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C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor
(C.R.A.Z.Y. / Crazy, 2005)

Data: 14 de Janeiro de 2007

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Por: Diego Benevides

De uma sensibilidade fora do comum, “C.R.A.Z.Y.” chega para mostrar porque ganhou 33 dos 37 prêmios pelo qual concorreu desde 2005, quando estreou no Canadá e conseguiu movimentar mais de um milhão de espectadores aos cinemas canadenses. Uma simples mistura de um roteiro inigualável, com uma direção estrondosa e um elenco absurdamente fantástico. Exageros à parte, claro.

Não existe um fator que possa definir o que “C.R.A.Z.Y.” possa significar para cada um dos pares de olhos que ficam presos durante as suas mais de duas horas de duração. Filmes que abordam problemas familiares já não são novidades no cinema internacional e está cada vez mais difícil encontrar alguns deles que possam seguir um pouco da linha estereotipada que seguem. Não que este longa não tenha seus formatos familiares, coisa que comentarei mais adiante, mas a grande glória conseguida nele é que sua condução e o fato de conseguir mexer com a subjetividade da platéia foram fatores essenciais para ser um arrebatador de fãs. Contando a história dos Beualieu, uma família normal de Quebec dos anos 60, que segue seus preceitos religiosos e sociais, mas que precisam saber lidar com os problemas vividos dentro da própria casa. Gervais e Laurianne são os chefes da família e representam praticamente o oposto um do outro. O pai é ama baseado nas bases conservadoras de sua vida, enquanto a mãe simboliza aquele metódico amor materno, capaz de mover montanhas pelos filhos. O casal teve a sorte de gerar cinco filhos homens: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan, abreviando-se para C.R.A.Z.Y.. Estes cinco jovens são retratados em três épocas diferentes e a história é contada pelo quarto filho, Zac, um belo rapaz que possui dons sobrenaturais e descobre ter tendências homossexuais, negando-as para não deixar de ser amado pelo pai, que não aceita tal “anormalidade”.

Tratar o homossexualismo talvez esteja até na moda, mas tenha certeza que “C.R.A.Z.Y.” tem um quê de diferente e tal diferença não se apresenta somente nos fatos aos quais somos cúmplices, mas pelo formato com que é conduzido. A história atinge tantos planos em seu enredo que acaba não se centrando somente no homossexualismo, mas no amor que move uma família, junto com suas contradições e desafios pessoais que todos nós sempre passamos dentro de casa. O longa conta a história de uma vida toda em duas horas, então se preparem para sofrer, rir, crescer e chorar junto com os personagens. Somos completamente bombardeados de fatos que não nos dão tempo para respirar e isso cria uma atmosfera engrandecedora ao redor dos personagens. Para tudo tem um motivo. Do simples detalhe do pôster do David Bowie na parede do quatro até a não aceitação sexual do protagonista. Não vemos um desperdício nem exageros durante a projeção, muito menos apelações ou situações atípicas. Pelo contrário, os clichês existem, mas são totalmente contornados e incitam a platéia a se prepararem para todos os fatos que determinadas ações podem gerar. Esse desarmamento que o roteiro provoca em quem assiste acaba surpreendendo, pois é completamente aceitável tudo que nos foi passado, desde os dons sobrenaturais de Zac, que são tratados de forma fantasiosa e que, felizmente, não cai no absurdo da ridicularização, até os momentos de conflito íntimo e global dos personagens.

A forma com que o roteiro nos faz mergulhar na história e nos lapida até mostrar seu verdadeiro objetivo é ímpar. “C.R.A.Z.Y.” não é somente um filme de auto-afirmação, mas é sobretudo sobre amor. Amor de pai, de mãe, de irmãos, de parentes, amigos; um amor mais subjetivo, que às vezes nem sabemos direito seu tamanho e sua forma. Esses amores são bem explicitados e nos fazem sentir mais próximos da realidade apresentada. É impossível sairmos após o término do filme sem ter um momento de reflexão ou sem nos identificar com alguma parte. As relações impostas pelos roteiristas Jean-Marc Vallée (também diretor) e François Boulay são fantásticas e encantam, desde a mais simples à mais arrebatadora. Como não admirar o amor de mãe de Laurianne à Zac e vice-versa? Neste caso o roteiro não busca explicações, o que se repete em vários outros momentos. Sempre permitindo que o público entenda a intenção, mesmo que não a mostre fisicamente, acaba acertando por investir na capacidade do elenco de demonstrar todo aquele conflito de sentimentos gerado nas três fases da família. As simbologias, a sensibilidade em criar personagens profundos e saber evoluí-los na trama, juntamente com toda a competência do diretor mostram que o roteiro foi milimetricamente calculado para comover, ensinar e passar lições de vida. Fazendo de Zac o interlocutor de todos os acontecimentos, vemos coisas banais acontecendo e somos alertados para elas e para aquela velha teoria de não sabermos direito lidar com aquilo que temos nas mãos, e sentirmos falta quando perdemos. Narrado desde o começo por Zac, vemos suas definições de mundo, sua vontade de não ser gay para não decepcionar o pai e seus gritos de desespero nos momentos mais difíceis de sua vida.

