
Quem nunca olhou para a capa de um DVD na locadora ou para um cartaz exposto nas salas de projeção e pensou: “nossa, esse filme deve ser bom”. Ou pior ainda: “esse filme deve ser muito chato”? Independente da sua reação ao olhar a imagem que anuncia o conteúdo de um filme, sempre existem os que chamam mais nossa atenção. Sabendo ou não da história, o design do cartaz juntamente com os nomes que assinam cada filme tornam-se atrativos (ou não) para uns e outros.
Cheio de cores, situações ou momentos importantes que prevêem a história, esperamos que no cartaz de divulgação do filme esteja a maioria dos elementos possíveis para despertar o interesse das pessoas em locar ou comprar um ticket e vê-lo no cinema. É bem verdade que a modernização e os recursos gráficos estão desenvolvendo cada vez mais variados e bons pôsteres. O que é verdade também é que algumas vezes os investimentos no filme são tão poucos que nem no material de divulgação investe-se, desvalorizando a produção e afastando-a do espectador. De qualquer forma, analisar se um pôster chama ou não a atenção é o mesmo que discutir se um filme é bom ou não. É engraçada essa divergência entre gostos que a indústria cinematográfica provoca. Até em um simples pôster ou em uma simples caixinha de DVD pode aguçar em qualquer pessoa a adoração ou o repúdio, quanto mais um filme.
No caso das locadoras, perdi as contas de quem já me disse que a capa dos filmes é que decidem se irão ser locados ou não. Um raciocínio lógico. Quem se dirige até uma locadora sem um filme em específico para alugar, gasta minutos e minutos analisando todos os cantos das estantes até achar “o” filme que tenha despertado alguma sensação dentro de si. Seja pelo elenco, seja pelos elementos gráficos, ou pelo próprio nome do filme, algo sempre interessa. Agora, será mesmo que este filme que parece ser tão bom realmente o é? Ou seria melhor então alugar um com uma capa mais modesta, mas que promete uma história boa? Cada qual tem seus critérios para escolher, mas nem sempre obtém sucesso. Já cansei de contar as vezes que eu pensei que um filme seria bom pela capa, mas até a sinopse que se encontrava na parte de trás da caixa do DVD me enganou.

E no cinema? Algumas vezes vemos cartazes tão bem elaborados, expressivos e com frases de efeito (principalmente nos filmes de terror e suspense) que fazem com que esperemos a data de estréia, nos deixando com uma expectativa positiva, mas que nem sempre é correspondida. Do mesmo jeito que filmes com cartazes mais simples podem nem chamar tanto a atenção, mas são filmões. E sabemos que isso acontece mesmo. Outro caso onde isso acontece são com os ditos banais filmes B, aqueles que ou são independentes ou não têm o investimento suficiente para ser distribuído em circuito aberto e vão direto para as prateleiras das locadoras, muitas vezes passando despercebidos.
A Vida de David Gale
Vou começar a exemplificar com o fenomenal “A Vida de David Gale” (2003). Com uma capa normal, mostrando os personagens principais da trama, Kevin Spacey como David Gale, um professor universitário que luta contra a pena de morte juntamente com Kate Winslet na pele de Elizabeth Bloom, uma jornalista que passa a investigar a vida de Gale quando este é condenado à pena de morte e descobre fatos que podem mudar a história do sistema judicial americano. Com uma temática forte, talvez seja um dos motivos que tenha vindo direto para DVD. Mas voltando à questão da capa do DVD, talvez não atraia tanto os olhos curiosos dos locadoramaníacos por não ter nenhum elemento atraente e por fazer com que nos questionemos: “por que eu deveria saber a vida deste homem?”. Se fosse comigo, eu alugaria imediatamente, pois sou muito curioso, mas nem todos têm essa curiosidade a ser saciada. A imagem com mistura dos rostos de Spacey e Winslet designam exatamente este mistério da história e não dão uma prévia para o quanto o roteiro é denso e ímpar. Chocante e pretensioso, o longa conecta o espectador a um mundo totalmente regido por soluções rápidas e põe em questionamento a sentença à pena de morte, sendo um bom objeto de estudo acadêmico e para a auto-reflexão.
As Virgens Suicidas
Outro filme que segue a mesma linha de uma capa não muito convidativa é a estréia de Sofia Coppola na direção, em “As Virgens Suicidas” (2000). Sem apelar para uma imagem dramática para que entrasse em harmonia com o titulo, o pôster é simples e acima de tudo sensível, não transparecendo abordar um tema sobre suicídio de adolescentes. A partir do momento que você se permite assisti-lo, é possível interpretar tal delicadeza que entra em sintonia com a pureza da virgindade e da juventude, tornando-se tão sensível quanto a forma como o assunto foi abordado. O público nunca terá a certeza porque aquelas moças da família Lisbon que viveram na década de 70 em Michigan encontraram no suicídio a saída para seus problemas. “As Virgens Suicidas” dá margem para várias leituras por estudar psicologicamente as personagens e focar nas relações familiares de uma época rígida e solitária. Sofia Coppola surpreende pela maturidade e ao mesmo tempo pela leveza da sua direção. Orientada pelo seu pai, Francis Ford Coppola, que assumiu a produção do longa, ela adaptou o roteiro como uma veterana e sabia muito bem o que extrair de cada personagem, exaltando Kirsten Dunst, na pele de Lux Lisbon, um dos seus personagens mais soltos onde foi notável sua capacidade dramática e ficou comprovado seu talento.
