|
Rocky - Um Lutador
(Rocky, 1976)
Por: Leonardo Heffer
"Rocky – Um Lutador" é um clássico dos
cinemas que abre de forma maravilhosa a
história que vai muito além dos ringues e
retrata anti-heróis e uma vida nada
glamourosa, tomando emprestado estilos
psicológicos dos personagens dos clássicos
filmes "noir".
É impossível não falar de Rocky e não vir à
cabeça uma cena de luta. Para a geração dos
20 anos, a franquia pode chegar até mesmo a
estar erroneamente gravada na memória. Rocky
ultrapassa os limites do ringue e vai muito
mais além, fazendo uma crítica ao estilo
americano de ser na década de 70 (e venhamos
e convenhamos, não mudou muito), buscando
também a questão do sonho que se concretiza
e que o ser humano, na história, é muito
mais do que um ser individualista, mas sim
uma somatória dos seus feitos e atos.
Rocky Balboa é o tipo de cara que sempre foi
mal interpretado. O seu jeito durão sempre o
colocaria na fila dos encrenqueiros. O
trabalho também não era o dos mais dignos,
como ser cobrador de dívidas de um mafioso,
mas morando na periferia de Filadélfia, o
que mais uma pessoa que completou os estudos
até sétima série poderia fazer? Boxeador,
claro. Era apenas mais um bico, para ganhar
um dinheiro extra, mesmo que fosse 17
dólares quando perdesse ou 45 quando
ganhasse. E é vivendo essa vida sem um
futuro aparente, seguindo dia após dia,
compartilhando suas lamentações e
felicidades com Zás e Trás (tartarugas
domésticas) e Moby Dick (um peixinho
dourado) que Rocky segue a sua vida. Com
cara de encrenqueiro, mas com um bom
coração. Apaixonado por Adrian, a tímida
atendente da loja de bichos de frente ao
ginásio onde treina boxe, Rocky tenta ganhar
a sua vida da forma como pode. E a
oportunidade surge quando a luta do
bi-campeão mundial de peso-pesado Apollo
Creed (na versão dublada com o nome de
Apollo Doutrinador) corre o risco de ser
adiada. O adversário de Creed, Mack Lee
Green acaba quebrando a mão e fica
impossibilitado de lutar contra o bi-campeão
no dia do bicentenário da independência dos
Estados Unidos. Outros lutadores famosos
acabam negando a luta, com a desculpa de que
cinco semanas não seriam o suficiente para
enfrentar o bi-campeão. Aí surge a idéia,
dada por Creed, de que "na terra da
oportunidade", o sentimentalismo de oferecer
a vaga a um lutador local pela disputa do
cinturão de campeão de pesos-pesados. Rocky
não é escolhido por sua forma de lutar ou
outra qualidade necessária a enfrentar o
campeão. Sua escolha é devido simplesmente
ao nome fictício que usa nos ringues de
"Ganharão Italiano", já que nome assim
soaria melhor em uma publicidade. Mas Rocky
vê nesse momento a chance de mostrar que não
é só mais um perdido no mundo, e, levando a
sério seus próprios conselhos dados à jovem
Marie (uma jovem que mora no bairro), ele
sabe que é por sua reputação que será
lembrado. Rocky em nenhum momento acha que
possui chances de vencer Apollo Creed.
Afinal, como vencer um bi-campeão dos pesos
pesados? Ele segue a filosofia de que não
precisa vencer, basta fazer algo que nunca
ninguém havia feito antes, agüentar os 5
rounds da luta. E entre seu treinamento, a
descoberta do romance com Adrian e o
convívios com as pessoas próximas de si,
Rocky traçará o momento que o levará a se
tornar imortal diante do país.
A história do filme, criada originalmente em
apenas três dias pelo próprio Sylvester
Stallone, foi embasada em um momento em que
o ator, descrente de sua vida em Hollywood,
entre várias tentativas nada bem sucedidas
de seguir sua carreira como ator, com pouco
dinheiro no bolso e morando em um pequeno
quitinete de 3x4m junto com seu cachorro,
assiste a uma luta entre Muhammad Ali e
Chuck Wepner. Durante a luta, Wepner fez
algo que nunca ninguém havia feito na vida:
nocauteado Muhammad Ali. Mesmo não ganhando,
Wepner ficou marcado na história do boxe
mundial por nocautear um campeão dos boxes.
