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Documentários se destacam na Mostra de São Paulo
Data: 22 de Outubro de 2007
Por: Andressa Back, direto da 31ª Mostra de Cinema de SP
 
O domingo, 21, na Mostra Internacional de Cinema começou com "Império dos Sonhos" (Inland Empire, 2006 - pôster abaixo), a mais recente viagem de David Lynch. O filme remete à Hollywood sombria e aterrorizante que Lynch retratou em "Cidade dos Sonhos". Nikki Grace, personagem de Laura Dern, é uma atriz que consegue um papel num filme envolto em mistérios. A princípio, as imagens em borrões e os três personagens com cabeça de burro nos colocam no universo confuso do cineasta.

A trama passa por um período mais compreensível, quando a história de Nikki e do filme é introduzida. Logo mais, submergimos completamente nos delírios, sonhos – ou seja lá o que se passa na cabeça de Nikki – enquanto ela transita entre o presente e o futuro. Ela sabe o que vai acontecer, graças a uma lenda polonesa profetizada por uma macabra senhora. Ela diz a Nikki que o filme é uma história de um assassinato brutal. Nikki diz que a senhora deve estar enganada.

A partir daí, o filme se assemelha a um terror do tipo "A Bruxa de Blair". Feito em vídeo e cheio de experimentalismos, os quais nem o próprio Lynch poderia prever o resultado, ajudado por uma equipe de recém formados em cinema, pode-se dizer que o filme é feio. Além disso, fica aquém de "Cidade dos Sonhos" em muitos aspectos. O roteiro não é tão interessante e em alguns momentos o filme é sacal. Por outro lado, não deixa de ser interessante o fato de se tratar de um experimento, algo muito válido. Mas o ingresso só vale para quem realmente gosta das viagens de Lynch e para quem não se incomodar caso não entenda quase nada do filme. Apesar disso, o desfecho ensaia uma explicação para os vários pontos aparentemente sem nexo – até as pessoas com cabeça de burro.

O dia é, sem dúvidas, dos documentários. A começar pelo francês "De Volta à Normandia" (Retour en Normandie, 2007). O objeto do filme é minimamente curioso. Trata-se de um filme sobre outro filme e sobre a produção desse primeiro filme. A equipe do diretor Nicolas Philibert vai à Normandia em busca das pessoas que atuaram no filme "Eu, Pierre Rivière...", de René Allio. O filme conta a história do personagem-título, que ocorreu em meados do século XIX. O tal Pierre matou a mãe, uma irmã e um irmão e justificou o crime como ordem divina, porque a mãe não era honesta com o pai. Michel Foucault foi apenas uma das pessoas célebres que se interessou pelo caso, que rendeu uma série de publicações, versando sobre a sanidade mental de Pierre.

René Allio quis contar a história do rapaz com não-atores da própria região e o trabalho de Philibert é ir atrás das pessoas que participaram do filme 30 anos antes. Aos poucos ele expõe a história de Rivière, com leituras do diário dele, do processo que o acusou, insere cenas do filme e fotografias da época. Sempre com os intrigantes depoimentos das personagens contando a experiência de fazer o filme e exprimindo pontos de vista sobre o próprio Pierre. A questão sobre a sanidade mental dele continua em aberto, não há julgamento sobre o comportamento de Rivière. O trabalho refinado de Philibert inclui cenas com porcos. A seqüência inicial apresenta o nascimento frio e doloroso de leitões. Mas há, também, o brutal abate de um porco, cenas emblemáticas no contexto do filme, que trata da história de um parricídio.

Não tão refinado, mas sarcástico ao extremo é o novo filme do mais popular documentarista da atualidade, Michael Moore. Em "SOS Saúde" (Sicko, 2007), Moore investiga os seguros de saúde norte-americanos. Com um senso de humor debochado, ele tira o foco de George Bush. É claro que algumas alfinetadas aqui e ali aparecem. Do contrário, não seria Moore. Primeiro ele apresenta pessoas indignadas com os horrores que passaram por causa dos planos de saúde malévolos, ávidos por lucro, que possuem. Aos poucos, ele introduz funcionários de seguradoras, que revelam os bastidores sujos do processo. Então, Moore sai dos Estados Unidos, passa pelo Canadá e depois vai à França e à Inglaterra, para comparar os sistemas de saúde destes países com o norte-americano.

Vale lembrar que nesses países citados o sistema de saúde é universal e gratuito. O bom humorado Moore arranca gargalhadas da platéia tratando de um tema bastante sério. Volta e meia surgem pessoas contando sobre parentes que morreram em conseqüência da burocracia dos planos de saúde. Três dos personagens que ele utiliza são voluntários que trabalharam nos escombros do World Trade Center e que, como não eram funcionários do governo, não receberam auxílio pelos danos causados à saúde.

O melhor momento é quando ele resolve ir a Guantánamo, após constatar que o pessoal da Al Qaeda possui um tratamento de saúde cinco estrelas. Moore consegue debochar do governo e, em outro momento hilário, faz com que o dono do maior site anti-Moore dos EUA se contorça de raiva. Apesar disso, o diretor peca ao enaltecer apenas pontos muito positivos dos outros sistemas de saúde que não o norte-americano. Soa como se tudo fosse perfeito e, por isso, soa falso. Mas é válido enquanto denúncia e como apelo a um sistema universal de saúde nos EUA. As ironias são deliciosamente divertidas.




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