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11 de setembro: política e guerra por Stone e Greengrass
Data: 17 de Outubro de 2006
Por: Pedro Martins Freire
 
Manhã de 11 de setembro de 2001. Dois aviões comerciais chocam-se contra o World Trade Center, um terceiro contra o Pentágono, numa ousada missão de seqüestro de terroristas suicidas da Al Quada, liderada pelo saudita Osama Bin Laden. Um quarto avião, o vôo 93 da United Airlines, também seqüestrado, poderia ter atingido o Capitólio ou a Casa Branca caso não tivesse saído com 40 minutos de atraso e os seus passageiros recebidos informações sobre os atos terroristas em andamento e promovido uma rebelião a bordo. Cinco anos depois da tragédia, dois filmes, United Vôo 93, do irlandês Paul Greengrass, e As Torres Gêmeas, do americano Oliver Stone, reconstituem os acontecimentos como uma situação-limite tendo por base fatos e personagens reais transformados em história. E vão além da simples reconstituição. São obras de cunho político e histórico, expondo os EUA como uma nação em cenário de guerra.

Os Estados Unidos da América é um país em guerra. Esta é a primeira convicção que se tem, após assistir, cronologicamente, a United Vôo 93 e As Torres Gêmeas, em cartaz na cidade A nação que mais guerras promoveu fora de suas fronteiras, além de ter gerado ações de espionagem e até o intervencionismo em nome de seus interesses disfarçados de “salvaguardar a democracia”, apanhada de surpresa, vê-se perplexa, despreparada e impotente diante da selvageria de um inimigo distante, o grupo terrorista Al Quada, e de um ato anunciado pelos órgãos de espionagem mas não levado à sério: o seqüestro de aviões comerciais.

Os dois filmes promovem a reconstituição não apenas de um fato, mas da própria História, cujo ato motivaria, a partir dali, uma mudança de comportamento na grande nação americana. No processo interno, a sociedade passaria a ser tomada pelo medo; no processo externo, a fomentação de uma guerra de ocupação no pretenso campo inimigo, no Afeganistão e no Iraque. O presidente americano, George W. Bush, no instinto do revide, faz adentrar no Afeganistão seu poderio bélico com a meta de “exterminar a Al Quada”, e, para invadir o Iraque, cria o subterfúgio da ameaça “das armas de destruição em massa” em poder do ditador Saddam Hussein para legitimar suas ações. Na realidade, no entanto, ambos são instrumentos para a posse do bem essencial dos tempos modernos, o petróleo, e implantação do plano de hegemonia americana no planeta.

Mas, como toda reação promove uma outra ação, ocorreu uma desenfreada escalada da violência. Como resultado, o terrorismo ganhou novas formas e poder, espalhando células pelo mundo e ampliando o ódio aos EUA especialmente no Oriente Médio. Para complementar o quadro negro da contemporaneidade, um Papa desastrado em suas falas atiça o ódio em outro campo, o da religiosidade, o qual, nesse Oriente Médio, predomina à sombra do fanatismo, ampliando as ameaças sobre o Ocidente.

11 de setembro não é, historicamente, o fim de algum período da política americana, mas o início de uma era em que o Ocidente se configura como o grande vilão do mundo para o Oriente. Nunca, na histórica rivalidade entre os dois continentes, a ameaça, a revanche e o ódio ficaram tão vivos e latentes. Vive-se, hoje, uma terceira guerra mundial não declarada.

O ataque terrorista aos monumentos norte-americanos em 11 de setembro expressa o ódio e o menosprezo do lado radical do Oriente ao Ocidente. De certa forma tem a mesma dimensão do ódio destruidor entre palestinos e israelenses. Os dois filmes nada mais fazem do que revelar o concretismo desse ódio, expondo uma guerra cuja duração não data para acabar.

Tanto United Vôo 93 quanto As Torres Gemas, dois filmes ligados pelo mesmo cordão umbilical de abordagem a um mesmo momento e processo histórico, evidenciam a vivência dessa guerra pelo povo americano. Ao falar sobre seu filme, Oliver Stone fala ter se inspirado em A Batalha de Argel (1965) – a notável e clássica obra do italiano Gillo Pontecorvo sobre a revide à ocupação francesa na Argélia –, para contar a tragédia do World Trade Center.

Paul Greengrass, um cineasta voltado à reconstituição histórica – vide o contundente e vigoroso Domingo Sangrento (2002), sobre o massacre de dezenas de civis irlandeses do norte por soldados ingleses em 1972 –, afirma ter se baseado “nos registros oficiais e na memória dos envolvidos”. Ou seja, na história.

