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Rocky IV
(Rocky IV, 1985)
Por: Thiago Sampaio
O quarto filme da franquia "Rocky" pode
não apresentar a seriedade dos dois
primeiros filmes da série, mas, visto como
uma legítima diversão passageira, o filme
cumpre seu dever com primor. Um adversário
bacana para o protagonista e uma subtrama
política fazem de "Rocky IV" um bom
passatempo.
Desde o filme anterior, a franquia "Rocky"
havia perdido em partes sua identidade, se
transformando em mais uma série caça níquel
com um conteúdo cada vez rasteiro. Faz
sentido, afinal, o personagem Rocky já havia
se estabelecido tanto financeiramente como
emocionalmente. Todo aquele seu drama para
mostrar que sua habilidade com lutas
supriria sua falta de inteligência, seu
conflito interno para mostrar que não é mais
apenas mais um lutador de bairro, a
importância de sua esposa Adrian em sua
vida, tudo isso já havia sido abordado de
maneira correta nos dois primeiros, deixando
um enorme buraco para o que seria abordado
nos filmes adiantes. O que sobrou? Muita
porrada. Após um mediano "Rocky III – O
Desafio Supremo", o quarto filme, novamente
dirigido, roteirizado e estrelado por
Sylvester Stallone, chega seguindo a linha
de divertir sem precisar muito o cérebro. E
acaba por conseguir com méritos.
Rocky Balboa (Sylvester Stalone) está frente
a frente com o seu maior mortal adversário:
o soviético Ivan Drago (Dolph Lundgren), um
atleta desenvolvido pela cibernética
soviética. Após a implacável destruição de
seu treinador e amigo pessoal Apollo Creed
(Carl Weathers), vencer Drago torna-se a
grande obsessão de Rocky. Isto o leva até às
estepes geladas da Sibéria, onde, sob
condições subumanas, Rocky treina
intensivamente para a luta mais perigosa de
sua vida.
A mudança de estilo se percebe logo no
início, quando Rocky dá de presente de
aniversário para seu cunhado Paulie um robô
– fêmea, diga-se de passagem – que faz
simplesmente tudo, semelhante aquela
serviçal da família Jetsons, do desenho de
Hanna Barbera. Algo, no mínimo, absurdo,
para quem acompanhou Rocky no começo do
primeiro filme apanhando para conseguir
míseros quarenta dólares. Mas o filme
consegue não cair no ridículo, pois, pela
primeira vez, uma trama política é
apresentada na franquia, deixando o quarto
filme bem mais interessante do que
aparentava de início.
A inclusão na trama de um adversário russo
que anseia a profissionalização do boxe na
União Soviética é interessante, pois entra
em pauta novamente todo um contexto de
Guerra Fria. No momento em que os
americanos Rocky ou Apollo Creed entram num
ringue contra o russo, não é mais apenas uma
luta de boxe, e sim, toda rivalidade
capitalismo versus socialismo, uma briga de
nações que vem à tona. E o roteiro faz
questão de muitas vezes atenuar esse
conflito, como quando a esposa do lutador
russo Ivan Drago afirma que a mídia faz de
tudo para mostrar que a URSS é o vilão do
mundo, e os EUA os heróis. Algo delicado
para um típico filme pipocão americano. Mas
Stallone ainda bota muita palha na fogueira,
ao aproveitar o estereótipo de Apollo Creed
(um patriota exibicionista ao extremo), e
alfineta feio os soviéticos quando ele chega
para lutar com Drago vestido de George
Washington enquanto o ginásio é tomado por
um verdadeiro show de James Brown cantando
"I live in América".
Acertadamente, o sentimentalismo que marcou
os primeiros filmes, está muito bem
presente, ainda que de maneira mais leve.
Afinal, Rocky mais uma vez tem que lidar com
a morte de alguém especial (afinal, ele
nunca seria ninguém sem Apollo Creed, seja
como adversário, seja como amigo) e a luta
da "revanche" não se trata apenas de
vingança, mas uma série de fatores que mexem
com o psicológico de nosso protagonista.Vale
lembrar que a importância de Adrian em sua
vida, e sua eterna preocupação para com a
saúde do marido também são mostradas, para
não descaracterizar por completo a franquia.
Impressionante como Stallone consegue fazer
uma direção firme, não deixando cair o ritmo
em nenhum momento. Sensacional o longo
momento de fluxo de consciência de Rocky
quando este, abalado pela morte de Apollo,
dirige sem rumo preocupado com a luta da
revanche, e uma série de flashbacks dos três
filmes anteriores são apresentados em
rápidos intervalos. Ele acerta ao mostrar
não apenas cenas de Rocky com Apollo, mas
sim, momentos de importância de toda sua
vida, como o primeiro beijo em Adrian, seu
treinamento esmurrando carnes, quando atirou
um objeto com desgosto em sua própria
estátua no terceiro filme, a morte de seu
eterno treinador Mickey, etc. Isso para
simbolizar que sua luta com Ivan Drago não
representava apenas uma vingança...ele
estará representando seu país em meio a uma
guerra, e acima disso, seu nome estará em
jogo, assim como sua própria vida.
Méritos para a direção de Stallone também na
fantástica cena de treinamento, em que é
feito um paralelo entre os dois lutadores.
Enquanto Rocky mantém-se firme ao seu
treinamento primitivo baseado em corridas,
cortar lenhas, puxar carroças, tudo sem
quaisquer ajuda de equipamentos; o russo
utiliza uma série de equipamentos de última
tecnologia, desde esteiras simples,
computadores modernos,a medidores de
potência de socos e..., anabolizantes (mais
uma alfinetada a União Soviética). Para
muitos, pode ser considerado um exagero de
provocação ao apresentar a Rússia comunista
apresentar um avanço enorme em tecnologia em
comparação ao treinamento precário do atleta
dos EUA capitalista. Deixando de lado esses
detalhes, são momentos de pura adrenalina
que, juntamente com a trilha de fundo "Burning
Heart", da banda Survivor, valem o filme.
O que garante muito a emoção é o ótimo vilão
vivido por Dolph Lundgreen (onde será que
ele anda hoje?). Mesmo falando menos de meia
dúzia de palavras durante todo o filme, ele
assusta pelo seu jeito durão e com um porte
físico amedrontador. Após fazer um caldo com
Apollo Creed, é mais do que natural a
preocupação de Rocky com sal própria vida. E
vale salientar que o duelo entre os dois
talvez só não seja superior ao dele contra
Apollo Creed no primeiro filme. Uma
emocionante luta de um campeão mundial
contra uma verdadeira muralha russa, quase
imune a pancadas, em nome de uma força maior
(detalhe que a própria luta em si não era
autorizada pela Federação de Boxe).
Paras os fãs dos dois primeiros filmes,
ainda pode ficar o gosto de decepção pelo
drama do lutador ter virado definitivamente
uma franquia de ação. Mas sendo encarado
como diversão gratuita, "Rocky IV" é um
prato cheio. Patriotismos à parte, no fim,
Stallone até tenta esboçar através de seu
personagem uma mensagem de paz mundial. No
fim das contas, é o filme dele em jogo.
COTAÇÃO: 7/10 |