F R A N K  M I L L E R

 

Frank Miller é considerado um mestre dos quadrinhos. O único norte-americano da chamada "Santíssima Trindade dos Quadrinhos" (ao lado dos igualmente idolatrados Alan Moore e Neil Gaiman), tem como característica, além da violência intensa em seus trabalhos, a peculiaridade. Personagens complexados, vide “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, ou pura diversão pop, vide “Sin City”, ou mistura de história real com fantasia, vide “Os 300 de Esparta”, estão entre as suas marcas, mostrando seu versátil e único no mundo dos quadrinhos. E agora, ele consolida sua habilidade se aventurando também no mundo do cinema.

O Caminho para o Sucesso

Miller nasceu na cidade na cidade norte-americana de Olney, Maryland, em 27 de janeiro de 1957, e foi criado em Montpelier, Vermont. Fã de quadrinhos desde criança, não iria demorar para que ele experimentasse seus primeiros traços. Ainda assim, só foi ter trabalhos de sua autoria aos 20 anos, quando lançou a revista “The Twilight Zone”, pela Gold Key Comics. Na década de 70, chegou até a Marvel Comics através da revista de número 18 de “John Carter: Warlord of Mars”, e lá ficou fazendo trabalhos aleatórios como capas e substituindo aqui e acolá algum desenhista da empresa, até que surgir sua grande chance em “Spectacular Spider-Man”, números 27 e 28.

Nestas histórias do “Homem-Aranha”, havia um outro herói como coadjuvante: o Demolidor, que por sua vez, sua revista solo era um fracasso de vendagem. Interessado no personagem, Miller recorreu ao editor-chefe Jim Shooter para que lhe concedesse o direito de escrever sobre o herói. Pedido aceito. Sua primeira edição de Demolidor foi a de número 158, já dando um ar mais sombrio ao personagem, apresentando uma prévia do que iria fazer posteriormente com o personagem batizado como “Homem Sem Medo”. Após assumir Demolidor em definitivo em 1981 (antes ele dividia alguns textos com Roger McKenzie), e criar a ninja Elektra, que passou a ser coadjuvante de suas histórias, Miller simplesmente tirou o personagem do fundo do poço ao sucesso absoluto através de sua visão mais realista, violenta e fugindo de clichês.

Ainda no começo da década de 80, fez uma parceria com Chris Claremont em uma mini-série em quatro partes estrelada pelo mutante Wolverine. A trama se ambientava no Japão e era cheia de características dos mangás – quadrinhos orientais. Entre 83 e 84, começa a mostrar sua peculiaridade em misturar fantasia com realidade em seu primeiro título autoral: “Ronin”, uma história sobre samurais com toques de ficção científica. Misturando o clima dos quadrinhos japoneses com a força dos traços americanos, Miller apresentou uma obra exótica, repleta de ação e paranóia, jogando o leitor num mundo pra lá de confuso.

 

O  A U G E

 

Pode-se dizer que todo o trabalho até então de Miller seria uma prévia da obra-prima dos quadrinhos que viria a apresentar 1986, protagonizada por ninguém menos que Batman. Tal obra-prima se chama “O Cavaleiro das Trevas”. Com cores de Lynn Varley (que futuramente repetiria a parceria com Miller em “Os 300 de Esparta”) e arte-final de seu parceiro de "Demolidor", Klaus Janson, a mini-série traz um Bruce Wayne idoso, em um mundo caótico, violento, repleto de críticas ao sistema manipulador de opiniões, ao governo estadunidense, a hipocrisia humana em si. Uma espetacular mistura de aventura heróica, com conteúdo pretensioso, mostrando o mundo de Batman cada vez mais voltado para os adultos. Um clássico vencedor de muitos prêmios, e aclamado pela revista Rolling Stone.

 

 

Após consolidar seu estilo adulto de abordar o mundo dos super-heróis com “O Cavaleiro das Trevas”, Miller volta a trabalhar no mundo do Demolidor. Em 86, junto com David Mazzucchelli apresenta “A Queda de Murdock”, mostrando a decadência do alter-ego de Demolidor nas mãos do Rei do Crime. No mesmo ano, lança ao lado de Bill Sienkiewicz, “Daredevil: Love and War”, e futuramente a mesma dupla lança “Elektra Assassina”, mini-série em oito partes que se passava fora da cronologia oficial da Marvel Comics, desvinculado com o Demolidor. Tempos depois, voltou a trabalhar com a personagem em “Elektra Vive”, seu último trabalho pela Marvel.

Aproveitando o sucesso de sua última aventura com Batman, ele volta a apresentar o Homem-Morcego, agora em suas origens, mostrando como Bruce Wayne se tornou um justiceiro, no ótimo “Batman-Ano Um”. Sucesso absoluto! A atmosfera sombria e realista é mantida e o resultado é mais uma obra-prima de Miller. Quem conhece o trabalho, reconhece claramente sua infuência no filme “Batman Begins”.

