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Conheça a carreira do cineasta Phillippe Barcinski
Data: 31 de Agosto de 2007
Por: Maíra Suspiro
 
Phillippe Barcinski faz parte dos diretores “trintões” do cinema nacional. Iniciado na área com alguns curtas-metragens, recentemente lançou seu primeiro longa, “Não Por Acaso”. Carioca “radicado” em São Paulo há dez anos, o estilo de Barcinski traz um ar novo para a produção nacional. Como dito pelo próprio diretor, ele busca “uma união entre o experimental e o comercial”.

Característico por brincar com a memória e a lógica, ele pretende “achar uma forma que não seja meramente narrativa, passiva.” Utiliza todos os recursos de linguagem para passar a sensação de uma personagem, sem desprezar a história. Seria ousado dizer que ele é um dos melhores diretores brasileiros da época, mas certamente podemos dizer que ele é um “sangue novo” que em muito pode contribuir na inovação das perspectivas nacionais.

Fã de Stanley Kubrick e Roman Polanski, Phillippe Barcinski tem como referenciais de formação no cinema brasileiro, filmes como “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, “Deus e o Diabo”, de Glauber Rocha, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sgazerla e “Bang Bang”, de Andréa Tonacci.

O cineasta iniciou seu relacionamento com o cinema aos 14 anos, quando trabalhou como estagiário de direção no filme “Leila Diniz” (1987), de Luiz Carlos Lacerda. E não parou por aí. Enquanto universitário, dirigiu seus primeiros curtas-metragens. São eles: “A Escada” (1996) e “A Grade” (1997), que renderam diversos prêmios ao diretor principiante, como “Melhor Filme” no Festival de Brasília e “Prêmio Especial do Júri” no Festival de Gramado.

“O Postal Branco” (1997) é outro curta dirigido por Barcinski, que conta a história de um carteiro que recebe um estranho cartão-postal. “Palíndromo” (2002) e “A Janela Aberta” (2001) são outros dois projetos do diretor, ambos curtas-metragens que somaram mais de 40 prêmios em festivais, como o de Chicado, São Franscisco, México, além de ter participado dos festivais de Cannes, Berlim, Clermont-Ferrand e Londres. E como se não bastasse ter ganhado e participado de festivais, os dois filmes foram vendidos para mais de 10 canais de televisão, como o Canal Brasil, Chanel Plus, Channer Four e Sundance Channel.

“Janela Aberta” traz um indivíduo paranóico que tenta lembrar se fechou ou não a janela e, a partir daí, começa a reunir as lembranças dos últimos dias, de forma progressivamente confusa e surpreendente.

“Palídromo” é um projeto audacioso que conta o dia conturbado de um homem que perdeu o emprego e a amante. A “cereja” do curta é que ele é contado de trás para frente. A intenção genial do filme é mostrar que a história poderia ser contada em qualquer sentido, tal qual em um palíndromo (quando a palavra pode ser lida da mesma forma na ordem direta ou inversa). Sobre a produção do curta, Barcinski começou a rodar praticamente sem dinheiro algum, contando com o apoio de amigos. Para conseguir o efeito “de trás para frente”, dispensando aquele estilo de rebobinação, ele usou um negativo de 16mm com dupla perfuração (o normal tem apenas uma) e filmou com a câmera de ponta cabeça. Uma engenharia trabalhosa que valeu a pena pelo fantástico resultado.

O último projeto finalizado de Phillippe Barcinski é o longa-metragem “Não Por Acaso”, que conta com Rodrigo Santoro ("Abril Despedaçado"), Letícia Sabatella ("Bela Donna") e Kássia Kiss ("Bicho de Sete Cabeças") no elenco, atores consagrados, como também Leonardo Medeiros ("Lavoura Arcaica"), que chega a ofuscar os outros, assim como as iniciantes Rita Batata e Branca Messina. O enredo entrelaça a história de três personagens obcecados por controle e “cada vez que uma delas entra em cena, a linguagem muda”, afirma o diretor.

Comparado aos demais trabalhos, “Não Por Acaso” é mais suave. É óbvio que existe diferença de roteiro, ritmo e enredo entre um longa e um curta-metragem, mas isso não torna esse trabalho de Barcinski, experiente em curtas, um produto sem raízes. O que acontece é que a camada experimental, mais densa, se entrelaça com o melodrama.

O longa desenrola-se com os personagens Pedro (Rodrigo Santoro), Teresa (Branca Messina), Iolanda (Kássia Kiss), Lúcia (Letícia Sabatella), Ênio (Leonardo Medeiros), Bia (Rita Batata). Todos caracterizados de forma bastante real, como se fossem pessoas que passam despercebidas no nosso cotidiano. Entretanto, a melhor personagem de “Não Por Acaso” nem entra nos créditos, e a ela deve se dar uma atenção devida. Estou falando da cidade, da capital São Paulo.

Certamente, o filme seria diferente se fosse filmado em outra locação. Barcinski escolheu brilhantemente a cidade, e sua direção nos faz perceber detalhes simples que até já foram vistos por nós, mas nunca realmente notados. O trânsito, os carros, os acidentes. Os detalhes de direção, fotografia e roteiro costumam ser bem trabalhados nos projetos de Barcinski.

Mesmo tendo receado não conseguir equilibrar o desafio formal com uma narrativa altamente emocional, depois de três anos escrevendo o roteiro, Phillipe Barcinski conseguiu um filme que fica na fronteira entre o cultural e o comercial. Sendo intenso, sem abusar de nada, utilizando as sutilezas, Barcinski desenvolveu trabalhos belíssimos que merecem ser conferidos. Pela criatividade, pela sensibilidade e pela curiosidade.




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