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Metamorfose com: Fernanda Montenegro
Data de Publicação: 24 de Junho de 2005
Por: Beatriz Saldanha

Quem imaginaria que a mirrada menina Arlette Pinheiro Esteves da Silva, descendente de portugueses e italianos, seria uma das maiores atrizes de seu tempo? “Fernanda Montenegro”, nome que nos traz inspiração, seria uma mistura de personagens de Balzac ou Proust com o sobrenome de um médico homeopata que sequer chegou a conhecer, mas que, como era dito, fazia milagres.

Fernanda Montenegro é uma multi-artista: trabalhou em rádio, em mais de 170 teleteatros, dezenas de novelas e seriados e, recentemente, anda dando continuidade às suas aventuras pelo mundo cinematográfico. Foi em sua estréia no teatro, na peça “Alegres Canções nas Montanhas”, que a nossa Fernanda conheceu a parte que faltava em si, Fernando Torres, o seu esposo para toda a vida. Juntos tiveram filhos de carreiras notáveis, a atriz Fernanda Torres e o cineasta Cláudio Torres. A partir de 1963, Fernanda começa a participar de telenovelas, mas apenas dez anos mais tarde a sua presença chamou a atenção do grande público. Atuou em inúmeras novelas. As mais marcantes, “Guerra dos Sexos”, “Cambalacho” e “Rainha da Sucata”, foram dirigidas por Sílvio de Abreu. Outros nomes inesquecíveis que estão em sua carreira são: “Baila Comigo”, “Riacho Doce”, “Zazá”, “Incidente em Antares”, etc, mas a televisão não é suficiente para esta mulher de inúmeras faces, ou, como diz um crítico renomado sobre a sua enorme capacidade de expressar-se e adaptar-se às personagens, esta mulher do “rosto de borracha”.

Em 1964 Fernanda Montenegro fez a sua primeira aparição no cinema, na adaptação da obra de Nelson Rodrigues, “A Falecida” (dez anos antes, houvera feito apenas uma dublagem, no filme “Mãos Sangrentas”), em que interpreta Zulmira, uma mulher que possui uma obsessão, no mínimo, curiosa. Ela é obcecada com a morte e deseja um enterro luxuoso em compensação pela péssima vida que leva no subúrbio do Rio de Janeiro. Sem desistir facilmente, ela acaba por contrair uma doença e parte em busca do funeral com que sempre sonhou. Quase dez anos depois, em “Joanna Francesa” (1973), de Cacá Diegues, Fernanda retorna ao cinema emprestando a sua voz. No filme, a atriz francesa Jeanne Moreau (“Jules e Jim – Uma mulher para dois”) é Joanna, dona de um prostíbulo em São Paulo. Um cliente de outro estado a leva para a sua fazenda, onde ela se depara com costumes desconhecidos, e acaba assumindo a liderança daquela família. “Joanna Francesa” é um filme premiado e aclamado mundialmente, e conta com a maravilhosa trilha sonora de Chico Buarque e Roberto Menescal.

 

Como Elvira, em “Tudo Bem” (1978), de Arnaldo Jabor, Fernanda é a mãe de uma família de classe média. O resto dos parentes, composto por um elenco soberbo, conta com uma filha que com nada se importa, além de buscar o marido; um filho oportunista; duas empregadas bastante distintas e um esposo que vive cercado dos espíritos de falecidos amigos. Elvira tem de lidar ainda, com a impotência do marido e a desconfiança de estar sendo traída. Tudo começa a piorar quando o apartamento da família entra em reforma e os operários responsáveis passam a conviver com esse grupo tão peculiar. Podemos dizer que a primeira realização de Fernanda no cinema fora o filme seguinte, “Eles não usam Black-Tie” (1981). Ao lado de Gianfrancesco Guarnieri (também responsável pelo roteiro), Fernanda Montenegro assume o papel de Romana. Ela é casada com Otávio, um velho militante sindical a quem o filho, um jovem operário recém-casado, recorre ao enfrentar problemas quando fura uma greve, temendo perder o emprego.

 

Dirigida por Suzana Amaral, Fernanda atua em “A Hora da Estrela” (1985). O filme é baseado na obra homônima da genial Clarice Lispector. Macabéa é uma imigrante nordestina que vive de forma miserável na grande São Paulo. Ela conhece Olímpico de Jesus, também imigrante, e com ele começa um namoro. Fernanda Montenegro aparece no elenco do filme como Madame Carlota, uma cartomante que aconselha a uma colega de Macabéa que tome o seu namorado, Olímpico. Mais tarde, a desafortunada Macabéa também a consulta. A cartomante vê para ela a chegada de um homem rico e bonito. Novamente em um filme de Carlos Diegues, Fernanda atua em “Veja esta canção” (1994). O filme é dividido em quatro episódios nomeados com músicas populares de nosso país: “Pisada de elefante”, “Drão”, “Você é linda” e “Samba do grande amor”. A nossa homenageada se encontra no último episódio, que é inspirada na linda música do nosso cancioneiro Chico Buarque. Cada uma das quatro estórias possui um gênero diferente, mas sempre abordando o amor.