 

M U D A N D O  D E  A R E S

 

Nessa época, ele, Alan Moore e outros quadrinistas entraram em disputa direta com a DC Comics pela remodelação da classificação etária dos gibis, almejando maior liberdade para abordar um conteúdo mais adulto. Em meio a discórdias da empresa, ele acabou rumando para a independente Dark Horse Comics. Para a Image Comics, chegou a escrever um número sobre “Spawn”, herói demoníaco criado por Todd McFarlene, que posteriormente, promoveu até um encontro entre Batman e Spawn, que não foi bem aceito pelos fãs. Na década de 90, escreveu títulos de qualidade, porém, menos conhecidas, protagonizadas por Martha Washington, uma guerreira patriota: “Hard Boiled” e “Give Me Liberty”.

 

Sendo um nome mais do que famoso dos quadrinhos, na década de noventa surge uma proposta para se aventurar em uma área diferente: o cinema. Miller foi convidado a roteirizar “Robocop 2”, porém, o filme foi um fracasso e não teve boa aceitação do público. Esse fato fez com que Miller se revelasse ser contra as adaptações de Hollywood para os seus gibis graças às interferências dos estúdios nos roteiros.

Daí então, Miller lançou outros títulos de menor repercussão como “Big Guy and Rusty the Boy Robot” – uma espécie de homenagem aos clássicos japoneses como “Godzilla” e “O Robô Gigante” -, além de outros heróis como “Flash”, “Mulher-Maravilha”, “Lanterna Verde” e o pouco conhecido “Eléktron”. Até mesmo uma continuação de seu maior sucesso ele arriscou: “O Cavaleiro das Trevas 2”, que nem de longe repetiu o sucesso do original, e recebeu severas críticas. Essa foi uma fase difícil para Miller e sua companheira Lynn Varley, recebendo vários comentários de que suas artes estavam decaindo, se apoiando em desenhos e cores mal acabados.

 

T R A J E T Ó R I A  N O  C I N E M A

 

Mal ele sabia que iria queimar a língua quando disse que ser contra as adaptações de Hollywood para os seus gibis. Em 1991, escreveu o sucesso “Sin City”, obra em preto e branco situada em uma cidade onde predominam sexo, tiras corruptos, prostitutas armadas e caras que matam apenas com o olhar. Foram muitas as histórias sobre “Sin City” escritas por Miller, intercalando um grande número de personagens. No ano de 2005, o diretor Robert Rodriguez (“A Balada do Pistoleiro”) fez um curta, estrelado por Josh Hartnett e Marley Shelton, baseado em uma das histórias de "Sin City", que apresentou a Miller com a seguinte proposta: caso ele gostasse, permitiria a produção de um longa metragem; caso não, ele apenas levaria o curta para casa. A resposta de Miller: “quando começamos a gravar?”. Rodriguez não apenas fez o longa, como convidou o próprio Frank Miller para dirigi-lo ao seu lado. O resultado não é bem uma adaptação, mas sim, uma perfeita transposição da graphic novel para as telas, refletindo com perfeição o clima noir que elas possuem.

 

Robert Rodriguez e Miller nos sets de "Sin City"

 
Em 1998, ele escreveu “Os 300 de Esparta”, que é levado às telas em 2007 sob a direção de Zack Snyder. O resto sobre a produção, bem, neste hotsite vocês podem conferir de tudo.

E pelo visto, ele pareceu ter gostado mesmo desse negócio de trabalhar em cinema. Ele atualmente está envolvido na adaptação do clássico dos quadrinhos “The Spirit”, de Will Eisner, e a continuação de “Sin City” já está em fase de pré-produção. Sabe-se que uma das histórias abordadas será “A Dama Fatal”, além de uma história inédita que Miller escreverá exclusivamente para o filme. E o negócio não pára por aí: a Warner Bros. já o incumbiu de escrever um roteiro, baseado em uma nova história épica grega, para servir de continuação para “300”.

Pelo visto, o nome de Frank Miller será muito comentado nos cinemas nos próximos anos.
 

E  O  F U T U R O ? 

 

Sabemos que no cinema, a carreira de Miller vai bem, obrigado. Mas seus últimos trabalhos nos quadrinhos não tiveram boa receptividade. Em 2005, foi chamado pela DC para abordar novamente o mundo de Batman, e, ao lado de Jim Lee, lançou “Grandes Astros Batman & Robin”, ignorando toda a cronologia oficial dos personagens. Fracasso absoluto!

E pelo visto, ele não pretende abandonar Batman tão cedo. Seu último projeto a ser anunciado foi “Batman: Holy Terror”, em que o herói enfrentará...os terroristas da Al-Qaeda de Osama Bin-Laden. Só com a premissa, os fãs estão revoltados, já prevendo um grande fracasso.

Mas, a esperança é que o velho Frank Miller de “O Cavaleiro das Trevas” volte à tona, mantendo regularidade em seus trabalhos, tanto no cinema, quanto nos quadrinhos.