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Metamorfose com: Russell Crowe
Data de Publicação: 02 de Dezembro de 2006
Por: Thiago Sampaio

Seja como um policial durão, um gladiador romano, um matemático esquizofrênico, e, agora, um boxeador, Russell Crowe parece vir aprimorando cada vez mais a sua técnica de atuação, quase sempre, beirando a perfeição. Ainda assim, sua fama entre os diretores nunca foi das melhores, sendo famoso pelo seu temperamento difícil e por sempre dar opiniões a respeito dos filmes em que está trabalhando. Geoffrey Wright, que o dirigiu em “Skinheads - A Força Branca”, afirma: “Ele é o ator mais rude que já conheci, mas eu não ligo se Russell quiser abusar de mim, para depois me dar uma performance sensacional”. A opinião de Ron Howard, que o dirigiu em “Uma Mente Brilhante” e em "A Luta Pela Esperança", não é diferente: “Ele é instável, imprevisível, e faz muitas perguntas, mas sempre pertinentes e difíceis de responder”. Já Ridley Scott, que o dirigiu no épico “Gladiador”, é mais sutil: “Grandes astros nunca são fáceis”. Apesar de tudo, é unânime o reconhecimento por parte dos diretores que Crowe é incansável em sua busca pela essência de seus personagens.

Deixando sua fama de encrenqueiro de lado, o que ninguém pode contradizer, é que Crowe é hoje um dos atores mais talentosos da atualidade, tanto que foi o único a conseguir igualar o feito de William Hurt (nos anos 1986,1987 e 1988) de ser indicado ao Oscar por Melhor Ator em três anos consecutivos (2000, 2001 e 2002). Mostrando sempre versatilidade e cuidado nas escolhas de seus papéis, Crowe dificilmente pisa na bola ao aceitar um roteiro, mesmo que, para isso, demore o tempo que for necessário sem atuar.

Nascido em Stathmore Park, no subúrbio da Nova Zelândia, em 7 de abril de 1964, Russell Ira Crowe mudou-se para a Austrália aos quatro anos. Seus pais faziam serviço de bufê em filmagens, e, muitas vezes, levavam Crowe com eles para o trabalho. Pulando de cenário em cenário, começava a surgir no garoto a paixão pela interpretação. Aos seis anos, foi sua mãe quem acabou conseguindo para ele um papel de figurante numa produção de TV, a série “Spy Force” (1970), em que ele está na pele de um dos trinta órfãos que seriam executados durante a Segunda Guerra Mundial, e foram salvos por um grupo de agentes australianos. Desde aquele tempo, já começava a tirar os diretores do sério, ao pegar uma das armas falsas do set e se esconder atrás dos arbustos por três horas.

Durante sua juventude, Crowe atuou em várias peças teatrais, sempre conciliando com algum outro emprego para ganhar o seu extra. Crowe trabalhou como garçom, cantor de rua e até animador em um resort. Dentre as peças em que atuou, a mais famosa foi a montagem de “The Rocky Horror Show”, que ficou anos em cartaz.

Sempre foi um grande amante da música, e chegou a tentar a carreira na área. No colegial, uniu-se ao amigo Dean Cochran e formou a banda “Roman Antix”. Aos 14 anos, gravou canções de rock dos anos 50, usando o codinome Russ Le Roq. Uma de suas composições se chamava: “I Want to Be Like Marlon Brando”, fazendo uma clara referência ao seu gosto por interpretar. Desde então, a música sempre correu em paralelo à carreira de ator. Hoje, Crowe é líder, compositor e guitarrista da banda “30 Odd Foot of Grunts”, com quem sempre sai em turnê durante os intervalos entre as gravações de um filme e outro.

Após vários testes fracassados, sua primeira chance no cinema surgiu em 1990, com “Juramento de Sangue”. Não demorou muito para que seu talento fosse reconhecido, e logo em seu segundo filme, o filme “The Crossing” (1990), de George Ogilvie, Crowe foi indicado para o Australian Film Institute, como Melhor Ator. No filme, conhecido no Brasil como "Desencontros do Amor", Crowe interpreta um jovem que vive em uma cidade do interior e disputa o amor de uma garota com o seu melhor amigo. O prêmio, ele não levou naquele ano, mas, em compensação, ganhou logo no ano seguinte, na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, pelo elogiado drama “A Prova” (1991), de Jocelyn Moorhouse. Nesse filme, Crowe vive Andy, um lavador de pratos que se torna muito amigo de Martin (Hugo Weaving), um homem cego. Andy se então torna os olhos de Martin, detalhando o mundo ao seu redor. Mas nem tudo que Andy relata para Martin é verdade, levando Martin a desconfiar dos que vivem ao seu redor.

