G R A P H I C  N O V E L

 

"Os 300 de Esparta", publicada originalmente em 1998 pela editora americana Dark Horse é um dos melhores trabalhos de Frank Miller e isso não é pouca coisa, tendo em vista que o homem tem no currículo apenas "Demolidor: A Queda de Murdock", "Ronin", "Sin City", "Batman: Ano Um" e "Batman: O Cavaleiro das Trevas". A leitura de "300" é rápida e impactante, já que se trata de uma obra extremamente visual (mesmo para o padrão dos quadrinhos e para o padrão Frank Miller), cheia de páginas de quadros únicos e páginas duplas, poucos diálogos e muitas frases de efeito. Aproveitando a estréia de sua adaptação para a tela grande, vamos fazer uma rápida análise da Graphic Novel, tendo em mãos a versão original em mini-série da obra lançada pela Editora Abril em 1999 (os créditos das imagens abaixo são para a editora. Se quiser conferir mais dos quadrinhos, compre as revistas). Aviso que a leitura a seguir pode estragar surpresas do filme. Ainda aqui? Ótimo, não diga que não avisei.

 

C A P Í T U L O 1 - H O N R A

Conheça melhor o diretor e o elenco de “300”:

Já somos jogados no meio dos espartanos e de seus aliados rumo ao desfiladeiro das Termópilas, local onde ocorrerá a famosa batalha. Logo, notamos que Miller, ao conceber o visual dos espartanos para a HQ, se baseou na pintura de Leônidas e seus homens no desfiladeiro, feita por Jacques-Louis David, com a pouca indumentária dos soldados gregos e a forte presenças de suas capas vermelhas. O jovem soldado Stelios cai vítima do calor e do cansaço e seu capitão o castiga sua fraqueza. Ele é salvo da morte pelo Rei Leônidas, mas tem que carregar seu capitão nas costas, depois que este é derrubado pelo Rei ao não ouvir suas ordens de cessar o castigo a Stelios (ou "Stombo", como o Rei "descuidadamente" chama o jovem). Um pequeno detalhe histórico é que Stelios não poderia ser tão jovem, já que Leônidas ordenou que apenas homens que já tivessem filhos varões fossem escolhidos para a empreitada, para que nenhuma família ficasse sem o homem da casa. Após esse incidente, Leônidas ordena que os soldados sigam sem comer, para limpar sua vergonha. Essa primeira passagem já estabelece o nível de disciplina do exército espartano que Miller que passar.

A noite, o soldado Dilios reúne os homens ao redor da fogueira para contar a história de como Leônidas se tornou rei. A narrativa de Dilios sobre o confronto entre o infante que viria a se tornar rei contra um lobo é importante para a história por dois motivos: mostra o talento do soldado em contar histórias (algo que será importante para a trama) e o respeito que Leônidas tem entre seus homens. Na última parte da edição, vemos Leônidas relembrando a chegada do embaixador persa a Esparta e sua reação ao pedido de terra e água do Imperador Xerxes. Como diria Leônidas, o embaixador e seus homens encontraram toda a terra e água que queriam. A guerra começou. Aqui, Miller mostra sua marca, ao preterir o realismo em favor da história e do movimento, principalmente nos desenhos, mas isso pode ser aplicado ao roteiro também. As cores de Lynn Vallery se destacam nas suas sombras e efeitos de fogo,simplesmente maravilhosos de se ver. As três narrativas do capítulo são contadas de maneira impecável, sem enrolação e levando o leitor a mergulhar direto na ação. Uma introdução irrepreensível.

 

 

C A P Í T U L O 2 - D E V E R

 

No raiar do dia, Leônidas se recorda de sua consulta aos Éforos. Outra liberdade artística de Fank Miller ocorre aqui. Os Éferos não eram exatamente sacerdotes, mas administradores de Esparta. Eram idosos, com certeza, mas não doentes, algo que Miller usou para exteriorizar o caráter dos personagens (algo que ocorre novamente no próximo capítulo). Leônidas é impedido de guerrear em total escala contra os persas, por conta de um festival religioso e de uma previsão do Oráculo, numa cena belíssima. O caráter dos Éferos é novamente levado abaixo, mostrando-os como corruptos e pervertidos,aceitando um alto suborno de Xerxes para segurar o exército espartano. Na manhã seguinte, perante o conselho, Leônidas avisa de suas intenções de ir ao norte, somente com sua guarda pessoal, formada por 300 homens. Aqui ocorre a única aparição da Rainha Gorgo na história. No caminho, Leônidas e seus homens recebemos reforços de outros homens do mundo grego. Ao chegar nas Termópilas, eles presenciam o desembarque infeliz dos persas, numa outra cena plasticamente irretocável. A leitura segue bem nesse capítulo, que tem um ritmo mais cadenciado que o anterior. Destaco que a posição política de Miller, de um executivo forte para que se impeça a corrupção no poder legislativo, fica BASTANTE clara na passagem dos Éferos.

