Rocky Balboa
(Rocky Balboa / Rocky VI, 2006)
Por: Thiago Sampaio
Dezesseis anos após o fraco “Rocky V”, o
sexto filme do boxeador mais famoso do
cinema consegue limpar a imagem ruim deixada
pelo filme anterior, encerrando com chave de
ouro a franquia. E assim como seu
personagem, Sylvester Stallone mostra ao
mundo que não está acabado.
Há alguns anos, Sylvester Stallone,
considerado uma referência para os filmes de
ação, vem colecionando em sua carreira uma
série de fracassos e filmes de segunda. O
velho ditado de que “quem vive de passado é
museu” parece não ser levado muito a sério
por Stallone, que, na esperança de trazer
uma luz à sua carreira, resolve estrelar,
dirigir e roteirizar o sexto filme da
franquia Rocky, um de seus papéis mais
marcantes do passado. Os motivos para
encarar o novo filme com um pé atrás são
muitos, afinal, trata-se de uma tentativa
desesperada do astro em reerguer sua
carreira. Por incrível que pareça, o filme
acaba por se mostrar um belo trabalho, e
para quem é um legítimo fã da franquia
Rocky, este “Rocky Balboa” trata-se de um
belo presente, repleto de referências e
homenagens aos filmes originais.
A glória faz parte do passado para Rocky
Balboa (Sylvester Stallone). Dono do
restaurante Adrian's, batizado em homenagem
à sua falecida esposa, Rocky passa as noites
contando aos clientes histórias de sua época
de lutador. Rocky Jr. (Milo Ventimiglia),
seu filho, não dá muita atenção ao pai,
preferindo cuidar de sua própria vida. Sua
vida muda após uma simulação de computador
colocar Mason Dixon (Antonio Tarver), o
atual campeão mundial dos pesos pesados,
enfrentando Rocky em seu auge. Dixon fez
fama pela facilidade com a qual conseguiu o
título, mas como nunca encarou um oponente
que realmente o desafiasse é considerado por
muita gente como um lutador muito técnico,
mas sem alma. A simulação faz com que o
agente de Dixon resolva realizar a luta,
oferecendo a Rocky uma nova chance de voltar
aos ringues. Para isso, Rocky tem que
enfrentar a descrença de uma povo, que
acredita que sua época já passou.
Antes de tudo, é bom deixar claro que “Rocky
Balboa” é bem mais que uma continuação, é um
típico “filme-homenagem” direcionado aos
fãs. Nele, estão presentes uma série de
detalhes que apenas os fãs irão reconhecer -
e certamente irão delirar – como a aparição
de Spider Rico, primeiro adversário de Rocky
no primeiro filme, o retorno de Marie, que
no primeiro era apenas uma garota e aparece
rapidamente, e até mesmo suas tartarugas de
estimação, Zás e Trás, marcam presença. E
esses são apenas detalhes pequenos perante
cenas de importância para a trama, como a
angústia de seu cunhado Paulie ao relembrar
detalhes do passado, os inúmeros flasbacks
dos quatro filmes originais (acertadamente,
o medonho quinto filme ficou de fora das
nostalgias), os detalhes da rua na cidade da
Filadélfia onde Rocky morava, etc. São
detalhes que para quem não viu os filmes
anteriores, não tornam este ruim, porém,
fica uma certa sensação de vazio. É até
normal que para quem não conhece a fundo a
série, ache esse novo filme demasiadamente
parado, aumentando a adrenalina apenas nos
momentos finais, quando chega a hora da tal
luta.
A grande vantagem do filme é que ele mantém
toda a áurea dramática que marcou os dois
primeiros filmes da série – vale lembrar que
do terceiro em diante, os filmes apenas
apelaram para a ação -, tendo como principal
ponto a interação do personagem principal
com os que estão ao seu redor. Acompanhamos
um Rocky velho, gordo, cuja imagem do
lutador campeão sobrevive apenas nas mentes
das pessoas. E esse Rocky que vemos, é
aquele mesmo a quem fomos apresentados em
1976: bobão, ingênuo, nada inteligente, mas
uma pessoa extremamente íntegra que procura
o bem estar social, e ainda tenta dar lições
de moral. E esse resgate a sua personalidade
é muito bem sucedido, e Stallone que cria
situações bastante propícias, como o momento
em que ele tenta dar um sermão na Federação
de Boxe (com muita dificuldade, vide as
limitações intelectuais do personagem); e
quando ele aborda um grupo de jovens
rebeldes no meio da rua.
Como Stallone já havia dito antes em
declaração, não poderia haver apelo
emocional maior para o filme do que
apresentar a amada esposa de Rocky, Adrian (Talia
Shire, que apenas aparece em flashbacks),
pois quem conhece a série sabe que ela é a
fonte de inspiração e motivação para tudo na
vida de Rocky, e vê-lo tocando sua vida, e
tentando voltar aos ringues sem sua
presença, foi muito bem abordado. Para isso,
a inclusão de Marie (agora vivida pela
iniciante Geraldine Hughes, que cumpre bem
seu dever) na trama, mesmo que um pouco
forçada, foi muito bem aproveitada. Isso
porque, por mais que pareça que Rocky queira
algo a mais com ela ao tentar ajudá-la de
todas as maneiras, percebemos através do
perfil do herói (um eterno apaixonado pela
falecida esposa), que ele apenas quer
companhia, uma figura feminina por perto que
o motive a seguir com suas metas. Da mesma
forma, sua conturbada relação com seu filho
(agora vivido por Milo Ventimiglia, da série
“Heroes”, que apesar da razoável semelhança
facial com Stallone, se apresenta um tanto
inseguro a maior parte do tempo) serve como
forte gancho para a desenvoltura dramática
do herói.
A forte carga dramática é bem construída por
Stallone, mas quando se dá início sua cena
de treinamento para a almejada luta, é
impossível não sentir a adrenalina subir no
sangue e relembrar de todos os momentos de
impacto dos filmes anteriores. Ouvir a
clássica canção “Gonna Fly Now”, de Bill
Conti, e ver Rocky gordo, dedicando-se
duramente para recuperar a forma física, é,
no mínimo, instigante. Pena que as ótimas
cenas de treinamento tenham um tempo tão
curto, pulando logo para a luta final. Por
fim, a luta final é igualmente emocionante.
Diferente das que estávamos acostumados a
assistir, esta se assemelha a uma exibição
de TV, dando um maior realismo e
contemporaneidade. E Stallone demonstra
exímia habilidade na direção nesses
momentos, dando toques únicos, como quando a
o cenário fica em preto e branco com apenas
alguns detalhes coloridos (simbolizando o
novo e o velho em um mesmo espaço). Chega a
um ponto que fica simplesmente impossível
não torcer por Rocky, ao conferirmos toda
sua força de vontade e resistência
sobrepondo sua atual falta de habilidade.
Muitos podem ter achado desnecessária a
realização de um novo Rocky, mas
convenhamos, uma série tão rica como essa
merecia um desfecho melhor do que aquele
quinto filme, e “Rocky Balboa” conseguiu
muito bem esse feito, sendo mais do que uma
conclusão, uma bela homenagem. Assim como o
primeiro filme de 1976, ele consegue nos
transmitir várias lições de persistências,
de acreditar em si próprio, na busca pelo
respeito, e o desfecho fora do clichê
representa bem essas vertentes. Pode parecer
ironia as semelhanças das trajetórias de
Stallone e seu personagem, mas exatamente
por isso é notório tamanho carinho para com
a produção. Que venha "Rambo IV".