Rocky Balboa
(Rocky Balboa / Rocky VI, 2006)
Por: Raphael Santos
Trinta anos depois do primeiro filme, uma
das franquias mais conhecidas do cinema está
de volta. Com ela, muitas incertezas e
muita, mas muita, insegurança quanto à sua
qualidade.
Em 1976, estreava a melhor franquia de boxe
de todos os tempos. Era o ano de estréia de
"Rocky - Um Lutador". O filme, estrelado por
Sylvester Stallone, enlouqueceu pessoas de
várias idades, inclusive os garotos que, se
espelhando no personagem principal,
começavam a praticar boxe. Rocky representa
perfeitamente bem a paixão americana pelo
boxe e, faça o que fizer, esse título merece
respeito no mundo cinematográfico dos
blockbusters.
De todos os cinco filmes da série, sempre há
algo bom para se tirar, nem que seja uma
cena ou outra. Temos personagens memoráveis
como Apollo Creed, que esteve nos quatro
primeiros filmes, como também o glorioso
Paulie (Burt Young), que aparece em todos os
longas como o manager sempre ativo do quase
imbatível lutador. Quando, em 1985, estreou
"Rocky IV", tudo poderia ter parado ali, no
auge, mas a teimosia culminou em um "Rocky
V", exatamente cinco anos mais tarde, o que
foi um desastre, todavia, mesmo assim, ainda
foi aceitável. O que pensar então de um
"Rocky" dezesseis anos depois do quinto, com
a estrela da festa, no caso Sylvester
Stallone, bem velho e, convenhamos, em um
tempo que os filmes de luta não vingam
tanto? É, mais um erro de teimosia. Porém,
como já disse, temos que respeitar essa
série.
No sexto filme, intitulado "Rocky Balboa", o
Touro Italiano se encontra como gerente de
um restaurante que, provavelmente, só se
mantém por ter um dos nomes mais apreciados
na Filadélfia como dono dele. Nesse
restaurante, Rocky é, volta e meia, chamado
para uma foto, para dar um autógrafo ou
relatar algum momento de sua carreira. Vemos
também seu filho - interpretado por Milo
Ventimiglia do seriado "Heroes" -, que não
se sente muito confortável com o sobrenome
glorioso do pai. Rocky está mais sentimental
com a ainda eminente perda da esposa Adrian
que tanto esteve ao seu lado em sua
vitoriosa carreira.
Nessa trama somos apresentados a um Rocky
aposentado, velho, recluso ao cotidiano de
pessoas comuns, com divergências familiares
e sofrendo por perdas de entes queridos.
Todavia, para esse mesmo Rocky, pelo fato de
não se sentir ultrapassado ao ver uma luta
feita por computação gráfica entre Rocky e o
atual campeão mundial de Boxe, Manson "The
Line" Nixon (Antonio Tarver), resolve voltar
à ativa. Nas entrelinhas, vemos que a real
finalidade do ex-lutador é, sem dúvidas, de
se auto-afirmar.
A insanidade de Rocky é até uma analogia à
produção desse filme. Ora, tal como Rocky
não precisa mais mostrar nada ao mundo, a
franquia "Rocky" também não precisaria, mas
ambos pensam que sim e estão aí, de volta
aos velhos tempos.
Mesmo sendo muito taxativo na minha opinião
de não ser preciso um "Rocky VI" , fui com
muito respeito assisti-lo. Desde o início
ficava claro que era um projeto feito para
fãs, onde só os fãs conseguiriam se cativar
e se manterem acordados. Balboa não luta,
não corre, mas dá demonstrações de ser o
velho e bom Touro Italiano que aprendemos a
apreciar. As cenas são do cotidiano de um
lutador aposentado. Logo, com tanta
nostalgia pairando no ar, esse tempo seria
necessário para que tudo, realmente tudo,
fosse aprofundado, mas somente o atual
momento do ex-lutador foi. Quando tenta,
tardiamente, aprofundar os elementos do
roteiro - como: a rasa relação com seu
filho; um frio e forçado relacionamento com
Marie (Geraldine Hughes), a garçonete que
acabara de conhecer, e seu filho Steps
(James Francis Kelly III) -, o filme se
perde, pois muito tempo já fora desperdiçado
com inutilidades. Afinal de contas, nós
conhecemos muito bem o instinto campeão de
Rocky, não precisamos saber ainda mais.
Se fosse para voltar com a franquia "Rocky",
que voltasse com uma melhor direção. Tudo
bem que Sylvester Stallone já dirigiu, foi
quem criou essa estória e conhece o
personagem como ninguém, mas a nostalgia que
tentou empregar à direção simplesmente não
funcionou completamente bem. Talvez um
diretor com mais cartas nas mangas para
conseguir alcançar tal objetivo fosse melhor
para esse trabalho. Mesmo que fosse em uma
parceria com Stallone, mas seria de bom
grado.
A parte nostálgica que funcionou bem foi a
trilha sonora e a luta final. Não julgando o
desfecho dessa luta, mas a qualidade dela em
si que, para quem é fã, é espetacular.
Rocky, no início do embate, soa fraco,
desajeitado e totalmente com falta de
coordenação em seus golpes, entretanto o
mesmo estilo de se filmar luta que se usava
nos anos 80 e começo dos 90 é utilizado. São
esbanjados trechos em preto e branco,
misturado com a angustia dos lutadores e
tudo passando na velocidade certa,
culminando em um assalto final. O resultado
da luta? Bom, ele é somente o resultado de
uma belíssima coerência.
As escolhas dos atores foram normais, mas há
de se salientar a boa escolha de Milo
Ventimiglia para interpretar o filho de
Rocky. Ninguém melhor se encaixaria no
papel. Já conhecendo Milo do seriado "Heroes",
onde ele vive o protagonista Peter Petrelli,
vibrei quando o vi no elenco e mais ainda
quando o vi atuando. É um ator da nova
geração e que tem, pasmem, muitos dos
trejeitos faciais do Stallone. Pense: o que
mais chama atenção na face do ator? Isso
mesmo, a boca torta. Pois isso, Milo
Ventimiglia tem, naturalmente, já que no
seriado "Heroes" essa mesma boca muito torta
está lá.
O melhor do filme, além de um final fugindo
do clichê, é a velha e boa cena do
treinamento. Rocky correndo, malhando,
trocando socos no ar e, no final, dando a
sua última subida às escadas para deixar o
melhor da nostalgia dessa franquia no ar.
Logo que a cena começa e, com ela, os
primeiros acordes da trilha sonora de Bill
Conti, os outros filmes vêm à mente. Vêm na
cabeça Rocky treinando na neve para lutar
contra o soviético Draco, bem como ele
socando as carnes no açougue preparando-se
para seus intermináveis embates contra, e
mais por, Apolo "Doutrinador". Enfim, isso
já faz o filme impagável para os fãs que
andavam um pouco esquecidos dessas cenas.
Realmente não era preciso ter um sexto filme
de "Rocky", mas teve e, salve alguns erros,
devemos até nos sentir bem, pois poderia ter
sido pior. Tendo em vista que é uma trama
bem direcionada para fãs, as propostas do
filme foram bem alcançadas e ele conseguiu
apagar a imagem ruim deixada por "Rocky V",
que, convenhamos, nem vinha afligindo tanto
assim a cabeça dos seguidores da série. Esse
é um desfecho, por incrível que pareça, com
chave de ouro. Que paremos por aqui.