 

No ano seguinte, chamou a atenção por seu retrato intenso e rico do rude e violento skinhead Hando, no chocante “Skinheads – A Força Branca” (1992), de Geoffrey Wright, recebendo outro prêmio do Australian Film Institute, agora na categoria de Melhor Ator. O filme é bastante denso e instigante. Não se trata de um filme-propaganda sobre os lemas dos skinheads e nem tenta tratá-los como “monstros dementes”. A supremacia branca e o racismo são absurdos que o filme não se propõe a julgar ou condenar, mas sim, a expôr.

Aos poucos, foi conquistando o público e as críticas mundiais, enquanto atuava em algumas produções australianas como: “For the Moment” (1993), “Amor no Limbo” (1993), “Silver – A Lenda do Cavalo Prateado” (1993) e “Um Caso de Amor” (1994). Neste último, Crowe interpreta um homossexual que mantém uma forte relação de amizade com seu pai, um viúvo sociável que sofre preconceito por causa de sua tolerância com a homossexualidade do filho.

 

Em 1995, foi a atriz Sharon Stone quem ajudou a trazer Crowe para Hollywood para atuar em “Rápida e Mortal”, um faroeste dirigido por Sam Raimi (o mesmo de Homem-Aranha 1 e 2), que conta também no elenco com Gene Hackman e Leonardo DiCaprio. Sharon Stone fez questão da presença de Crowe no filme, para que ele vivesse um ex-assassino que se torna pregador, tanto que chegou a adiar o começo das filmagens do filme para esperá-lo terminar de rodar “Um Caso de Amor”. Sharon Stone, inclusive, fez questão de declarar: “Russell é o homem mais sexy trabalhando no cinema hoje em dia”. Apesar de o filme ter sido um fracasso de bilheterias e críticas, abriu as portas de Hollywood para Crowe.

No mesmo ano, ainda atuou em “Viagem Mágica”, ao lado de Bridget Fonda, e na ficção científica “Assassino Virtual”, filme em que interpreta Sid 6.7, um programa de computador que escapa para o mundo real e começa a espalhar o terror pela cidade. O personagem interpretado por Denzel Washington recebe a missão de impedi-lo.

 

Em 1996, volta à Austrália apenas para gravar o filme “No Way Back – Retorno Mortal”, feito exclusivamente para a TV australiana. Em 1997, interpreta um jovem em crise amorosa em “Amor em Chamas”, ao lado de Salma Hayek. O fotógrafo Steve (Crowe) e a professora Monica (Hayek) estão vivendo exatamente essa fase em suas vidas. E está chegando o momento de definir se irão transformar sua relação em um compromisso sério ou se chegou a hora de cada um seguir seu próprio caminho.

No mesmo ano, Crowe finalmente ganhou o reconhecimento mundial, ao interpretar o policial durão Bud White, no excelente filme policial “Los Angeles – Cidade Proibida”, de Curtis Hanson. O filme mostra a cidade de Los Angeles durante os anos 50, em meio a uma trama de conspiração e corrupção policial, que atinge até o mais alto escalão, ligados a um esquema de prostitutas de luxo, no qual cada uma delas personifica uma estrela de cinema. No elenco estão: Kevin Spacey, Guy Pearce, Kim Basinger (vencedora do Oscar de Atriz Coadjuvante pelo papel da prostituta Lynn Bracken), Danny De Vito e James Cromwell. Recebeu nove indicações ao Oscar, (levando além o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante, como já foi dito), Não levou mais prêmios porque o filme concorria com ninguém menos do que o maior arrasa-quarteirão de todos os tempos : “Titanic”.

