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Romances são destaque na Mostra de Cinema de SP
Data: 23 de Outubro de 2007
Por: Andressa Back, direto da 31ª Mostra de Cinema de SP
 
"Um Amor Jovem" (The Hottest State, 2006) é uma produção do ator-diretor Ethan Hawke. O título em português é bem apropriado. William é um rapaz de 20 anos que se apaixona facilmente por Sarah, uma mulher que não quer se prender a ninguém. O roteiro também é trabalho de Hawke, que já havia sido co-roteirista de "Antes do Pôr do Sol", romance muito bem engendrado.

O filme, que está em competição na Mostra Internacional de São Paulo, representa quase que o primeiro amor, especialmente para William. Já Sarah é um tanto amargurada e temerosa na relação, pelo que passou em experiências anteriores. O filme é uma graça, repleto de diálogos charmosos, com personagens distantes de clichês do gênero. A trilha sonora funciona bem para embalar um romance.

Sonia Braga faz a mãe de Sarah. Assim que aparece em cena, incorporando uma mãe um tanto controladora, faz a platéia cair na risada. Catalina Sandino Moreno e Mark Webber têm uma dinâmica boa como casal, o que contribui muito para o resultado final. Ambos parecem pessoas comuns – e muito interessantes, exatamente por isso. Em um determinado momento, William diz que Sarah não é uma mulher sarada, que se irrita com o fato de ela querer ser muito inteligente o tempo todo, como se fosse um recalque, mas que isso é um charme. Ambos são retratados com seus defeitos e qualidades, de modo que o espectador apenas acompanha aquela história que, independente de ter um final feliz, já vale a pena.

Agora um filme brasileiro, o vencedor do Festival do Rio, apontado pelo júri popular, "Estômago" (2007). Trata-se de uma adaptação do conto “Presos pelo Estômago” do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim", de Lusa Silvestre. O nome do conto é emblemático. É a história de Raimundo Nonato, nordestino que procura a sorte em São Paulo. Ele começa a lavar panelas, fazer coxinhas e pastéis num botequim em troca de casa e comida. As coxinhas de Nonato logo fazem sucesso, e é pelo estômago que ele prende a prostituta Iria.

A boa mão para cozinhar leva Nonato à cozinha do restaurante Boccaccio. Ele continua com Iria, que diz ter nascido com fome e que desde então nunca passou. A história não é narrada linearmente. A montagem intercala cenas de Nonato no restaurante e na cadeia, onde ele também há de prender gente pelo estômago. Mas lá ele não é Nonato e sim Alecrim. A revelação do motivo que levou Nonato à cadeia é o clímax do filme, mas aqui não cabe fazer revelações.

É interessante como uma pessoa extremamente simples como Nonato tem a sensibilidade para lidar com as especificidades da cozinha, o que gera situações muito engraçadas, como a comparação entre o bumbum e o filet mignon, a melhor parte da mulher e a melhor parte do boi. Ao que Nonato replica: “filet mignon é a bunda do boi?”. O queijo gorgonzola, naturalmente bolorado, também rende cenas ótimas, assim como o apetite insaciável de Iria.

Os atores, claro, garantem o tom hilário do filme. O protagonista João Miguel ganhou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio, assim como o diretor Marcos Jorge. Contudo, o trabalho de Fabiula Nascimento também merece ser elogiado. O filme marca uma parceria inédita entre Brasil e Itália em produção de cinema. E tudo funciona bem no filme. A trilha sonora, a montagem, o roteiro. "Estômago" realmente prende a platéia de uma tarde de segunda feira chuvosa em São Paulo. Os espectadores elogiam pessoalmente a produtora Cláudia da Natividade e a atriz Fabiula do Nascimento, que apresentaram pessoalmente o filme.

Para fechar o dia, o esperado "Lust, Caution" (Se, jie, 2007 - foto), de Ang Lee. Vencedor do último Festival de Veneza, o filme é o primeiro após "O Segredo de Brockeback Mountain". Lee apresenta mais um de seus amores impossíveis. Ainda sem título em português, e com lançamento programado para fevereiro de 2008, "Lust, Caution" é extremamente bem feito. Com toda acuidade visual típica de Lee, para contar a história de uma moça, Wang Jiazhi, membro de um grupo de resistência chinesa, contra a invasão dos japoneses, na guerra sino-japonesa, dos idos anos 40. A função da bela Wang é seduzir o Sr. Yee, um chinês que trabalha para os japoneses. A direção de Lee é fundamental, mas o vigor de Tony Leung, no papel de Yee e a dubiedade de Wei Tang, como Wang são excepcionais.

Wang ora se mostra apaixonada por Yee, ora parece odiá-lo. Ela mantém essa postura praticamente o filme todo, até o epílogo. As cenas de sexo, que chamaram muita atenção em Veneza, são realmente impressionantes. Neste ponto, a mão do diretor é essencial. Com cenas tão fortes, é fácil cair na pornografia injustificada, como no recente "Nove Canções". Mas o sexo é visceral em "Lust, Caution". A primeira das muitas cenas entre Yee e Wang revela a natureza da relação dos dois. É violenta. O desejo incontido de Yee faz com que ele arranque a roupa dela à força e até bata nela. Porém, à medida que a relação afetiva se estreita, a natureza do sexo também se altera. Os sentimentos dos protagonistas não são expressos em palavras e, raramente, em atitudes. Eles só se revelam quando fazem amor.


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