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Procurando Nemo
(Finding Nemo, 2003)

Data: 15 de Dezembro de 2006

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Por: Diego Benevides

Com um capricho impagável, "Procurando Nemo" consolida a competência gráfica dos estúdios da Pixar, que vencem o desafio de criar um cenário impecável que chama mais a atenção do que a própria trama em si, que tem suas pouquíssimas falhas, mas não deixa de ser uma das melhores animações do cenário cinematográfico atual.

A história se divide em vários momentos cuidadosamente desenrolados para que o público possa entender um pouco da vida submarina. De início, vemos os peixes-palhaço Marlin e Coral se mudando para sua nova "casa", uma enorme anêmona onde pode-se ter uma vista belíssima de todo o mar. O que o casal de peixinhos mal esperava era que a vida feliz que eles estavam esperando seria horrendamente abalada por um tubarão, que acaba atacando Coral e seus muitos ovos que estavam escondidinhos esperando a hora certa para que seus filhos nascessem. Sozinho, Marlin percebe que só sobrou um ovo e decidiu protegê-lo pelo resto da vida. Tempos depois, nasce o pequeno Nemo. Um peixinho aventureiro que possui uma nadadeira danificada, mas que tem coragem de sobra para conhecer o mundo afora. Sempre super-protetor, Marlin hesita em permitir que Nemo comece a estudar, mas mesmo assim o pequenino insiste. É no primeiro dia de aula que Nemo é capturado por um nadador que o coloca em um aquário em Sidney e a partir daí seu pai começa uma incessante procura que o trará novos amigos, inclusive a engraçadíssima Dory, muitas aventuras e o forçará a perder seus medos em nome do amor que sente pelo filho.

Depois do investimento e sucesso de "Toy Story" e "Monstros S.A.", a Pixar realmente solidifica-se no mundo da animação gráfica e isso não se deve só à parceria com a Disney não. Claro que isso é fundamental para que haja um compromisso maior e grandes investimentos na produção que tragam um resultado impecável, mas a competência de um bom roteiro também é o que sustenta o produto final. Não basta ter nas mãos uma equipe técnica competente se a história não permite uma série de investimentos gráficos a serem trabalhados. Talvez a relação computação gráfica e roteiro tenha se encaixado perfeitamente, mas cada um tem suas particularidades, onde, principalmente, a primeira se sobressai, dando um visual impecável ao longa. São impressionantes os gráficos recriados para a vida submarina onde a história se passa. É possível perceber que o minimalismo das imagens e a delicadeza com que cada quadro foi construído, culminando em imagens perfeitamente reais e praticamente palpáveis, com destaque principalmente ao movimento da água, uma das maiores aventuras que a computação gráfica tem enfrentado até hoje. Nem em produções diferentes das animações, a reprodução da água consegue ser convincente. Sua peculiaridade ainda precisa ser explorada pela técnica dos efeitos especiais para que se torne realista, mas em "Procurando Nemo" podemos praticamente sentir o ambiente em que os peixinhos estão vivendo as aventuras.

Além disso, a preocupação em investir nas colorações que vão se alterando de acordo com o andamento da história e sofrem desníveis de um cenário para outro é perfeitamente pensada e digna de elogios. No começo da história você vê um mundo pacífico e colorido, e, com o desenrolar da trama, onde vários perigos acontecem, podemos perceber a alteração na construção do cenário, buscando enquadrar os momentos e dar intensidade a eles. Isso é perfeitamente identificável, por exemplo, no local onde vivem os tubarões vegetarianos (!). Mesmo com o lema de que "peixes são amigos e não comida", há uma preocupação em dar um tom dark a seu recinto, e podemos ver bombas e uma iluminação quase inexistente, caracterizando que eles, por mais bonzinhos que aparentam ser, continuam com um toque 'de vilão'. Vilão ou mocinho, outro fato completamente indiscutível é o carisma dos personagens. Claro, me refiro àqueles que têm algum referencial do que meras participações na trama. É impressionante como cada um tem sua particularidade e ganha a simpatia do público, com destaque especial para a desmemoriada Dory. Definitivamente o filme é dela e seus momentos são os que mais rendem situações boas e inesquecíveis. Quem assiste nunca mais esquece do baleiês ou da musiquinha "continue a nadar". Além dela, as tartarugas radicais e os amiguinhos de Nemo no aquário são cativantes e neste aspecto o filme não falha, pois isso não somente aproxima as crianças, mas também os adultos e não exclui ninguém da audiência. E, por incrível que pareça, até Darla, a peste que ganharia Nemo de presente é bastante cômica, auxiliada pela homenagem sonora feita à "Psicose" de Hitchcock, o que a caracteriza como uma verdadeira vilãzinha.

O roteiro constrói uma narrativa extremamente baseada em road movies, mas falha ao tentar mesclar as histórias paralelas que apresenta. Em vários momentos, as cenas intercaladas da procura de Marlin pelo seu filho e da tentativa de Nemo fugir do aquário vão desgastando o andamento do filme, que parece ser mais longo do que já é, enquadrando-o em uma narrativa inconstante com inúmeros e inquietantes erros sequenciais que até os olhos menos apurados conseguem enxergar (e podem ser conferidos clicando aqui). Mesmo assim, a forma como as diferenças entre os personagens são tratadas, inclusive investindo em temáticas simbólicas, como o relacionamento de Marlin com Nemo, reflexo de muitas relações entre pais e filhos e outras abordagens interessantes. Acompanhado sempre de uma trilha sonora realmente aquática e realista, o roteiro vai se desenrolando e passando por algumas pedras que não são suficientes para tirar a mágica do filme, mas que poderia ser melhor desenvolvido. A liberdade em criar um mundo fiel e sem falhas acaba sendo a maior atração do longa, juntamente com seus personagens, peculiarmente criados para demonstrar sensações e emoções com exatidão.

Sempre com uma boa piada e com a presença de Dory para trazer ótimas, porém inconstantes, risadas ao público, a profundidade gráfica de "Procurando Nemo" insere os espectadores em um mundo aquático quase que palpável, onde todas aquelas aventuras parecem ligeiramente reais. Tornando-se uma referência no mundo da animação, o longa é praticamente obrigatório a todos os fãs do gênero e até para aqueles que acham que animação é coisa de criança. E sabemos que não é. Uma prova disso é a dedicação com que a equipe da Pixar tratou o projeto, e não somente buscando render um bom dinheiro na bilheteria, mas em construir uma produção que ganhasse todo o respeito que merece. Quem ainda tiver a oportunidade de vasculhar o disco de extras que vem junto com o DVD do filme, pode conhecer mais um pouco sobre o processo criativo e ter uma idéia do quão complexo foi o trabalho, justificando tamanha perfeição. Além disso, ainda existem jogos interativos divertidíssimos para a criançada, assim como vídeos e informações especiais sobre a vida marinha. Mais do que um entretenimento, "Procurando Nemo" é um exemplo de como fazer animações de alto nível.
Cotação:  (9/10)

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