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Rocky V
(Rocky V, 1990)
Por: Thiago Sampaio
O quinto filme da franquia "Rocky"
consegue ser sem dúvidas o mais fraco da
série. Exceto por algumas passagens que
fazem lembrar o primeiro – e melhor – filme
da série, "Rocky V" é chato durante a maior
parte do tempo.
"Rocky IV" foi extremamente divertido. Não
tinha mais aquela seriedade dos primeiros
filmes, mas exaltou o ego de Stallone com
uma vitória de Rocky sobre um pugilista
russo, transmitiu sua mensagem e pronto,
seria um bom final para a franquia de
sucesso. Mas, como nem sempre o bom senso se
aplica em Hollywood, é preciso quebrarem a
cara para que aprendam a lição e parem de
fazer filmes para não sujar a imagem da
famosa série. E "Rocky V" foi essa lição.
Após dirigir as três últimas seqüências da
série, Stallone resolveu assumir os cargos
apenas de roteirista e ator, passando a
cadeira de volta para John G. Avildsen,
vencedor do Oscar pelo ótimo trabalho no
primeiro filme. Mas Avildsen pareceu
desaprender como se faz um bom filme.
Após o combate contra Ivan Drago, Rocky vem
a se deparar com uma situação difícil: perde
quase todo o dinheiro graças a um contador
corrupto, e ainda descobre que estava
impossibilitado de continuar a lutar sob o
risco de vida. Volta a morar no bairro de
origem na Filadélfia e passa a conviver com
problemas sociais e pessoais, principalmente
em relação a seu filho. Encontra um
promissor lutador de boxe e decide
treiná-lo. Tudo corria bem até quem um
grande empresário "rouba" o seu pupilo. Os
dois (mestre e aprendiz) acabaram se
enfrentando para decidir quem realmente é o
"campeão dos campeões!"
O mal do roteiro não é nem o tema em si,
pois faz total sentido a decisão de Rocky em
abandonar a carreira – algo que ele pretende
desde o segundo filme - e queira se dedicar
à carreira de treinador, principalmente após
as escoriações no cérebro provenientes da
luta anterior (explicação muito bem
encaixada). Mas, convenhamos, existe graça
em um filme de Rocky sem vê-lo entrar nos
ringues e ver toda sua apreensão antes de
uma luta? A idéia para o destino do
personagem é muito válida, mas longe de ser
suficiente para se fazer um filme. Uns
letreiros no fim do filme anterior,
explicando o destino do personagem, seriam
muito mais convenientes. Como quiseram fazer
mais um filme, o jeito foi apelar para uma
série de situações clichês.
O fato de não ver Rocky se preparando para
uma briga, e sim na posição de treinador, já
não é muito animador de se ver, e tudo piora
muito com o fato de seu pupilo, Tommy Gunn
(vivido pelo fraquíssimo Tommy Morrison),
não ter carisma algum. Assim, fica difícil
torcer por bons desempenhos seus nas lutas,
e mais difícil ainda compreender tamanho
afeto que Rocky adquire por ele, a ponto de
deixar sua família em seu segundo plano
(algo absurdo para quem acompanhou a
essência do personagem durante os outros
quatro filmes da série). E o fato de Rocky
negligenciar a família foi lamentável, pois
a sua relação com seu filho poderia ter
muita carga dramática a ser abordada, mas o
diretor optou pela mesmice do "pai que
trocou o filho por um estranho".
Talvez a intenção do diretor fosse deixar
sempre explícito a possível alteração de
caráter de Tommy que iria ocorrer, mas,
mesmo assim, tudo soou demasiadamente
exagerado. É muito forçado o modo que Rocky,
antes muito relutante em agenciar alguém,
aceita treinar Tommy após um simples jantar
em sua casa e exprimindo uma enorme
empolgação. Porém mais forçado ainda é o
modo que Tommy repentinamente "apunhala
pelas costas" seu treinador, por ele não
achar que seu pupilo ainda não estava pronto
para disputar o título mundial (Anakin
Skywalker?), e para piorar, em pouco tempo
cria um ódio imenso por seu ex-mentor.
E "Rocky V" quebra todos os padrões da
franquia ao apresentar a luta principal não
nos ringues, mas no meio da rua, sem luvas,
sem regras. Tudo bem que a intenção do nosso
protagonista era não satisfazer a vontade do
mega-empresário George Duke de atrair a
mídia através de um confronto entre "mestre
e pupilo", mas, convenhamos, onde está sua
ética? Até onde saibamos, Rocky sempre foi
um homem prudente, e nunca se orgulhou de
ganhar a vida lutando, e acaba que em sua
aposentadoria vai lutar ilegalmente no meio
da rua? Para piorar, o roteiro de Stallone
falha feio ao mostrá-lo como herói brigando
na rua, sendo ovacionado pelo público,
demonstrando uma péssima influência. No fim
das contas, seu ex-pupilo ainda é preso por
cometer tal ato, enquanto ele sai impune.
Afinal, não eram os dois que estavam
violando as leis ao brigar na rua?
Em meio às muitas decepções, o quinto filme
ainda possui alguns momentos que irão fazer
os fãs do original se deliciarem. Toda a sua
volta a sua rua na cidade Filadélfia, a
retratação da academia de Mickey abandonada,
sua antiga jaqueta preta de tigre com um
chapéu-coco, estão presentes, como uma
espécie de homenagem à franquia. Nesses
pontos, o diretor John G. Avildsen acerta em
cheio, principalmente na direção de um
flashback de um diálogo de Rocky com seu
falecido treinador, Mickey, atenuando a
forte relação de pai-filho existente entre
eles, e até justificando sua própria posição
exagerada perante Tommy Gunn. E o diretor
acerta principalmente nesses flashbacks,
mostrando habilidade em momentos como o da
luta final, em que Rocky, prestes a ser
derrotado por Tommy, enxerga a imagem de
Ivan Drago (Dolph Lundgreen, seu adversário
do filme anterior) e Apollo Creed (Carl
Weathers), conscientizando-se que é melhor
do que tudo aquilo e ganhando forças para
não desistir.
Salvo esses momentos, "Rocky V" acaba por
decepcionar os verdadeiros fãs da série por
tamanha distorção de personagens e contexto.
Para os não-fãs, trata-se apenas de mais um
filme de ação mediano. Felizmente, dezesseis
anos depois, Stallone iria ressuscitar a
franquia com "Rocky Balboa", pois uma série
de tanto sucesso como essa merecia de fato
uma conclusão melhor.
COTAÇÃO: 4/10 |