Em tempos de “O Cavaleiro das Trevas”, ouvimos que tudo nele é bacana. Tudo presta. Até de Oscar para Christian Bale eu já ouvi falar. Contudo, dentre uma das coisas que ele me fez refletir, foi sobre a idéia implícita do “ser vilão”. Ser vilão de cinema é legal. Podemos fazer o que queremos e ainda assim somos os mais bacanas da história. Ou será que só eu gosto mais do Coringa que do Batman?
Daí, me fez pensar o quanto o papel do vilão é fundamental. O quanto ele é quem faz os grandes questionamentos, as grandes reflexões. Mas ao mesmo tempo me fez pensar o que realmente faz o vilão ser o vilão. É simplesmente ser contra o mocinho, ou será que é porque ele não mede esforços para conquistar seus IDEAIS, mesmo que contrarie a monotonia das regras da sociedade? Até onde vai a idéia e essência do que é o vilão?
Essa idéia vem lá de longe. Lá em “2001: Uma Odisséia no Espaço” vemos o robô Hall 9000 tentar acabar com a missão Júpiter e dar cabo dos astronautas. Podemos pensar: “Ele é o vilão, poxa! Ele quer acabar com todo mundo!”, mas não é bem assim. As coisas não são tão simples como parecem. Podemos observar uma série de aspectos: Teria Hall inveja dos humanos, e por isso tentou acabar com eles por ficarem com o título de toda a missão que dependia de seu comando, ou ele sabia o que esperava por todos quando chegassem ao seu destino? (Leia-se: a passagem para outra dimensão ou até para o desconhecido). E mesmo que fosse a primeira opção (e mais crível), a culpa seria dele? Por que se tentaram igualá-lo com humanos, não imaginaram o quanto seria psicologicamente inviável para uma única pessoa coordenar tudo aquilo?
Outro perfeito exemplo da dualidade dos perfis de heróis e vilões é a personagem Hayley interpretada por Ellen Page no filme “Menina Má.com”. O tempo todo a consideramos como vilã. Ela dopa o cara, o sufoca, dá choques e faz uma tortura psicológica que todo homem temeria. Mas é levada em conta a questão do abuso de menores e que ele, o nosso injustiçado, poderia (e esteve) envolvido. O jogo muda completamente. Ela era a insana e malvada, mas o que faz com que ela se diferencie dele? Será que Hayley não estaria fazendo um bem enorme a humanidade em geral, exterminando-o?
E num exemplo mais ordinário, porém mais popular, está o Jigsaw da série (ladeira abaixo) “Jogos Mortais”. Ele faz as pessoas até comerem umas as outras, arquiteta as mais absurdas carnificinas, mas no final das contas, revela-se “nobre” onde mostra que, no fundo no fundo, quer ajudar àquelas pessoas as quais está deixando loucas. E como citei no início, tem o Coringa, que testa a todos o tempo inteiro, mas ele só é uma resposta a esse sistema agressivo. Ele, apesar de usar uma “máscara”, quer desmascarar as pessoas para elas mesmas, e aí reincide a genialidade.
Perdoem-me os spoilers, mas tudo isso foi para materializar uma idéia que vem fermentando há algum tempo em minha mente. E talvez na mente de alguns de vocês. Não me entendam mal: eu não quero Coringas, nem Hayleys, nem Halls (?) por aí. Só acho legal percebermos que esse jogo de idéias que é o cinema, só que nos mostrar que, clichês a parte, essa caracterização dúbia só é utilizada, talvez, para causar os questionamentos em nós mesmos. E que sempre (ou quase sempre) são proveitosos; psicologicamente falando, ou cinematograficamente falando. Só nos cabe usá-los da maneira correta.

Existem determinados filmes cujo conteúdo é obscuro demais para nossa compreensão. Películas que, em um primeiro momento, são difíceis de entender. Longas que, depois de assistir, você tem vontade de dizer: “Não entendi porcaria nenhuma dessa besteira de filme”. E garanto que eu já disse isso várias vezes. Por exemplo, quando eu vi pela primeira vez “Clube da Luta”. Não tinha maturidade o suficiente para assimilar a mensagem do filme e, por isso, eu saía reclamando para os quatro cantos: “Ôh filmezinho vagabundo!”. Tempos depois, após inúmeras experiências de vida, eu consegui entendê-lo. 


