Teve um célebre diretor que chegou a dizer que ator era como gado. Mas por mais que não se dê a devida importância a eles, quando um deles morre no meio das filmagens, o diretor fica sem saber o que fazer e o filme fica seriamente prejudicado.
Lendo ontem uma entrevista de Leo McCarey publicada no livro “Afinal, Quem Faz os Filmes”, de Peter Bogdanovich, soube de um interessante fato ocorrido durante as filmagens de “Não Desonres o Teu Sangue” (1952). No meio das filmagens, o ator Robert Walker faleceu. Leo McCarey ficou sem saber o que fazer e teve uma solução inteligente para finalizar o seu filme. Ele modificou o roteiro, fazendo com que o personagem de Walker morresse e procurou alguma cena retirada de outro filme que mostrava Walker morrendo. Ele conversou com Alfred Hitchcock, que havia trabalhado com o ator em “Pacto Sinistro” (1951) e aproveitou uma cena do filme de Hitch que mostra ele morrendo - fingindo que estava morrendo, claro. Depois, fizeram uma trucagem para mudar o fundo, desenvolveram uma situação em que o personagem morre num acidente de táxi e o próprio McCarey gravou as últimas palavras do personagem com uma voz quase inaudível. Nunca vi esse filme, que parece não ser o melhor do diretor, mas confesso que fiquei curioso para assistir.
Uma das maiores tragédias da história do cinema aconteceu durante as filmagens de “No Limite da Realidade” (1983). Apesar de possuir suas qualidades, infelizmente, o filme ficou mais famoso pelo terrível acidente ocorrido durante as gravações do segmento de John Landis, quando Vic Morrow (justamente o protagonista!) morreu num acidente com um helicóptero, juntamente com mais duas crianças. A hélice do helicóptero cortou fora a cabeça de Morrow. Isso prejudicou bastante a carreira do diretor, que vinha de um grande sucesso, “Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Landis teve que testemunhar várias vezes no tribunal, sendo acusado de negligência. É um caso bastante delicado que já deu muito o que falar.
Alguns casos de atores que morrem acabam virando motivo de piada. É o que aconteceu quando o então decadente Bela Lugosi faleceu durante as filmagens de “Plan 9 from Outer Space” (1959), de Ed Wood. Hoje o filme é conhecido como o pior filme de todos os tempos e Wood é considerado o pior dos diretores. Quem assistiu “Ed Wood” (1994), de Tim Burton, sabe qual foi a solução encontrada pelo cineasta para o problema da morte de Lugosi. Ele simplesmente colocou um dublê que ficava o resto do filme inteiro com o braço cobrindo o rosto. Não deixa de ser muito engraçado.
Saindo um pouco do cinema e entrando na televisão, aqui no Brasil, tivemos o caso da morte de Jardel Filho, durante as filmagens da novela “Sol de Verão” (1982), de Manoel Carlos. Na época, eu só tinha dez anos, mas fiquei bastante impressionado com o caso. Há cerca de três meses, assisti uma entrevista de Manoel Carlos no programa Conexão Roberto D’Ávila. Na entrevista, o escritor contou do impacto da morte do ator e do quanto isso significou pra ele o fim definitivo da novela. Manoel Carlos se demitiu da função de escritor e um outro assumiu o seu lugar, não conseguindo manter a novela no ar durante muito tempo e tendo que encerrar antes da época prevista.
Voltando para o cinema, um dos casos mais misteriosos é o da morte de Brandon Lee, filho de Bruce Lee, que recebeu um tiro de uma arma de verdade durante as filmagens de “O Corvo” (1994), de Alex Proyas. Até hoje a morte do jovem ator constitui um mistério e algumas pessoas até atribuem a uma espécie de maldição. Os negativos com a morte de Brandon Lee foram destruídos. Algo semelhante aconteceu com o seu pai, que faleceu durante as filmagens de “O Jogo da Morte” (1978). Os produtores usaram de picaretagem e conseguiram terminar o filme usando um dublê que aparecia sem mostrar o rosto. Usaram também uma filmagem real do funeral de Bruce. No entanto, a estória do filme foi totalmente prejudicada e o filme é extremamente confuso.
Um outro caso morbidamente curioso diz respeito ao filme “Tubarão” (1969), de Samuel Fuller. Conta-se que durante as filmagens, um dos dublês morreu de verdade de um ataque de tubarão. Obviamente, Fuller fez questão de retirar do filme essa cena. Até porque o sujeito que morreu era parceiro de copo de Fuller. No entanto, os produtores, contra a sua vontade, resolveram colocar a cena da morte do dublê no filme. Fuller ficou indignado e abandonou a produção, deixando por conta de outros montadores, que picotaram o filme e colocaram a tal cena.
Devo ter esquecido algum caso importante, mas acho que lembrei dos exemplos mais conhecidos de atores (ou dublês, no caso do filme de Fuller) mortos em cena. Desculpem o tema mórbido e que eles descansem em paz.