 

Fernanda faz uma pequena participação em “O que é isso, companheiro?” (1997), de Bruno Barreto. Uma participação pequena e que causa antipatia nos espectadores, pois a sua personagem, Dona Margarida, denuncia os rebeldes do MR-8 à polícia logo no início do filme. “O que é isso, companheiro” é baseado no livro que conta a estória real de Fernando Gabeira, jornalista, que participara do movimento. No filme, os militantes do MR-8 (composto por um elenco divino) seqüestram o embaixador dos Estados Unidos para chantagear o governo de forma que este solte os seus companheiros, prisioneiros políticos que eram torturados de modo desumana nos porões da ditadura. Um ano mais tarde viria a sua segunda realização no cinema. Em “Central do Brasil” (1998), uma das belas obras de Walter Salles, Fernanda interpreta Dora, uma ex-professora. Dora abandonou as escolas e passou a ganhar dinheiro redigindo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, localizada no Rio de Janeiro. Ao ser solicitada para escrever a carta de uma mulher para o seu fugidio marido, Dora se depara com um menino, Josué. Como em uma bonita parábola sobre o egoísmo humano, o destino do sonhador Josué é cruzado com o de Dora, que é uma mulher pretensiosa e já sem esperanças na vida. “Central do Brasil” é um filme maravilhoso em todos os aspectos, e, como prova disso, foi premiado mundialmente, trazendo fama à Fernanda e ao seu condutor, Walter Salles.

 

Novamente em um filme baseado numa peça do dramaturgo Nelson Rodrigues (a anterior fora “A Falecida”), Fernanda Montenegro atua em “As Gêmeas” (2000), ao lado da filha Fernanda Torres, sendo dirigida pelo atual genro Andrucha Waddington. O drama, ambientado nos anos 80, mostra Iara e Marilena, irmãs gêmeas, que se divertem com os homens, uma fingindo ser a outra. As duas começam a enfrentar um grave problema quando se apaixonam pelo mesmo homem e vão até o fim para disputar o seu amor. Fernanda Montenegro dá o ar de sua graça como a mãe das problemáticas gêmeas. Ainda em 2000, a minissérie “O Auto da Compadecida”, que fora exibida na TV um ano antes, tornou-se filme. Esta adaptação da fabulosa obra homônima do mestre Ariano Suassuna foi um sucesso quando mostrada na televisão e também nos cinemas. “O Auto da Compadecida” , como nos é sabido, mostra a saga do preguiçoso Chicó e do esperto João Grilo, que, juntos, arrumam os piores problemas e têm de enfrentar de cangaceiros a donos de terras. Fernanda faz uma participação mais do que especial: ela chega a nós como Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo. Caberá à ela decidir o que será do destino dessa dupla, principalmente do amarelo João Grilo.

 

Em “Olga” (2004), que narra a estória da militante Olga Benário, Fernanda Montenegro retorna às telas na pele de Leocádia Prestes, mãe do líder da Intentona Comunista, Luís Carlos Prestes. “Olga”, que possui a direção do noveleiro Jayme Monjardim, é uma das produções mais caras da filmografia brasileira, e levou uma multidão aos cinemas. Sempre maravilhosa, em “O Outro Lado da Rua” (2004), Fernanda interpreta Regina, uma senhora aposentada que, na ânsia de ser útil a alguém, presta um serviço à polícia: utilizando um par de binóculos, ela bisbilhota de sua janela atos que possam parecer suspeitos e os denuncia. Certo dia, ela vê um homem matar a sua esposa, mas a morte desta é dada como causa natural. Para provar o que disse, Regina passa a investigar o caso por conta própria. Já não bastasse a presença de peso de Fernanda Montenegro, o filme ainda conta com Raul Cortez no papel principal.

 

Dirigida pelo filho e novamente atuando ao lado da filha, Fernanda Montenegro retorna às telonas em “Redentor” (2004). No filme, Pedro Cardoso vive Célio Rocha, um jornalista que recebe de Deus a missão de convencer um colega de infância, um construtor corrupto e ambicioso, a ser mais solidário com os desafortunados. Sem parar um só minuto, Fernanda Montenegro, aos 76 anos e eternamente esplêndida, volta a ser dirigida pelo genro, Andrucha Waddington. Em “Casa de Areia”, Fernandas, mãe e filha, se alternam na interpretação das personagens. O filme conta a saga de Áurea, uma mulher sonhadora, que possui apenas a companhia de sua mãe. Enquanto as duas seguem em busca de um destino melhor, acabam conhecendo Massu, que virá a ser o grande companheiro destas duas sofridas mulheres.

 

Essa homenagem em nosso espaço é o que faltava para ele tornar-se mais completo e é apenas o que podemos oferecer à essa atriz, que, a cada dia nos traz mais orgulho e encantamento. Esta é Arlette, Fernanda, a mulher de muitas faces, a mulher do rosto de borracha.

 
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