O Iluminado
O que falar do clássico “O Iluminado” (1980) de Stanley Kubrik? A capa com o rosto psicopata de Jack Torrance, personagem de Jack Nicholson, não provoca muitas reações para quem o vê dando bobeira entre outros DVDs. A priore, nem parece que o filme se trata de um thriller de terror e suspense e a expressão de Nicholson não é nada atraente. Certamente estaria em um dos últimos lugares dos filmes que muita gente alugaria. O que só sabe-se depois que vemos o filme é que a imagem que ilustra o DVD é uma das partes mais significativas de toda a película e que transmite toda a personalidade alterada do protagonista. Além disso, podemos ter uma visão entre um verdadeiro clássico de terror e as atuais produções do mesmo gênero que são apelativas e indelicadas, clamando para a tosquice e o exagero. Em “O Iluminado”, Kubrik escolheu a obra certa para adaptar para as telonas e mostrar que não é preciso ser apelativo para assustar ou deixar o espectador angustiado e tenso. Uma verdadeira mostra de como o fazer terror devia continuar sendo produzido, ao invés de cair na mesmice da modernidade, mostrando-se cada vez mais filmes fracos e descartáveis.
Mulheres Perfeitas
Agora vamos trocar os papéis e exemplificar alguns filmes cujos pôsteres são interessantes mas que desapontam depois que assistimos. Começo com a beleza estonteante de uma das atrizes mais talentosas de Hollywood, Nicole Kidman, na comédia “Mulheres Perfeitas” (2004). Vou logo salientar que não estou dizendo que não gosto dos filmes, mas sim que prefiro o cartaz ao filme, é diferente. E é o que acontece no filme do diretor Frank Oz. A refilmagem de “As Esposas de Stepford” (1975) não foi um grande acerto na carreira da atriz, que talvez tenha sido escalada somente para fazer jus ao título da trama. Concordam que é bem melhor admirar o pôster do que assistir às quase duas horas de projeção. A má recepção foi tanta, que Kidman teve que abandonar as gravações de A Intérprete para regravar o final de Mulheres Perfeitas, pois nas exibições-teste que foram feitas antes de estrear, o longa não foi nada bem. E nem a mudança do desfecho minimizou o seu fracasso. A história é tão dispensável e vaga que parece que o filme não chega a lugar nenhum e não acaba nunca. Claro, dá para tirar várias discussões sobre a sociedade atual e as relações entre as pessoas dentro dela, mas é só.
O Amigo Oculto
“O Amigo Oculto” (2005) é o estilo de filme que o título dá margem para brincar a vontade no design do pôster. Mas não, não foi o escolhido. Simples, porém denso, o cartaz que ficou exposto nos cinemas usou cores fortes e propositais para causar uma grande curiosidade, sendo um prato cheio para os fãs de suspense e terror. Já a capa do DVD brasileiro, que é diferente, é também menos atraente, mas ainda deixa o gostinho de curiosidade no ar. Mas a temática, ah, a temática! Bem no ritmo dos bons “O Sexto Sentido” e “Os Outros”, “O Amigo Oculto” infelizmente não tem tanto efeito quanto deveria ter. A história de David Callaway, personagem de Robert de Niro, e sua filha Emily, interpretada pela fabulosa Dakota Fanning, até tenta envolver a platéia, mas o roteiro não é passa segurança e não convence. Nem todo o burburinho que a Fox causou, dizendo que o final seria um estouro, inclusive distribuindo os rolos com as cenas finais só na estréia para que não vazasse, não adiantou. Talvez tenha até sido por esta enorme expectativa que o filme tenha sido um fracasso. Digo fracasso na frente de outros do gênero e por não trazer à tona nada novo na indústria cinematográfica, sendo classificado como mais um dentro de muitos. O público está cada vez mais inteligente e exigindo que sua inteligência seja preservada principalmente quando vêem um filme com finais que pretendem chocar, mas que fazem, no máximo, soar como “eu já sabia que ia ser assim”, valendo a pena mesmo pelo elenco. Somente.
Orgulho e Preconceito
Suave, melancólico e expressivo, “Orgulho e Preconceito” (2005) traz a jovem indicada ao Oscar Keira Knightley no papel de Elizabeth, um das cinco irmãs da família Bennet que viviam em uma época cujo costume era arranjar casamentos que garantissem o futuro das moças. É quando Elizabeth conhece o arrogante e misterioso Sr. Marcy, interpretado por Matthew Macfadyen, e começam a ter uma relação de amor e ódio. Ok, um romance onde não inova em nada. E permanece sem inovar. A história do casal é tão arrastada que por vários momentos duvidamos se existe sentimento entre eles. Mas mesmo assim, o filme não é um fracasso por completo. O figurino e trilha sonora são impecáveis, se sobressaindo mais do que o enredo onde gira. Apesar das nominações em prêmios como o Bafka, Oscar e Globo de Ouro, “Orgulho e Preconceito” agrada mais pelo pôster, que, mostrando a sensibilidade de seus personagens, torna-se melhor do que o enredo da projeção.
E outros muitos exemplos poderiam ser postos aqui. O que vale lembrar é que tudo isso é uma questão de gosto. Não somente em relação ao filme, mas à estética de seus cartazes. Algumas vezes somos enganados sim, por uma capa de DVD bonitinha, mas com uma história desagradável, ou vice versa. Mas melhor do que se estressar com tais divergências, não podemos esquecer que existem filmes que agradam tanto na estética do seu material de divulgação, quanto na película que assistimos, conquistando legiões de admiradores. E são deles que nos lembramos sempre, sugerimos a amigos e endeusamos. Pena que nem todos podem ser assim, afinal, não se pode ter filmes bons todas � s sextas-feiras.