Como se não bastassem tantos conflitos bem trabalhados, Vallée e Boulay ainda introduzem uma trilha sonora que não somente conduz a trama, mas participa dela. Os personagens a vivem, a evoluem e a usam para demonstrar suas angústias e sofrimento. Pink Floyd, The Rolling Stones, Patsy Cline e David Bowie (a la Ziggy Stardust) são alguns dos que movimentam a trama com hits que variam do belíssimo “Space Oddity”, que por sinal provoca uma das cenas mais marcantes de toda a história, até ao tema original “Crazy”, interpretado por Patsy Cline, outra chave essencial para o andamento da história. Inclusive a poderosa trilha sonora foi uma das mais custosas para os produtores. Os direitos das músicas foram penosos para serem conseguidos e custou alguns dólares do bolso do diretor, que não quis construir o filme sem as músicas que havia planejado. Vallée estava tão seguro do seu projeto que talvez não esperasse tanta ovação durante o período que ficou em cartaz no Canadá, mas tinha a plena consciência de onde estava se metendo e lucrou muito mais do que investiu. “C.R.A.Z.Y.” foi a maior bilheteria de 2005 no país e mesmo assim ainda sofreu com o protocolo para ser distribuído mundialmente. A produção foi até a escolhida para representar o Canadá no Oscar que se seguiu, mas acabou nem sendo realmente relevada, o que é um absurdo.

Gijons, Jutras e Génies foram alguns dos prêmios que deram todo o mérito merecido ao trabalho final de Vallée. Sempre seguindo uma linha sensível, saindo ao máximo das caricaturas escrachadas e procurando fazer-se entender pelo público, vemos o espetáculo por uma câmera em suas mãos. Algumas vezes metódico, outras mostrando planos detalhadamente trabalhados, todas as suas imagens funcionam, revelando a fotografia impecável de Pierre Mignot. As possibilidades de uso da câmera que são criadas no decorrer do longa chegam somente para abrilhantar mais ainda a história. Ela não só registra os fatos, mas participa deles, sabe ser complacente em alguns momentos, em outros prefere mostrar os acontecimentos crus que acabam dando um soco no estômago de quem assiste, fazendo com que consigamos perceber todo o realismo com que o enredo foi tratado. Sem falar nos usos da câmera lenta em momentos cruciais para os personagens. Vallée sabia muito bem o que retirar de cada segundo rodado. Esse conhecimento global do roteiro é o que falta muitas vezes em diversas películas. Nem sempre a harmonia é convincente, acabando por prejudicar o andamento de alguns filmes, e “C.R.A.Z.Y.” mostra que Vallée não somente se portou como roteirista, mas que escreveu a história sabendo muito bem como ia filmá-la e isso vale tanto para a parte da trilha sonora quanto para as agressões sofridas pelos personagens.

E o que falar do elenco? Talvez os milhões de adjetivos e culto aos atores possam parecer redundantes, mas este mérito não pode passar despercebido. Todos os atores envolvidos no projeto, do mais coadjuvante ao protagonista, sabiam inteiramente o que estavam fazendo. Além disso, a caracterização que vai surgindo de acordo com o avanço dos anos em cada um deles ficou fantástica e perfeitamente convincente. O pequeno Émile Vallée,, que interpreta Zac até os sete anos de idade é uma graça e mostrou ser uma promessa para a sétima arte. Sempre expressivo e mostrando-se a vontade no papel, dá uma pena quando ele cresce e aos 15 anos passa a ser interpretado por Marc-André Grondin. É impressionante o talento de Grondin. À primeira vista, parece até que o Zac foi feito para ele, já que demonstrava tanto intimismo e inteligência ao criar sua personalidade em cena, sabendo muito bem demonstrar seus conflitos pessoais. Seus outros irmãos, mesmo tendo sofrido com a crítica mundial chamando-os de “estereotipados”, cumprem realmente a função de estereótipos, até porque o roteiro não esconde que esta é a idéia: um filho nerd, um drogado, um comilão, um esportista... e “por que não um gay?”. Em todas as famílias vemos estereótipos e talvez “C.R.A.Z.Y.” teria sido menos eficaz se tivesse dado ênfase em várias personalidades bem elaboradas para os irmãos de Zac. Na ala adulta, Michel Coté e Daniele Proulx mostram experiência e se entregam bastante ao papel. Ele como o pai conservador que não vê o homossexualismo ou as drogas como algo comum, e ela como a mãe dedicada cujo amor aos filhos é maior do que o que tem a si mesma. Suas interpretações geram momentos cruciais e de grande emoção.

Com uma direção criativa, um roteiro dramático, mas com seus toques de comédia inteligente, “C.R.A.Z.Y.” é o típico filme comercial que tem tudo para conquistar milhões de fãs, e tal mérito se dá pela abordagem leve e carismática, com situações basicamente simples, mas que ganham uma proporção assustadora em cena. Cada simples peça encaixada no enredo é um por cento necessário para compor um todo inigualável que prova porque o cinema é chamado de “sétima arte”. Mais do que uma história de amor, de conflitos pessoais ou religiosidade, mas uma história sobre a vida; vida esta que pode ser de qualquer um, vida que está mais perto de nós do que imaginamos, fatos particularmente reais que fogem de caricaturas grotescas, ganhando beleza e sensibilidade jamais vistas anteriormente. Um filme para a família, uma lição para o mundo.
Cotação:  (10/10)

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