Avaliação: 9

Não é de hoje que se proclama o fim da criatividade em Hollywood. Mas a constante prática de continuações, remakes, reboots e spin-offs que dominam a indústria cinematográfica recente tem colocado em xeque o cinema norte-americano. Raros são os remakes que acrescentam algo ao original, escassos são os reboots e spin-offs que fazem sentido e poucas são as continuações que merecem algum respeito.

Quando se fala em continuações temporãs – aquelas que demoram anos e mais anos para acontecer -, o negócio fica ainda pior. Na maioria das vezes, o público não lembra mais das personagens e da trama, e o filme ficou esquecido no passado, tendo sido atropelado na memória pela quantidade de novas produções assistidas. O resultado são longas perdidos em boas intenções ou que simplesmente beiram o ridículo, muitas vezes meros pastiches do próprio original (“Instinto Selvagem 2” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” seguem essa linha).

Mas, vez ou outra, Hollywood prova que ainda sabe fazer cinema e ser original, ainda que essa originalidade parta de um produto já existente. “Toy Story 3” é um exemplo. Mesmo passando longe da genialidade narrativa de um “Wall-E” ou da maturidade estética de “Up – Altas Aventuras” ou “Procurando Nemo”, o filme é uma obra-prima que mostra que, a cada novo filme, a Pixar se supera como um dos estúdios mais criativos da atualidade.

Dez anos depois de “Toy Story 2”, a Pixar nos presenteia com um novo capítulo da série com uma história coerente, uma narrativa acelerada e um universo que continua vivo na memória. Seja pelo acerto das vozes que dão vida à animação (Tom Hanks, Tim Alley e Joan Cusack voltam cheios de ânimo); pela bela caracterização dos personagens, todos com características próprias e cheias de humanidade; ou mesmo pela trama amarrada e empolgante, “Toy Story 3” é uma obra-prima.

O primeiro acerto é  respeitar a passagem do tempo entre um filme e outro. Agora, Andy, o dono do caubói Woody (Hanks), do vigilante das galáxias Buzz (Alley) e de todos os outros brinquedos, já não é mais criança e está de malas prontas para ir à universidade. Antes presentes na vida de Andy, hoje, os brinquedos vivem dentro de um baú e enfrentam o dilema de terem sido esquecidos. A dúvida é: qual a melhor opção? Serem jogados no lixo, se mudarem para  o sótão ou ganharem uma nova chance ao alegrarem crianças em uma creche?

A partir dessa premissa simples, o diretor Lee Unkrich nos leva a uma jornada cheia de aventura que divertirá crianças e emocionará adultos. A fórmula nem é tão complicada. A história é contada de maneira simples. A natureza dos personagens é respeitada. E, acima de tudo, o filme não é pensado como um produto, ainda que derive brinquedos, lancheiras, games e tudo mais.

O maior mérito do filme, na verdade, é usar a história como pano de fundo para uma trama que, seguindo a mesma lógica dos anteriores, fala de amizade. Woody e seus amigos enfrentam a solidão, o lixão e um urso de pelúcia cor de rosa e malvado sempre juntos e em prol do bem de todos. Claro que as lições de moral se fazem presentes, mas de um modo que não atrapalhe o ritmo da trama, nem irrite os espectadores menos politicamente corretos.

Entre perseguições e fugas típicas de um filme de prisão, “Toy Story 3” é sobre o poder da amizade. No caso desse terceiro capítulo, como ela pode resistir ao passar do tempo e sobreviver às mudanças que, eventualmente, estamos sujeitos ao longo da vida. Pode até soar um pouco triste, mas o diretor sabe mesclar como poucos os dois lados da história.

O resultado não poderia ser melhor. Entre risos e lágrimas, o espectador se encanta mais uma vez por um universo lúdico e colorido que, quando chega ao fim, deixa saudade. Sem ser apelativo, “Toy Story 3” é um mergulho nostálgico que deixa um gosto de quero mais. E em plena época de overdose de continuações ruins e que não dizem nada, isso já é um fato e tanto.