 

 

C A P Í T U L O 3 - G L Ó R I A

Conheça melhor o diretor e o elenco de “300”:

Somos introduzidos nesta edição a Ephialtes, nascido em Esparta mas levado para longe da polis por seus pais, que sabiam que lá ele iria ser morto após seu nascimento na inspeção, pois é corcunda (veja a parte histórica de nosso especial para informações sobre essa inspeção). Criado na região das Termólitas, ele vê nessa batalha a chance de realizar o seu sonho e lutar como um verdadeiro espartano. Enquanto isso,embaixadores persas se aproximam do acampamento espartano para negociar a rendição destes. Após verem o muro onde seus batedores ficaram, são rechaçados rapidamente. Ephialtes chega, então, ao acampamento onde, após dar informações sobre uma passagem no desfiladeiro que daria direto na retaguarda espartana, tem uma conversa franca (e potencialmente trágica) com Leônidas. Logo em seguida, temos uma das seqüências mais bacanas da HQ: a chegada do exército persa! Após a leve queda do nível do capítulo anterior, a obra começa a mostrar seu potencial verdadeiro. O trabalho de Miller e Varley na chegada dos persas e na formação espartana é espantoso!

 

 

C A P Í T U L O 4 - C O M B A T E

 
Aqui "Os 300 de Esparta" mostra a que veio. "Combate" é o capítulo mais forte da história, mostrando o primeiro dia e a primeira noite de luta entre os gregos e os persas. Sentimos-nos no meio da ação, sendo impossível parar de ler o momento da primeira batalha. Finalmente descansamos, quando chega a "tarde" e Stelios - agora respeitado pelo rei - traz a notícia sobre o contingente persa se aproximando para conversar com Leônidas. Aí temos a primeira aparição de Xerxes. Seu visual exótico, todo adornado de ouro e seu olhar ganham o leitor na hora. Seu diálogo com Leônidas é simplesmente formidável. Os dois monarcas se estudam, e Leônidas vê em Xerxes a grande chance de vencer uma batalha impossível: o persa realmente pensa que é um deus! Um erro de estratégia é tomado e uma chama de esperança surge no horizonte grego. Mas uma traição se anuncia...
 

 

C A P Í T U L O 5 - V I T Ó R I A

 
Nesse último capítulo da Graphic Novel, tudo atinge seu clímax. O desespero de um monarca e o plano de um senhor para transformar uma derrota certa na mais pungente das vitórias. Não falarei muito desse capítulo, apenas citarei algumas coisas: o papel crucial de Dilios no plano de Leônidas, a ambigüidade do traidor, a insatisfação de Xerxes com seus homens e o valor de um guerreiro. Todas as seqüências de batalha dessa edição são lindas, mas a última tem um "quê" a mais e, juntamente com os quadros em primeira pessoa (onde vemos pelos olhos de Leônidas) são o destaque visual desse capítulo que fecha, com chave de ouro, "Os 300 de Esparta".

 

 

ESPÓLIOS DA GUERRA

Em resumo: apesar de uns poucos furos fáticos, "Os 300 de Esparta" deve ser louvado como a ponte máxima entre HQs e História. Miller pode ter tomado certas liberdades poéticas, mas sempre em nome do ritmo de leitura, sem prejuízos ao leitor. Como desenhista, Miller explora ao máximo a estilização de seu traço, mostrando sua marca ao preterir o realismo em favor da história e do movimento. Nunca sua arte se comunicou tão bem coma colorização de Lynn Varley (que, detalhe, é sua esposa!). Todo e qualquer fã de HQ, aliás, de artes visuais deve ter essa obra em sua coleção.