Foi justamente deste momento que Sly
(apelido de Sylvester Stallone) deu asas à
criação do primeiro tratamento de Rocky, que
logo chamou a atenção de Irwin Winkler e
Robert Chartoff. Passando por diversos
tratamentos, o roteiro chegou a sua versão
final, um tanto diferente da inicial, que
era bem mais sombria. Stallone também
recebeu somatórias enormes (chegando a 450
mil dólares) para não assumir o papel
principal de Rocky, todas elas, negadas de
pronto pelo ator.
O roteiro final toma por base o psicológico
de alguns personagens que marcaram o cinema
da década de 40, intitulado como filmes "Noir".
Personagens descrentes da sociedade,
ambíguos, alienados, formam a galeria final
de alguns principais e secundários da
franquia, o que acaba por dar uma
caracterização muito mais realista ao filme,
tirando um pouco da mágica e do sonho que
tanto envolve o cinema Hollywoodiano. Junto
a estes personagens, há uma crítica à
sociedade americana do espetáculo, que se
torna fantoche ou marionete diante a uma
mídia inescrupulosa e completamente voltada
para o entretenimento. Claro que o roteiro
não deixa de incutir disfarçadamente o
"sonho americano" do pobre desconhecido que
se torna visível da noite para o dia, não
sem batalhar pelo seu lugar ao sol, porém o
que vale muito mais no processo é a forma
como se vive, como se percorre esse caminho
do que o objetivo final.
Também é visível um estilo completamente
diferente em direção. A direção dos filmes
naquela época ainda se permitia a longas
tomadas, algo ainda vindo das décadas
anteriores, que trabalhavam com um estilo
muito mais de teatro do que de televisão.
Planos abertos, movimentos de câmeras e
"zoom" que aproveitavam muito mais
expressões ao invés da excessiva quantidade
de cortes hoje, que leva o cinema a cada vez
mais se assemelhar com a linguagem
televisiva do que algo mais diferente.
A moral defendida na história também é
refletida nos bastidores do projeto. Uma
produção com orçamento de um pouco mais de
um milhão de dólares conseguiu faturar 117
milhões de dólares. Filmado em 28 dias, o
resultado final do projeto foram suas nove
indicações ao Oscar (Melhor Roteiro Original
– Sylvester Stallone - , Melhor Ator –
Sylvester Stallone -, Melhor Atriz – Talia
Shire -, Melhor Ator Coadjuvante – Burt
Young e Burgess Meredith -, Melhor Trilha
Sonora, Melhor Som), sendo responsável por
faturar 3 estatuetas (Melhor Filme, Melhor
Diretor e Melhor Edição). Além disso, o
filme foi eleito diversas vezes nas
premiações do Instituto Americano de Filme,
como Rocky Balboa ser o sétimo herói da
história cinematográfica americana, ser o
quarto filme mais empolgante, estar entre os
100 filmes que marcaram a história do
cinema, e no ano de 2006, o roteiro deste
filme foi eleito como o melhor roteiro de
todos os tempos pelo Sindicato dos
Roteiristas da América.
Tudo isso e seria impossível não falar
realmente das atuações do filme, que seja na
versão dublada (que não perde em nada) ou
legendada, não deixam em nenhum momento de
serem tão grandiosas. Rocky Balboa é o
melhor personagem e a melhor atuação de
Sylvester Stallone, que consegue passar para
o filme todo o peso seu personagem, um dos
poucos momentos mais marcante da vida do
ator. Talia Shire consegue viver de forma
espetacular a tímida Adrian, e através dos
seus olhos, e uma expressão um tanto apática
consegue dar vida a uma interessante
personagem, que visivelmente se completa com
Rocky. Burt Young, no papel do irmão
canalha, consegue equilibrar entre o ódio e
o amor do público, o que de certa forma
acaba cativando um certo carinho pelo
personagem, assim como acontece com o
rabugento treinador de Rocky, Burgess
Meredith. Uma galeria de personagens que
também ficaram marcados na história do
cinema.
Sem nenhuma exacerbação, "Rocky – Um
Lutador" é um dos melhores filmes do século
XX, com certeza estará gravado na memória de
muitos e ainda funciona para várias
gerações. Basta apenas que parte do público
esqueça o estigma da "Sessão da Tarde".
COTAÇÃO: 9/10 |