 

Buscando cada vez mais variar seus tipos de personagens, em 1999, ele atua na comédia “Esquentando o Alasca”, dirigido por Jay Roach (de “Entrando numa Fria”, e a série “Austin Powers”), com Burt Reynolds, Hank Azaria e Lolita Davidovich no elenco. Nesse filme, Russell interpreta um dos habitantes da remota e isolada Mystery, no Alasca. E, num lugar onde todos sabem tudo sobre todos, uma matéria numa revista nacional coloca Mystery sob os holofotes, fazendo com que os poderosos New York Rangers resolvam fazer uma partida amistosa contra a equipe de hóquei no local.

No mesmo ano, Crowe engordou mais de 20 quilos, chegando a pesar 110 kg, e pintou os cabelos de branco pra envelhecer seu personagem em “O Informante”, dirigido por Michael Mann (de “Colateral”), filme pelo qual interpreta o personagem verídico Jeffrey Wigand, um ex-empregado de uma das maiores indústrias de tabaco dos Estados Unidos, a Brown & Williamson, cuja vida pessoal é dragada quando ele resolve abrir toda a sujeira por trás das práticas da indústria. Al Pacino interpreta Lowell Bergman, conceituado produtor do programa “60 Minutes”, que fará de tudo para que os depoimentos de Wigand sejam exibidos. Russell Crowe dá um verdadeiro show na pele de Jeffrey Wigand, que foi, sem dúvida, a fonte de denúncia mais importante contra a indústria tabagista estadunidense e é a peça-chave do processo que, até hoje, totalizou um rombo de 246 bilhões de dólares no bolso desse comércio. O filme recebeu sete indicações ao Oscar de 2000, e Crowe recebia a sua primeira indicação na categoria de Melhor Ator em sua vida. Mal ele sabia que era apenas a primeira de três consecutivas que viriam a acontecer.

 

Em 2000, Crowe protagoniza o filme que, provavelmente, foi o mais importante de sua carreira, e que o elevou ao mais alto patamar dos astros de Hollywood: o épico “Gladiador”, dirigido pelo aclamado diretor Ridley Scott (de “Blade Runner”, e “Falcão Negro em Perigo”). O filme foi uma aposta arriscada da Dreamworks/Universal, que investiu 100 milhões de dólares em uma produção cujo roteiro sequer havia sido concluído até dias antes do começo das filmagens (o roteiro chegou a ser modificado por mais de meia dúzia de pessoas), sobre um gênero que estava fora de moda (as aventuras com espadas e sandálias), e estrelado por um ator ainda em ascensão (o papel havia sido escrito originalmente para Mel Gibson). Apesar de tudo, o resultado foi um grande filme, com uma mistura potente de ação, grandeza e melodrama. O filme recebeu 12 indicações ao Oscar, levando cinco (incluindo Melhor Filme), dentre eles, o primeiro Oscar de Melhor Ator para Russell Crowe, por sua excelente interpretação. Em “Gladiador”, Crowe interpreta o general “Maximus”, principal protetor do imperador Marcus Aurelius (Richard Harris), que é assassinado por seu filho Commodus (Joaquim Phoenix), que por sua vez, ordena que matem Maximus. Este consegue fugir, tornando-se um escravo, e, conseqüentemente, um gladiador, que possui apenas um pensamento em mente: matar Commodus e vingar a morte do imperador Marcus Aurelius.

Seu filme seguinte foi o comentado “Prova de Vida” (2000), de Taylor Hackford (de “Ray” e “Advogado do Diabo”). Comentado, não pelo filme em si, e sim, por Russell Crowe ter se envolvido com Meg Ryan durante as filmagens, e ter sido considerado o pivô da separação de vários anos de Meg Ryan com o também ator Dennis Quaid. O caso de Crowe com Meg Ryan durou muito pouco tempo (ele hoje está muito bem casado com a atriz australiana Danielle Spencer), e o filme foi um fracasso de críticas e bilheterias. Nele, Crowe interpreta um negociador de reféns freelance, que ajuda Alice (Meg Ryan) a trazer de volta seu marido, um engenheiro que foi seqüestrado por forças oposicionistas ao governo local. Este filme foi um dos poucos vacilos na carreira de Russell Crowe.

