela adaptação - chegando perfeição no último filme, em se tratando de fidelidade ao texto original - deve curtir muito mais o filme. Enquanto isso, eu conheço gente que odeia a trilogia e não quer mais ouvir falar de hobbits de jeito nenhum. Coincidência ou não, essas pessoas nunca leram os livros.

Talvez seja o mesmo caso de quem leu “Duna”, de Frank Herbert. Eu, que nunca li o livro, acho o filme de David Lynch um erro em sua carreira. Sem DUNA, eu diria que a filmografia de Lynch seria irretocável, perfeita. Por outro lado, já conheço gente que leu o livro de Herbert e considera o filme de Lynch o melhor de sua carreira, mesmo com todos os problemas de cortes, edição e ritmo irregular. Existe até uma versão estendida do filme, que saiu recentemente em DVD, mas eu até agora não tive coragem de pegar pra ver. Vai que o filme melhora, fica mais palatável e compreensível…

Lembrei agora de “O Exorcista”. Li o livro de William Peter Blatty no início da minha adolescência. Na época, esse livro era visto como maldito e acredito que eu era muito novo para ler esse livro. Se bem que isso não me afetou muito não. O que mais me impressionou no livro - e que não tem no filme - foram as descrições das hóstias fabricadas para a missa negra. Mas faz muito tempo que li esse romance e fica difícil de lembrar de outros detalhes. Esse é talvez o caso de filme que ultrapassa a força do livro. “O Exorcista” de William Friedkin não é um filme de sustos, mas de mal estar, de clima pesado. Tanto que ele é um dos filmes que mais tem uma mitologia de maldição ao seu redor. Mas deve perder nesse quesito para “Incubus”, de Leslie Stevens.

Teria mais alguns para comentar, como “A Grande Arte” e “O Nome da Rosa”, por exemplo, mas esse texto já está ficando bem grande. Pra terminar: no ano passado li “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, e não gostei do livro. Não achei engraçado o senso de humor do autor e achei a história bem boba. Pode ser que o filme seja melhor, mas ontem mesmo um amigo que mora no Canadá falou que viu várias vezes o trailer do filme e achou insuportável. A seu favor: a) a obra serviu de referência para a obra-prima Ok, Computer, disco de 1997 do Radiohead; e b) a direção do filme é de Garth Jennings, que no currículo tem o interessante videoclipe “Imitation of Life”, do R.E.M.

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