E quem pensa que os filmes não são políticos, basta relembrar dois aspectos gerados dentro dos EUA pelos atos terroristas: 1. A mudança do conceito de medo, agora mais apegado ao terror (reforçado pelo “efeito terrorismo”), o qual está levando o povo à xenofobia, e; 2. A supressão dos direitos do cidadão pelo Estado em nome da segurança. Portanto ambos os filmes inserem-se dentro da história e da política.

Greengrass começa seu Vôo 93 de forma desconcertante. Os terroristas lêem o Corão enquanto intercala as imagens do cotidiano do aeroporto. A câmera trepidante comportando-se com a de cinegrafista de TV, ajuda a instalar o clima de tensão. A ousadia do diretor em reconstituir a realidade daquela manhã de terça-feira vai além da dor. Em busca da autenticidade são recriados até mesmos os diálogos registrados entre os centros de operações aéreas, as torres de comando, as comissárias com pilotos das aeronaves e dos passageiros com seus familiares.

Ao integrar grande parte dos familiares das vítimas ao elenco (uma das exceções é David Rasche, da tele-série Na Mira do Tira), assim também como os controladores de vôos que trabalharam naquele dia nos aeroportos de Boston, Cleveland e Nova York, incluindo Ben Sliney – que naquele dia assumia a direção da Administração Federal da Aviação e teve de tomar praticamente sozinho a decisão de colocar em terra todos os aviões no ar e cancelar as decolagens –, Greengrass foi bem sucedido. Mas a originalidade de seu filme consiste em ter sido concebido em tempo real – estão lá os 81 minutos de vôo do Boing da United Airlines, desde a partida (com 40 minutos de atraso) do aeroporto de Newark, na Califórnia, até a sua queda num campo de Pensylvania. Os mortos assumem a dimensão de heróis.

Oliver Stone, por sua vez, deixa de seu lado seu descontentamento para com a sua própria nação – característica de sua filmografia – a fim de tratar da dor e da tragédia que a marcavam naquele momento histórico. E trata essa tragédia sob a ótica do humanismo e a dor como heroísmo. Mas, mesmo ao limitar os acontecimentos a dois aparentes microcosmos - o poço do elevador onde os policiais John McLoughlin (Niolas Cage) e Will Jimeno (Michael Peña) sobrevivem, seis metros abaixo da área dos destroços da implosão das Torres Gêmeas, e aguardam durante 12 horas, o resgate praticamente impossível e só concretizado graças a um fuzileiro, Dave Karnes (Michael Shannon); e ao âmbito das famílias em suas vivências de um angustiante processo de espera -. o filme não deixa de dar a verdadeira dimensão da tragédia que foi o dia 11 de setembro.

No entanto, Stone sentimentaliza demais as cenas dramáticas da espera das famílias por notícias e mais ainda em seus reencontros com os soldados sobreviventes. Como todo cineasta americano, Stone ainda vê a família como o mais alto e sólido patamar da sociedade. Não podia ser diferente. É a prova da coerência desse diretor que expôs outra guerra, a do Vietnã, sob o âmago da família em Nascido em 4 de Julho (1990).

Assim como Greengrass, Stone utilizou familiares e sobreviventes do World Trade Center, dezenas de policiais, bombeiros e paramédicos para realizar As Torres Gêmeas. A concepção com a qual foram feitos faz com que exalem a realidade. O Cinema deve ser mesmo, em sua essência, a retratação da realidade, como expressa Deleuze. Mas em seu processo artístico deve conter a história e a política, elementos indispensáveis para a formatação dessa realidade...

Tanto As Torres Gêmeas quanto United Vôo 93 tratam o dia 11 de setembro sob o olhar da história e da política. Vê-los de outra forma é desperdiçar o olhar crítico que devemos ter não apenas dos filmes, mas igualmente do cotidiano político o qual vivenciamos - marca da contemporaneidade -, e que se transforma em história. Vistos assim, As Torres Gêmeas e United Vôo 93 sinalizam os EUA como um país perplexo apanhado de surpresa pela guerra distante dentro de suas fronteiras. Para expor a selvageria do terrorismo os dois cineastas transformam a tragédia de 11 de setembro em atos de heroísmo e humanismo de seus protagonistas. Peter Greengrass e Oliver Stone souberam dar essa dimensão às suas obras. Uma trágica que precisava ser contada como ela realmente é: um momento de mudança na História.

Vôo United 93 (United 93, EUA, 2006), de Peter Greengrass. Com Christian Clemerson, Trish Gates e Ben Sliney. 111 minutos. 14 anos. Universal.

As Torres Gêmeas (World Trade Center, EUA, 2006), de Oliver Stone. Com Nicolas Cage, Michael Peña e Maria Bello. 129 minutos, 12 anos.


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