 

Em 2001, Crowe dá uma verdadeira aula de interpretação vivendo o personagem verídico John Nash no filme “Uma mente Brilhante”, de Ron Howard (“Apollo 13”). John Nash é um gênio da matemática que, aos 21 anos, formulou um teorema que provou sua genialidade e o tornou aclamado no meio em que atuava. Apesar de sua genialidade, John Nash é um homem sofrido e atormentado, que chega a ser diagnosticado como esquizofrênico pelos médicos que o tratam. A interpretação de Crowe é tão perfeita, que nos faz sentir na veia todo o sofrimento e a loucura de Nash, deixando a impressão, de que em nenhum momento há atores no filme, e sim, o verdadeiro John Nash e suas dores. O filme ganhou quatro Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Connelly, e Melhor Roteiro Adaptado). Porém, neste mesmo ano aconteceu a maior injustiça de toda a história do Oscar, pois nunca havia tanta certeza de que um prêmio já era certo: o de melhor ator para Russell Crowe, com toda razão. A academia acabou surpreendendo a todos e deu o prêmio a Denzel Washington, por “Dia de Treinamento”. Tudo bem que Washington tenha feito um grande trabalho em “Dia de Treinamento”, mas a interpretação de Crowe foi única e marcante. Rumores indicam que a Academia quis bancar a “politicamente correta” dando os prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz para dois atores negros (Halle Berry venceu aquele ano por “A Última Ceia”), um fato inédito até então. Já outros rumores indicam que a fama de encrenqueiro de Crowe fora das telas tivesse criado uma antipatia por parte da Academia, que resolveu não lhe dar o prêmio. Apesar de tudo, nada disso tirou o prestígio de sua perfeita atuação, e o valor deste grande filme.

 

Em 2003, atuou em outro grande filme, a aventura “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo”, indicada a dez Oscar (incluindo Melhor Filme). Nele, Crowe interpreta Jack Aubrey, capitão do H.M.S. Surprise, um dos principais navios de guerra da marinha britânica. Com seu país em guerra contra a França de Napoleão Bonaparte, Aubrey é atacado por um navio inimigo mais poderoso, que fere boa parte de sua tripulação e ainda danifica o navio. Aubrey então se sente dividido entre cumprir seu dever e tentar derrotar o inimigo, ou retornar para cuidar dos feridos. O filme rendeu a Crowe uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator-Drama.

Este ano o ator pode ser visto em “A Luta Pela Esperança” (Cinderella Man), dirigido por Ron Howard (“Uma Mente Brilhante”). Novamente, ele interpreta um personagem real, Jim Braddock, um lutador de boxe famoso durantes os anos 20-30 que, por ser muito pobre e virar uma celebridade por ganhar lutas consideradas impossíveis, recebe o apelido de “Cinderela”. Renée Zellweger vive a sua amada, e Paul Giamati (de “Sideways”), seu treinador.

 

Em 2006 e 2007 ele retoma a parceria vitoriosa de "Gladiador" com o diretor Ridley Scott em nada menor que dois filmes. O primeiro é o drama "Um Bom Ano". Ele vive Max, um bem-sucedido homem de negócios. Certo dia Max recebe a notícia de que seu tio Henry morreu, deixando-o como único herdeiro. Prevendo bons negócios, resolve fazer uma rápida viagem para visitar a nova propriedade. Mas, uma vez ali, percebe que não será tão fácil vender o lugar que lhe traz tantas lembranças de infância.

Em "American Gângster", ele contracena com Denzel Washignton. Conta a história do rei do tráfico de heroína Frank Lucas (Washington) e o policial Richie Roberts (Crowe), que comandou uma força tarefa federal e trouxe Lucas à justiça.

 

Digam o que quiserem a respeito de seu temperamento, mas Russell Crowe tem mostrado até agora que, como profissional, é capaz de devolver todos os maus comentários em forma de grandes interpretações, e atuando em produções que diversos astros consagrados dariam o sangue para estarem nelas. Com certeza, ele já deixou sua marca como um dos melhores astros desta atual fase do cinema, interpretando os mais diversificados tipos de personagens. Como disse o ator David Caruso, seu parceiro de cena em “Prova de Vida”: “Cada geração tem um ator que deixa uma marca que muitos almejam alcançar. Sem dúvidas, Russell é um deles”. Esta afirmação, nem o mais fervoroso crítico é capaz de negar.

 
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